A máquina de existir, de Fabrício Marques

Amador Ribeiro Neto

 

Fabrício Marques (Manhuaçu-MG, 1965) é mestre em Teoria da Literatura e Doutor em Literatura Comparada pela UFMG. Professor, jornalista e poeta. Autor de Marquises (1992), Samplers (2000), Meu pequeno fim (2002), A fera incompletude (2011). A máquina de existir (S. Paulo: Pedra Papel Tesoura, 2018) é seu mais novo livro de poemas.

O que se destaca, de chofre, ao término da leitura de A máquina de existir, é a gratificante sensação de ter-se lido uma obra que mantém a excelência da qualidade dos poemas de ponta a ponta. E, ao fazer tal afirmação, reitero a observação do saudoso Carlos Felipe Moisés nas orelhas.

Destaco este aspecto porque já é lugar comum afirmar-se que todo livro tem seus altos e baixos. Praticamente impossível fugir desta destinação. Pois a poesia de Fabrício Marques atinge a maturidade. E o leitor é o grande presenteado.

Com poemas longos, bem longos, outros mínimos, um poema em prosa (proesia), e numa variedade temática que vai das memórias familiares ao sexo com a amada, passando pelas tecnologias (seus recursos, sua terminologia), o livro é uma máquina de engendrar sensibilidades inteligentes.

A linguagem dialoga com a literatura (Drummond, em especial, Bandeira, T. S. Eliot, Valéry, Mário Faustino, Affonso Ávila, Leminski), a música popular (Caetano, destacadamente, mas também Gil, Torquato), as artes plásticas (Hélio Oiticica, Volpi), filosofia (Ortega y Gasset, Nietzsche).

Na composição dos poemas a estrutura está, de tal modo bem incorporada às ideias que, praticamente, passa despercebida. Mas, lá estão, em intertextualidade formal, recursos advindos de diferentes artes: cinema, arquitetura, canção, pintura.  Antonioni, Saura, Le Corbusier, Cartola, Tarsila.

A dicção drummondiana, ora às claras, ora oblíqua, talvez seja a dominante do livro. O grande poeta mineiro é invocado no ritmo dos versos, na invocação do universo familiar e, acima de tudo, na percepção corrosiva da vida. Corrosão que, por vezes, traveste-se de ternura, para amenizar seu impacto. Mas resulta, sim, em amplificação da angústia.

O poema “Uma noite” inicia-se esperançoso: “Ela voltará para casa / e eu a reconhecerei de longe”. E conclui-se de forma aterradora: “Por ora, / todos a procuram / num raio de 16 quilômetros”.

“Deslimites” crava a dor da mesma clave: “Vida, / estamos quites: // você ignora / meus palpites”. E conclui: “infinita- / mente // triste”.

Em “Pólen”, a estagnação da natureza estende-se pelos sentimentos do eu-lírico: “A árvore não cresce mais / e o amor também acabou”.

Esta ausência do amor presentifica-se até quando ele existe, mas não encontra sua expressão em palavras. Transcrevo o poema “Apenas três”:

 

 

 

Consta que a língua portuguesa

tem em torno de 400 mil palavras,

e eu preciso de apenas três

justo as que me faltam

as que não consigo dizer.

 

 

 

Em contraponto à decepção/desilusão do existir há os movimentos de uma máquina que engendra sonhos. E aí o amor surge como “o eixo da vida”, nas palavras de outro orelhista, o Tarso de Melo. Depois de enumerar as dificuldades do existir, no poema que dá título ao volume, conclui: “a luz vai brilhar / como um vagalume / que só acende”. Portanto, não apenas haverá uma luz, mas haverá uma luz contínua a mover a máquina da vida. Afinal, depois de citar textualmente Caetano no poema “Mais-valia”, conclui enfático e otimista, referindo-se a famoso poema de Coelho Neto: “eu escolho ser a chuva / que lentamente dissolve, / fibra por fibra, / as geleiras seculares”. Em tempo: poema resgatado por Torquato Neto em celebrada canção edipiana.

Se há um painel semiótico de artes englobadas pela poesia de Fabrício Marques, sem dúvida a poesia cantada da MPB, ao lado da poesia impressa dos livros, é forte marca d’água a tatuar as fendas dos poemas.

Caetano, explícito em “Mais-valia”, reaparece sutil em “os átomos todos”, de “Felizes”, e em “Totem para o homem zapping”: “sou uns / sou uns e outros a seu dispor”, e oblíquo em “fruta gogoia”, música do folclore baiano imortalizada por Gal, em gravação sugerida por Caetano.

Afora tais aspectos estruturais e estruturantes de A máquina de existir, há versos memoráveis que colam na memória do leitor. Destaco dois: 1. “pra quem está no escuro, tanto faz o sotaque da lua”; 2. “amanhã é domingo, floração de incertezas”.

Enfim, Fabrício Marques publica belo e delicado livro de poesia. Sorte nossa, seus leitores. Transcrevo três poemas.

 

 

CAMADAS

 

Há o mar

 

E dentro do mar

há a nuvem,

pronta para partir.

 

Dentro da nuvem

há uma concha.

 

Dentro da concha,

o que eu mais amo,

pura pérola.

 

Lá dentro do amor,

mil variações de amor.

E dentro das diversidades

há a chuva.

 

Há a chuva.

 

Eu caio

e, dentro da queda,

me levanto em pleno azul.

 

Dentro do azul,

o movimento dos barcos

e a solidão da gávea.

 

Longe e perto

a praia imensa

no país do céu exíguo

 

As longas hastes

de seus dedos tocam

a morada do ser

 

A concha descansa

em alto mar

ora em suas margens

ora lá no fundo

 

E no fundo do fundo

do mais dentro

o silêncio

 

E dentro do silêncio

o abismo

que toda palavra contém

 

a onda perfeita

a pura pérola

o mar

 

sempre recomeçado

 

 

 

DESLIMITES

 

Vida,

estamos quites:

 

você ignora

meus palpites

 

eu aceito

teu convite:

 

cultivar

meu apetite

 

de satélite

que insiste

 

lançar-se

sem limite

 

rumo a tudo

que existe

 

no espaço

entre mim e ti,

 

infinita-

mente

 

triste

 

 

 

 

 

ENQUANTO DORMES

 

Enquanto dormes, sem que percebas,

reparo teu sono: teu corpo, meu mundo.

A luz da arandela incide sobre a movimentação

rochosa do granito, o quarto mudo,

 

eu me pergunto: o que se passa? Teus

200 ossos a me convocar em vário ritmo:

a carne é franca. Ossos não mentem,

a carne é franca, a repetir num rito.

 

Ave, palmas breves; ave, flexor do hálux;

salve, pectínio: tua pelve, minha praia.

E no tumulto do sangue, ave, valva;

salve, átrio; e se joguem na pista, na veia, na raia.

 

Enquanto dormes, amo teu esplênio,

o escaleno anterior e o posterior, dando voltas

– o que se passa? As articulações estalam,

um involuntário sorriso: teu riso, mil volts.

 

Muito acontece enquanto dormes:

vértebras e tendões se entendem, sem áporos;

músculos profundos dialogam,

e amo tudo o que se passa sob teus poros,

 

aqueles mesmos que envolvem, lâminas de tecido,

teu corpo, e respiras, entreaberta fresta,

e me convidas para a algazarra de seres vivos

a que serves de abrigo: teu corpo, uma festa.

 

O movimento rápido dos olhos. O movimento

rápido das pernas. Pra que tanta pressa,

meu Deus? Se fatalmente te sei por um

és-não-és, digo, por um triz, tão presa

 

a mim e ao mesmo tempo tão alheia

ao meu lento escrutínio: teu sono, meu garimpo.

E, não só com os olhos, mas com todos

os sentidos, teu corpo desço e grimpo

 

Súbito, me lembro: hoje, mais cedo,

comeste fruta gogoia. A lembrança brusca

do alimento se aventurando por teu corpo,

a começar do véu palatino, em busca

 

de sossego, de um final remanso onde se dissipe

(o que se passa?) em breves rusgas

enquanto dormes, e é estranho, mesmo para mim,

o crescimento imperceptível de rugas

 

e distraio-me por um segundo, mas retorno

a teu corpo, que nunca é o mesmo: meu pódio

acolhendo uma grande família: prócero,

esplênio e ilíaco, amo vocês, sem réstia de ódio.

 

Teu corpo em repouso, a carne é franca

e fracas são as horas em demasias de relógio.

Aqui, neste quarto, sob o comando de lobos

e hemisférios, enquanto dormes elogio

 

teu corpo em repouso, uma senha – não

para confundir as leis que regem teu sonho –

mas para salvar a desusada emoção

com que penetrei fundamente no teu sono

 

pois sei que estás para acordar, e a mim

só resta o arrepio do toque, apenas sobra

o gesto de deitar em teu colo, doce

e úmida província: teu corpo, minha obra,

 

aquela mesma que com mil chamas

permanece alheia a um mundo em que tudo ruísse

e ainda assim vibrássemos em paz,

até que despertasses, e o teu corpo todo risse.

 

 

 

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3 comentários sobre “A máquina de existir, de Fabrício Marques

    1. De fato, Zuca, consegue. E isso é raro. E, em se tratando de poesia brasileira contemporânea, mais raro ainda. Mérito do Fabrício. Abraço.

  1. Ê Minas! Ê Minas!
    Coisa linda “A máquina de existir”, de Fabrício Marques.
    Essa poesia que você nos apresenta, Amador, lida, assim: por um paulista daqui do extremo oriental.
    Ê Brasilzão bão, sô!

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