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Sobre AMADOR RIBEIRO NETO

Professor, poeta, crítico literário.

Rebis, de Marco Lucchesi

Amador Ribeiro Neto

 

A poesia de Marco Lucchesi é um dos memoráveis patrimônios de nossa produção artística. Ela vem tatuada na pele da mais fina sensibilidade. As revelações do mundo que opera, e a consequente instauração de uma linguagem própria, são luzes num mar jade sob azul celestial.

Esta poesia mergulha no leitor e sustém-no intensa e profundamente. Feita de parcas palavras e exuberantes ideias, suas imagens visuais e sonoras, transporta o leitor deste mundo para outro mais dentro dele. A seguir, lança-o pra outro mundo – galáxia da estupefação gerada e regida no trabalho com a linguagem.

Não há como ler Marco Lucchesi e não ser tomado/possuído pelas filigranas que tecem e imantam os meandros da ourivesaria da palavra.

Palavra nuclear. Palavra epifania. Palavra: ser, morada e essência desta poesia.

A respiração alteia-se. O corpo responde à grandeza de imagens arquitetadas na fruição do amoroso gesto da leitura.

Fruição, gozo, prazer de ler e sentir-se, paradoxal e concomitantemente, no centro do território e na zona limítrofe – do coração e do cotidiano.

Esta poesia é a suspensão do trivial – ainda que, este, necessário. É o elevamento das funções essenciais da vida ao êxtase do enleio. Maravilhamento.  Iluminação.

A mente projeta-se num tapete voador. O coração amalgama-se à cabeça. O corpo todo é redemoinho de delícias, delírios, decisões.

O leitor sente, emociona-se. E não perde o fio da meada. Continua atento e forte. Livre, leve e solto.

Rebis: leitura que nos alça ao mundo da memória e do imaginário. Da história e do sonho. Pasárgada aqui e lá. Uma poesia que une, reúne, argamassa acaso e organização. Sentimento e raciocínio.

Poesia cujo pulsar instaura-se nos volteios entre arfar e refletir.

Um dos perigos que o poeta corre, lembra-nos T. S. Eliot, é perder-se nas emoções. Não que elas sejam dispensáveis. “Mas”, diz Eliot, “o objetivo do poeta não é descobrir novas emoções, mas utilizar as corriqueiras e, trabalhando-as no elevado nível poético, exprimir sentimentos que não se encontram em absoluto nas emoções como tais”.

Poesia, então, é trabalho com a linguagem. É trabalho de coeficiente poético. Ou seja: a palavra e suas manifestações literárias. A palavra e a revelação, não do novo, mas de algo que se faz novo pelo modo tal como é revelado – na percepção de Chklóvski.

Prossegue o poeta de The waste land: “A poesia não é uma liberação da emoção, mas uma fuga da emoção. Não é a expressão da personalidade, mas uma fuga da personalidade”. E conclui regiamente: “Naturalmente, porém, apenas aqueles que têm personalidade e emoções sabem o que significa escapar dessas coisas”.

Marco Lucchesi, em toda a sua produção poética – e Rebis reafirma isso –, sabe valer-se da mais sublime emoção com o mais rigoroso trabalho com a palavra. Nada escapa ao seu zelo com o melhor da linguagem. Faz uma poesia que toca fundo no leitor porque o que conta é a expressão, o modo, a carpintaria do poema. Trabalho este nascido da relação do poeta com a grande poesia de nosso tempo. E com a poesia canônica.

A poesia de Lucchesi dialoga com o passado por presentificá-lo numa da linguagem literária atemporal.

Retomando Rebis. O título do livro é palavra derivada do latim res bina, que significa duas coisas, matéria dupla ou, simplesmente, duplicidade. Rebis significa igualmente magnum opus – ou seja, grande trabalho, grande obra.

A grande obra, geralmente originária de estágios conflitantes, ou mesmo estágios opostos, atinge, ao final do processo, a harmonização. Seria, para Jacques Monod, guardadas as devidas restrições (e polêmicas), algo como o processo que vai do caos à sistematização da necessidade organizadora.

Outra possível  significação para o termo rebis encontramos na mitologia grega. Hermafrodito, filho de Afrodite e Hermes, nascido homem, rejeita o amor de uma ninfa. Esta, por vingança, invoca os deuses para que a unisse, em um só corpo, a Hermafrodito.

Esta duplicidade, este processo contínuo e ambíguo, que permeia a gênese semântica e mitológica do termo rebis, é tomada, por Lucchesi, como um dos mananciais de seu livro. Algo como afirmar que a linguagem da poesia não se (p)rende a um só corpo, sexo, desejo. Ou seja, é grande obra em aberto. Ou, como preconizou Haroldo de Campos, antecipando Umberto Eco, é obra aberta.

Em resumo, a poesia desenvolve um arco que vai da duplicidade, da ambiguidade, do caos à harmonização. Rebis dá-se como este processo conflituoso e, por fim, harmônico.

Certamente por isso o volume encerra ilustrações e projeto gráfico, assinado por Zenilton Gayoso, que exploram os interstícios dos poemas. Seu primoroso trabalho plástico e gráfico é conversa inteligente com os poemas. Confere ao volume o status dúplice de livro de poesia e livro de artista, concomitantemente. Impressos em papel especial, os volumes, numerados e assinados pelos dois artistas, trazem a capa costurada manualmente e o título espelhado, como se diante de poça d’água, rio ou mar.

Rebis, de Marco Lucchesi, é abrigo da mais fina, sublime e tocante poesia. Livro-casa de um mundo que se entrega ao leitor na calmaria de versos desenhados nos brancos da folha. Versos dançarinos em ritmos e harmonias vários. Versos que se desdobram, desmancham-se e desvendam a beleza do sonho e da vida. Porque Rebis é esvaecimento e materialidade. Contenção e gozo.

 

Imerso na beleza lírica desta poesia, encerro com a transcrição de um poema.

 

 

NÃO HÁ SEGREDO

ALGUM NO CORPO DA

PALAVRA

 

OU ANTES

AO COMBINÁ-LA COM VERBOS

E LICORES

 

AO DISSOLVÊ-LA EM

SERPES

E DRAGÕES

 

AO SUBLIMÁ-LA

EM VIVOS

ATANORES

 

TRANSMUTA-SE A

PALAVRA

NO REBIS MISTERIOSO

 

 

 

 

 

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Berimbau de lata, de Tânia Lima

Amador Ribeiro Neto

 

Tânia Lima (São Luís-MA) é poeta e professora de literatura do curso de Letras da UFRN. Publicou Pedra do sol (1996, prêmio SESC-Rio), Bela estrangeira (2001, prêmio Xerox do Brasil), Nus mangues (2003, prêmio “Descoberta da Literatura  Brasileira”, da revista Cult). Faz parte de lutas feministas e antirracistas. Berimbau de lata (Natal: Ed. Sebo Vermelho, 2016) é seu mais recente livro.

A poesia de Tânia é minimalista – ainda que Berimbau de lata traga um longo poema em prosa. Mas mesmo aí a poesia é condensada, numa riqueza de imagens admiráveis e inusitadas. A discursividade também pode ser minimalista, nos lembra Pound: basta centrar-se na condensação das ideias.

Além do minimalismo, o inusitado é uma das faces desta poesia. Inusitado entendido como revelação alumbrada do que, até então, nos era trivial. Assim, a simples concha do mar, que reproduz o som das ondas maravilhando nossos ouvidos de criança, ganha a sedução de outro som, inesperado,  encantador:

 

mar desvirado

concha acústica ecoa

primeiro som do mundo

maracatu de palavras

 

A criação do mundo pelo som tribal dos maracatus, junto ao som primevo das palavras. Octavio Paz nos lembra que a poesia preexiste à prosa. Antes de contar histórias ao redor do fogo o homem já cantava e dançava em musicalidade poética.

O Marco Zero (local de chegada  dos holandeses a Pernambuco) tem mãos que são lidas por uma cigana. Personificar coisas e tomar substantivos como verbos são dois recursos que esta poesia explora com maestria.

No poema “Pra Lia de Itamaracá” os instrumentos musicais transmutam-se em verbos. O resultado é a presença concomitante da ideia de essência do instrumento com a ressonância ágil de sua ação. Não somente a carga da palavra substantiva, mas também o movimento do verbo conjugado.

 

realejo partituras de palavra

retiro som de rabecas

triangulo as flautas de pífanos

misturo ritmos de violino às

bandas de percussão

 

 

Em “Tambor de crioula” temos:

 

Nascem lantejoulas

no sol da zona da mata

caboclo de lança

dedilha para uma tocata

Ogum solfeja pra Iansã

cigana lê as mãos do Marco Zero

Zumbi e Urucungo

chocalha tambor-de-crioula

reco-reco de agogô

alfaia começa BATUCADA

 

A mistura de culturas afro-ameríndias é uma das dominantes deste livro. E o uso das onomatopeias reitera a dimensão rítmica da musicalidade dos poemas. Musicalidade que, aqui, configura-se, prioritariamente africana. E daí rendendo raízes para a cultura nordestina, marca forte do livro.

 

ALFAIAS

Para Naná Vasconcelos

 

!  !

pan-dan-dan-dan-dan

pan-dan-dan-dan-dan

pan-dan-dan-dan-dan

pan-dan-dan-dan-dan

pan-dan-dan-dan-dan

pan-dan-dan-dan-dan

 

As onomatopeias são associadas às inversões espaciais (os conhecidos quiasmos), bem como às anáforas (a repetição de palavras no início, meio ou final do verso). Tais recursos de linguagem imprimem musicalidade tanto pela semântica dos vocábulos, como pela espacialização deles nos versos. A homenagem a Jorge de Lima enfatiza a excelência de qualidade de sua poesia. Assim como pela incorporação que o poeta opera com as culturas afro e nordestina:

 

ESSA NEGA FULÔ

 

rebola os pixains

bum-bum-bum

Qui-ti-bum bum-bum-bum

pandeiro bate-bate

bate-bate tamborzim

tamborzim bate-bate

com(passos) sincopados

maracatu baque solto

atabaque bate-bate

bate-bate zabumba

maracatu baque virado

bum-bum-bum

Qui-ti-bum-bum-bum

maraca(tu)

 

O leitor certamente já se deu conta de como Oswald de Andrade, com sua efervescência antropofágica, faz-se presente em Berimbau de lata.  No poema abaixo, sem título, o irreverente modernista salta no ritmo do maracatu. E bem poderia ser da capoeira:

 

maraca (eu)

Qui-ti-bum Qui-ti-bum Qui-ti-bum

bum-bum-bum !!!

Bum-Bum!!

BUM!

 

Um poema-bomba capsulado em garrafa de coquetel.

 

A cultura popular, como dissemos, norteia a poesia de Tânia Lima. E, em especial, este livro, desde o título – instrumento, música e cultura nordestinas.

 

Catirina

Sobrevoa carnaval

 

Mateus dança

Caboclinhos

 

Reis e Rainhas

Vestem o frevo

 

Caboclo de Lança

Guarda carnaval

 

A Catirina é a personagem feminina movida pela alegria, pela descontração e pelo entusiasmo nos folguedos do Bumba-meu-boi.  Ela é aquela que, grávida, manifesta o desejo de comer uma língua de boi. Pai Francisco, seu marido, precisa cumprir esta missão, ainda que, pobre, não tenha uma só cabeça de gado.

Já Caboclinhos é dança da cultura popular pernambucana, muito comum durante os festejos carnavalescos, em que seus dançarinos fantasiam-se de índios.

O caboclo de lança é uma das figuras mais expressivas do carnaval pernambucano, chegando, por vezes, a ser tomado como ícone destes festejos populares. O caboclo de lança é a principal figura do maracatu rural, também conhecido como maracatu do baque solto.

O poema vale-se desta gama de caracteres populares pernambucanas para, de forma sintética e condensada,  em flashes  cinematográficos, projetar cenas de dança, música, folia, celebração.

Na esteira irreverente da canção “Samba dos animais”, de Jorge Mautner e Nelson Jacobina, bem como no ritmo apaixonante de Jackson do Pandeiro, temos

 

uma galinha

soprano

blues em

mi maior

solfejou: MI-AU !

do outro lado

vira-lata soletrou

UAU….!

 

A recorrência dos neologismos vai na direção do caldeirão das culturas mescladas, miscigenadas, misturadas, reverberadas, renovadas, recicladas. Tudo conflui para um festival de cores, sons,  danças,  saberes e sabores populares.

Tânia Lima toca seu berimbau e bota o leitor feliz da vida. Poesia da resistência feita com maravilhamentos, alumbramentos, descobrimentos. A felicidade tem nome certo: poesia de Tânia Lima.

 

 

 

 

 

 

 

 

A memória é uma espécie de cravo ferrando a estranheza das coisas, de Lau Siqueira

Amador Ribeiro Neto

 

Há muitos anos me ocupo da poesia do Lau Siqueira. E é um ocupar-me, friso, de imensurável deleite. Sua poesia me é companhia em casa, na sala de aula, nos congressos, nas viagens, nas redes sociais, nas férias, nos saraus. Eu a leio porque ela tem algo que me inquieta. E me dá prazer. Me provoca com suas inquietações. Com perguntas – existenciais e estéticas – que, de tão comuns, tão corriqueiras, monopolizam-nos com a força da arte. E da vida.

Lau é um poeta que sabe perguntar. Como sabe. Pergunta, sempre, de forma incomum, estranha, inusitada. Inverte ditados populares. Sacode trocadilhos sonoros em tramas semânticas. Pinça coisas, pessoas, lugares e comportamentos com uma visada de visagens. Mas também de objetividades. E aí mora um dos encantos de sua poesia – não importa se do livro de estreia, se do mais recente.

Bem, este arrodeio todo é pra dizer que a poesia do Lau Siqueira cutuca o leitor com vara curta. Desinstala-o da sua mesmice. Da sua modorra. Do seu cotidiano mal-e-mal. Sacode-o na violência e na doçura de imagens e ideias extraordinárias.

O prazer nasce desta provocação. Afinal, é aqui que a coisa pega. Aqui onde mora o verdadeiro poeta: no lugar em que a palavra poética se apresenta como sangue, carne, osso e tutano. Ou seja: onde a palavra se entrega como matéria bruta das mais intensas vida e linguagem.

Porque a poesia de Lau não se rende aos modismos facilitadores que entendem a poesia como emoção imediata. E descartável. Diluição romântica. Pieguismo. Mimimi. Lau está longe dessa onda de prosaísmos que assola boa parte da produção poética brasileira contemporânea. Ele sabe valer-se do coloquial sem ser banal. Sem resvalar para as imensas galáxias de vazios – considerados como poesia de nossos dias.

Sua poesia não consola. Não passa mão na cabeça do leitor. Não é de autoajuda. E nem manda recados altruístas. Antes: sabe valer-se de conteúdos carregados de significados. Sustança. Sabe que a forma informa. Que a forma é um modo de sublinhar o significado. Que a forma é enxada e perfume nos pampas da palavra.

Se em seus primeiros livros os experimentalismos de linguagem mostram-se às claras, agora, amainados pelo domínio de uma linguagem fluente e doce, entram-nos como que desapercebidos. Esquecemo-nos de que estão ali, sob a arquitetura harmônica e sublime dos andaimes que, em outros tempos, ergueram a mesma poesia – mas com garras expostas. Hoje, assimilados e incorporados, são o feliz resultado de atento trabalho aos sentimentos e ideias que a vida nos traz, a cada dia, ou de tempos em tempos. Afinal, são inumeráveis as errâncias nas andanças, contradanças e pesquisas de um poeta.

No caso, um poeta que nasceu no Rio Grande do Sul e que despontou na Paraíba há décadas. Aqui construiu outra fronteira de sua cidadania político-poética. Uma preciosidade gaúcha que a Paraíba soube cativar. E que hoje vive entre aqui e lá. Entre o agora e o ontem. O presente e a memória. Mão na massa fazendo história.

O poeta Lau Siqueira de hoje é aquele que carrega, escrito em sua camiseta, a memória poética como arma sideral direcionada ao presente. Aprendeu de cor e salteado a lição do poeta: “o presente é tão grande, não nos afastemos”. Detenhamo-nos no aqui e agora. A vida presente. A sua poesia presente.

A memória é uma espécie de cravo ferrando a estranheza das coisas (Porto Alegre: Casa Verde, 2017) extrai seu título dos versos de um poema do próprio livro. A memória não é um cravo ferrando, mas uma espécie de cravo. A singularização da memória a torna personalíssima. E aí, na subjetividade, habita o social. A voz de um é a voz de inúmeros. O uno e o múltiplo na câmara de ecos. Memória do poeta: sublime voz plural.

Outra rápida observação. O título segue: é uma espécie de cravo ferrando a estranheza das coisas – e não das pessoas. A estranheza das coisas é, por exemplo, a estranheza do mundo a ser descoberto. A materialidade da vida. Sua concretude.
Como a descoberta do mundo lispectoriano, por exemplo. E aí, Lau e Clarice, cada qual em seu diapasão, compõe a música da vida-via-linguagem.

No poema “Rua da areia” (p.21), temos:

 

nem dia

nem noite

 

apenas luz

e sombra

 

)            (

 

colibris

e vampiros

 

bebendo a

última taça

 

Na indefinição do tempo (nem dia nem noite, que remete o leitor ao chiaroscuro da pintura renascentista), o contorno fluido das pessoas, mix de doçura e agressão, pluma e chumbo. Afinal, são colibris e vampiros. Simultaneamente. E onde? Na histórica Rua da Areia, em João Pessoa, antigo habitat “chique” da cidade; hoje, zona de deterioração urbana, ponto e referencial de prostituição. A esta atmosfera de indeterminação de formas, luzes e sombras, diluição espaçotemporal, soma-se a sinonímia do vocábulo “areia”: partículas, grânulos, pó. Universo semântico remete o leitor ao rarefeito, efêmero, volúvel, frágil. Ao que se desmancha no ar.

Todavia, o poeta não fala apenas da rua em si, mas do eu enquanto metonímia da vida: geografia instável de assertividade e negação, matéria e não-matéria, corpos e sentimentos. Poesia – em A memória é uma espécie de cravo ferrando a estranheza das coisasteu outro nome é dor, ainda que em argamassa com a alegria. Pluma e chumbo. Sangue e vinho.

Em tempo: os parênteses abrem-se no meio exato do poema, numa estrofe sem palavras, quem sabe para iconizarem um tríduo: pulmões, asas e bordas. Pulmões que sanfonam o vaivém do dia e da noite. Asas que sustentam, na tensão e na leveza, corpos no ar. Bordas da taça: vinho, vida, sexo, amor.

Já que tocamos no centro da cidade, o foco do poema “Porto do Capim” (p. 61) é o centro histórico, contraposto à orla marítima, em perspectiva bela e crítica:

 

a cidade de joão pessoa

nunca olha de frente para o rio sanhauá

 

talvez por vergonha das suas margens

 

a cidade não veste a pele dos que encharcam

os pés nas beiradas do porto do capim

 

onde as cheias aniquilam o pouco

dos que pouco possuem

 

onde os barcos atracam no assoreamento

e no abandono

 

onde um estupro urbanístico é prometido

pelos senhores de engenho das margens

 

os que arrancam as árvores porque

não acreditam nos pássaros

 

a cidade de joão pessoa

esqueceu seu nascedouro

 

virou as costas para onde a verdade

é o reflexo da lua nas águas do rio

 

um lugar onde o esquecimento solidifica

o barro no tempo e a beleza é o alimento

de cada manhã

 

 

O poema, dedicado “para as mulheres que lutam pela preservação do Porto do Capim”, é uma crônica da vida sócio-política da capital paraibana. Partindo das margens do rio Sanhauá, uma construção em leque abre-se para reflexões sobre o uso e (ab)usos da cidade, direitos e privilégios. Sem em momento algum abrir mão do zelo com a linguagem poética, o poeta iça o leitor com contundente questionamento: e o nascedouro, as origens, a história inicial da cidade? Tudo apagado pelo esquecimento? Pelo descaso? Por prioridades que marginalizam ainda mais os excluídos?

Por isso mesmo o título encampa a memória como recorte individual e coletivo, avivando senti(pensa)mentos de todo leitor. Ao abordar histórica e sociologicamente a ocupação da cidade, o poema fornece uma visada dos desmandos políticos que, com raras exceções, negligenciam as necessidades da cidade pobre, daqueles que insistem em dar vida aos sítios onde a cidade nasceu, às margens do rio.

Esta cidade originária é vista como escória para aqueles que têm, como perspectiva urbana, apenas a orla. Assim, o poema é arquitetado como um grito de alerta e denúncia. Sem, em passagem alguma, resvalar para o panfletarismo. Ou para a explanação didática. Com rara beleza de ideias e imagens, numa construção musical admirável, em que as estrofes dísticas se misturam a um terceto e a uma estrofe de um só verso, sublinha o que há de permanência e o que há de desigualdade na cidade  de João  Pessoa,  complexa quanto bela poeticamente.

No campo amoroso, o poema “Agosto” (p. 26), transcrito aqui na íntegra, revela que a dimensão transformadora do eu-lírico não aceita o afrontamento quando o que está em jogo é o amor: “ tu me afrontas / eu te acolho // vivo à flor da pele / não olho por olho”.

Na hora do jogo/embate e da transa/trama amorosos, o afrontamento é rechaçado pela tessitura  de comportamentos opostos que visam à desarticulação da agressividade do outro, convertendo-a em teia de afetos. Para tanto, a sapiencial inversão de um provérbio bíblico tem como finalidade apaziguar, serenar, cativar o outro.

Observemos que o substantivo “olho” pode mudar transmudar-se em verbo: “eu olho”. Melhor, ao “olho por olho” o eu-lírico responde com “eu não olho” por onde? “por olho”. Quer seja, ele não olha pelo olho. Afinal, (1) não lhe interessa a vingança bíblica “olho por olho, dente por dente”, (2)  interessa-lhe olhar não pelo olho, mas, quem sabe, pela pele, pelo corpo, pelo coração, pelos sentimentos.  É com um novo modo de “olhar” que o eu-lírico responde ao confronto. E, no plano formal do poema, a quadra – modo sublime da poesia lírica – é o espaço de que o poeta se vale para revelar sua generosidade. Seu amor.

Seguindo nesta linha de contrastes e confrontos – nada euclidianos –, temos o poema “Sertânica” (p. 30) que ilumina, deslumbra, inspira o coração do eu-lírico: “metade era / soco // outra metade / sopro // e tudo era tanto / pro meu coração / tão pouco”. A poesia enquanto condensação de ideias, imagens, sonoridades – como apregoa Pound. Eis uma das lições minimalistas de Lau Siqueira que leva o leitor a sentir-se de bem com a vida, com a literatura, com as artes. Dentro de um patchwork  da cultura sertânica. É o sertão ganhando o mundo pelas veredas dos sentimentos do poeta.

Muito ainda há a se falar sobre os poemas da primeira parte deste livro. Destaco “Sonhar entre as pétalas do teu corpo” (p. 41), em que o ato de fazer amor é entretecido por imagens e sonoridades em cópula de volúpias, prazeres e alumbramentos. É um poema longo, e aí reside outra particularidade que a poesia de Lau vem tomando nos livros mais recentes. O poeta saber ser minimal e sabe ter fôlego. Em ambos os casos sua poesia é rigorosamente expressão da condensação. Cada palavra é engenharia e engrenagem necessárias à maquinaria do poema. À máquina do mundo poético. À descoberta e revelação do mundo. Lau sabe disso. Por isso faz.

Os tercetos da segunda parte, dedicados a Saulo Mendonça, rendem justa e bela merecida homenagem ao grande poeta haicaísta brasileiro.

Como na maioria dos haicais feitos mundo afora, o universo sideral constela-se nas estrofes de três versos. Em tempo: Lau Siqueira dispensa o rótulo de haicai a seus tercetos. Mas em vários deles, não somente o universo temático desta forma de poesia está presente: também a sua essência poético-oriental a habita.

A clássica figura da lua cheia, tão cara aos haicaístas, aqui aparece como inusitado (ou quem sabe corriqueiro) alvo dentro de uma tranquila (ou insegura) noite: “Subúrbio tranquilo / miro na lua cheia / e atiro”. Aqui as vogais em “i” retinem os tiros. A bem da verdade, a rima toante é uma das constantes na poesia de Lau. Ele sabe extrair som de vocábulos abafados.

O universo sideral prossegue na linguagem ilógica e surreal do amor: “Palavras loucas / línguas conversando / no céu da boca”. Exemplo claro de que língua e boca, palavra e céu são matrizes do amor e da poesia.

À solidão da lua no céu, o eu-lírico acopla a sua, presa ao chão cotidiano: “sensação estranha / a solidão é uma lua / que me acompanha”.

Ainda o espaço sideral. Desta vez, do alto o eu-lírico fornece uma visão melhor do que se passa/passou na terra: “Subirei nas telhas / para ver garrincha / driblando as estrelas”. O contraponto do alto e baixo imprimem um drible às imagens do poema: o vivem entre solo, telhado e céu espelham o jogo em marcações geniais.O futebol ganha um belo terceto. E a rara poesia sobre este esporte passa a contar com um poema antológico.

Por fim, fechando o livro, ao comentar sua produção poética, o Lau presenteia o leitor com um texto em prosa que é uma fieira de maravilhamentos. É quando a poesia adentra a prosa e a torna leve, uma suave, sublime – prosa porosa.

A memória é uma espécie de cravo ferrando a estranheza das coisas é um livro que veio pra ficar na cena da poesia brasileira contemporânea. Bem como na memória e no coração do leitor.

 

 

Ladainha, de Bruna Beber

Amador Ribeiro Neto

Bruna Beber (Duque de Caxias-RJ, 1984), autora de A fila sem fim dos demônios descontentes (2006), Balés (2009), Rapapés & apupos (2010), Rua da padaria (2013 – que comentamos aqui no AP). Ladainha (Record, 2017) é sua mais recente publicação.

Começo com T. S. Eliot, para quem o “sentido histórico” faz com que “um escritor se torne mais agudamente consciente de seu lugar no tempo, de sua própria contemporaneidade. Nenhum poeta, nenhum artista, tem sua significação completa sozinho”. E mais adiante pontua: “Entendo isso como um princípio de estética, não apenas histórica, mas no sentido crítico”.

Pois é. História. Estética. Crítica. Qualidades inerentes a um poeta. Lamentavelmente não encontradas na poesia de Bruna Beber. Ela integra o grupo de poetas que desconhecem a história da poesia. Que ignoram poesia enquanto tradição e atualidade. E que, portanto, nada têm a dizer.

Um grupo que, sem ideias e sem projeto poético definidos, escreve à solta e salteadamente. Que faz reles uso do coloquial e deleta o poético. Mata a poesia pela via de pífio prosaísmo.

Os títulos das três partes de Ladainha já introduzem o leitor às facilidades/ falta de criatividade da poeta: “vidádiva”, “canseios” e “meu deos”.

Há quem queira ver em sua poesia o sinal da fragmentação, da rarefação, da banalização de nosso tempo – também chamado, com garantias teórico-acadêmicas – pós-moderno.

Sem dúvida há a possibilidade de se fazer esta leitura. O problema é que, no caso específico de Bruna Beber, ao se buscar a pertinência entre o texto e a falta de sentido referencial não se é convencido da pertinência (e nem da honestidade) de tais argumentos. E menos ainda de sua aplicabilidade.

Paulo Henriques Britto em Formas do nada (2012), por exemplo, faz grande poesia a partir da negação de sentido das coisas. Consegue operar um isomorfismo entre os poemas e o que eles referenciam. Produz um belo livro. Inquestionavelmente. Mas o poeta é daqueles (raros) que conhecem a linguagem da poesia e sabem como usá-la a fim de produzir uma poesia do anti, do nada, do belo.

Isso falta a Bruna Beber. E falta aos que louvam sua poesia. Nestas horas surge a questão: a quem pensam que iludem aqueles que louvam uma poesia desse naipe? Ao leitor, minimamente informado, não procede o chove-não-molha destes gratuitos elogios.

Ler Bruna Beber, e seus bajuladores, é imergir numa convulsão de clichês, lugares-comuns, estereótipos. Dissimulação e engano de “poesia” e de “crítica”.

Ladainha não é nada mais do que o título antecipa: repetição, cantilena, lengalenga, fastio. Isso mesmo: o livro é um enfeixamento de prosaísmos sem pé nem cabeça. Que em vez ao invés de despertarem o desejo de mais poesia, lançam-no na cova das frases feitas, anotadas em forma de verso.

De volta ao poeta de The waste land: “O fundamental consiste em insistir que o poeta deva desenvolver ou buscar a consciência do passado e que possa continuar a desenvolvê-la ao longo de toda a sua carreira”. Ou seja: o conhecimento da tradição é indispensável para a produção de uma poesia de qualidade hoje. Mas a tradição não pode ser entendida como continuidade da geração anterior, como adesão à sua cartilha, cegamente. “A tradição implica um significado muito mais amplo. Ela não pode ser herdada, e se alguém a deseja, deve conquistá-la através de um grande esforço”. Quer seja: ela envolve estudo, conhecimento, dedicação. E Eliot frisa: esse é o sentido histórico da produção artística, que ele entende como estético.

Tenho escrito aqui no Augusta Poesia que falta a certo grupo de poetas, aqueles que se identificam (consciente ou inconscientemente) com a Poesia Marginal, esta consciência histórico-estética. Prossegue o poeta de Os quatro quartetos: “o mau poeta é habitualmente inconsciente onde deve ser consciente e consciente onde deve ser inconsciente”.

Eis um dos erros de Bruna Beber: sem informação histórica e com um olhar chapado sobre o mundo, patina e não avança. Vejamos alguns poemas de Ladainha.

O poema 97, citado abaixo e na íntegra, apregoa que escrever é associar metáforas a bel-prazer. Descompromissadamente. Lançando ideias ao deus-dará. Certo: a geração frufru de nuvem de algodão adora. Tudo bem, geração. Mas fica a questão: cadê a poesia?

“O poeta utiliza, adapta ou imita o fundo comum de sua época – ou seja, o estilo de seu tempo –, mas transmuta todos esses materiais e realiza uma obra única”, pontua Octavio Paz. Bruna Beber parece não ter a menor ideia do que isso signifique. Exemplo:

 

 

Escrever é irmão

do andar e primo

do voltar, substitua

 

No inverno é bom

 

Escrever com calma

e inventar um cinzeiro flutuante

chegar e sair descalço do poema

 

No verão bombom

 

Escrever sempre

o tempo é uma mula elástica em fuga

e se conselho fosse bom

 

Sair na rua de moletom

 

O poema 79 usa e abusa do uso do recurso da definição – com inventividade zero. Assim como do verso refrão. A musicalidade de manual de poesia resultante da empreitada não traz nenhuma nova taxa de informação ao poema. E a última estrofe é uma pilhéria bem ao gosto do repertório da poeta:

 

Poder é  perigo

e hoje acordei

rindo

 

Dom é tom

e hoje acordei

rindo

 

Querer é criatura

e hoje acordei

rindo

 

Na cara a boca

na pia o prato

sujos de feijão

 

 

Poema 17 é um enxovalhado de verbos no particípio – recurso pobre. E a quadra final arrola  metáforas de gosto deveras duvidoso:

 

 

chamado seguido

alcançado e ladeado

freado, encurralado

enfrentado e açoitado

aproveitado e submetido

 

perdido

dobrado

sucumbido

 

tomado obtido

recebido e levado

envolvido, ocupado

abrangido e bifurcado

expandido e vencido

 

por uma interjeição

de ordem

ao dom:

 

oxalá puindo a roupa

do distúrbio, velando

como música ambiente,

peneira de catar a vida.

 

No livro há dois poemas “concretos”. Ou que almejam sê-lo. Não são. Não conseguem. Mais: revelam o desconhecimento dos princípios da Poesia Concreta.  Acabam sendo debuxos mal lavrados. Revelam, isto sim, o que a poeta sabe de poesia: nada. Ou: qualquer coisa é poesia.  Finalizando, segue o menor deles – visualmente falando:

 

 

só com

só com muito

só com muito vento

 

Seria interessante finalizar esta coluna frisando que Bruna Beber, depois de quatro livros publicados, deve ao leitor de poesia um livro de poesia. Mas é inútil. Que seja poupada. Afinal, não se espera, e nem se tira, leite de pedra.

 

Para quando, de Kaio Carmona

Amador Ribeiro Neto

 

Kaio Carmona (Belo Horizonte, 1976) fez graduação, mestrado e doutorado na UFMG. É professor de literatura. Autor de Um lírico dos tempos (ensaio, 2006) e Compêndios de amor (poesia, 2013). Para quando (Belo Horizonte: Scriptum, 2017) é sua mais recente publicação.

Para quando: o título encerra uma pergunta? Uma reticência? Uma exclamação?

Não há sinal algum de pontuação, mas o título sinaliza para uma das constantes do livro: aquilo que interessa não está nomeado. Vale a espera? Que tempo é esse? Vale o desespero? Vale o silêncio? A contenção? O derramamento?

Há algo que, dirão alguns, beira o místico nos poemas de Kaio Carmona. Para outros, parece que há algo que, simplesmente, escapa a definições. Algo que não se entrega. Que se embrenha na dissimulação e lá faz seu habitat.

Por isso mesmo esta poesia encanta. Ela não parte e nem busca o místico. Ela se instaura e permanece na concretude da realidade. Na materialidade dos corpos.

Há um eu-lírico que lança sua voz a partir de um lugar comum, reles, cotidiano. Mas lança-a com timbres inusitados. Timbres que seduzem nossa audição. Atiçam nossos corpos e desejos. E, por isso mesmo, nos levam a correr atrás. Do quê? Não sabemos. A sedução nos conduz. Seguimos.

O volume está dividido em duas partes: a primeira, homônima ao título do livro, e a segunda, “O eu intermitente”. Ambas com o mesmo denominador mínimo, múltiplo e comum: o amor e suas circunstâncias.

Melhor seria dizer: incomum. Já que o amor, tal como o eu-lírico nos apresenta, embora comum e delimitado historicamente, surge-nos através de formas e modos de uma linguagem que o recria enquanto algo inédito. Recém descoberto. Para ser mais exato é melhor dizer: recém entrevisto.

E aí reside o perigo: o que falar daquilo que já foi mais do que falado/cantado? Na busca pela resposta a essa questão mora uma das qualidades de Kaio Carmona: tocar o mesmo, mas com nova gestualidade.

Outros modos e jeitos. Redizendo: outros des-modos e des-jeitos. Afinal, o poeta opera na faixa da desconstrução do conhecimento alicerçado no senso comum, no déjà-vu, nos saberes canonizados.

O poeta, que é também professor de literatura, sabe que a epifania da poesia deslinda-se na forma do dizer o que busca dizer. E não na mera semeação semântica das ideias. Por isso mesmo seu livro ganha o leitor em vários momentos. Diria até: na quase totalidade.

Sem dúvida alguma, são poemas na linhagem adeliana, naquilo que Adélia foi buscar em Drummond: a naturalidade de uma dicção poética nascida de fonte popular. Daí emerge a poesia das grandes e miúdas delicadezas. Uma poesia que, bela per se, reverbera, despudoradamente, Adélia e a lição do seu mestre, Drummond.

Transcrevo Banquete:

 

E finalmente conheces o amor

e nele apostas teus medos.

Amas com fome:

Dia após dia macerando a carne

com cansaço.

Tenaz.

E amas com raiva.

Torna-te meticuloso de sua posse.

Assassino.

Persecutório.

Vigilante incansável.

Finalmente conheces o amor

Para, conforme a fome, matá-lo.

 

 

Kaio Carmona não se envergonha do vasto amor. Como nada tem a esconder na intertextualidade, pari passu, com a poesia dos dois poetas citados e de outros, dentre os quais, Bandeira, Vinícius, Neruda, Florbela.

O amor não tem fronteiras. Foge a dicionários e influências. Tal como a poesia. E Kaio Carmona sabe disso. Por isso sua poesia é bandeira desfraldada com a obra de grandes nomes de nossa literatura.

Em Adélia Prado ele encontra a reverberação do universo drummondiano. Porém, de ponta-cabeça. Com os malabarismos de outra poesia, cozida ao fogo dos sentimentos. Transcrevo Esse tráfego doméstico:

 

De silêncio em silêncio

– em pequenos sustos –

vai se construindo nosso amor

diário.

Os cômodos da casa ainda são grandes,

como eram grandes os cômodos das casas

antigamente.

E mesmo assim nos esbarramos

de cômodo em cômodo,

esse tráfego doméstico.

Passa por mim sem me olhar e deixa sua mão

aleatoriamente

em algum lugar de meu corpo,

propositadamente.

Sei mais de você por esses encontrões e silêncios

que o seu sorriso, talhado na lida

do mundo das relações.

Seu sorriso:

Pequenos silêncios, pequenos encontros.

E o amor se erguendo no ar.

E o amor se entornando no chão.

 

Mas essa poesia feita da naturalidade da vida e das suas dicções bebe, antes de tudo, nas fontes de Camões e Dante. A grande lírica destes grandes líricos não poderia passar ilesa à poesia de um poeta sensível e ao seu coração. Que é também bombeado pelo sangue de suas leituras enquanto leitor e professor de literatura.

Para quando é um livro pra já. Porque o amor bate à porta. E sua insubmissão é uma lambada na dureza dos dias de hoje, de ontem, de sempre.  Nos dias de hoje, especialmente.

Lambada na dupla acepção: dança/música e paulada/cacetada.

Enfim, poesia de amor. Enfim, poesia de resistência.

 

Bambuzal, de Rafael F. Carvalho

Amador Ribeiro Neto

 

Rafael F. Carvalho (S. Paulo, 1978), bacharel em Letras pela USP, colunista da revista Samizdat, autor de A estante deslocada (2011), A cor do sol (2013), Terceiro livro (2015). O bico do pássaro (Coleção Leve um livro) e Bambuzal (Belo Horizonte: Moinhos), de 2017, são suas mais recentes publicações. Ambas exclusivamente de haicais. Os de O bico de pássaro (na verdade um microlivro) estão todos contidos em Bambuzal. Há apenas um, com formato divergente, em ambas as publicações. Cito-o: “Minha cama é feita / de palha de arroz. Plantar / tem outras intenções”, naquela e “Minha cama é feita / de palha de arroz. / Plantar tem outras intenções”, nesta.

O deslocamento do verbo plantar, no microlivro, semeia novo ritmo e realça a ação do plantio. A interrupção sintática do segundo verso enfatiza a ideia de movimento e, pela pausa, reforça a ambiguidade do verso seguinte: “plantar tem outras intenções”.

Rafael F. Carvalho, ao arquitetar as imagens do poema, revela apurado zelo, realçando-lhes a plasticidade. Todos sabemos que enfatizar a imagem é um dos princípios balizares do haicai. Ao lado do enfoque meditativo. Até aí, nada demais. No entanto, o diferencial de Carvalho está no zelo descritivo das imagens, entretecido por vieses de minúcias. E também na mirada reflexiva que vaza os versos.  Esta dupla associação gratifica.

Gratifica pelo sublime em si. Gratifica por pensar o mundo por outros ângulos.

Ora o tempo percebido no ato de matar a sede nas águas do rio. Ora a chuva e o arroz sendo cozido, conjuntamente, pelos moradores da aldeia. Ora os brotos crescendo sob o quimono molhado no bambuzal. Ora a noite assobiando em forma de lua, no bico do pássaro. Etc.

Insisto: o poeta trabalha seus haicais com filigranas de requintada elaboração. E aqui, trabalho e requinte nada têm de erudição vazia. Ou empolada. Antes: o requinte deste trabalho está em verticalizar o coloquial numa dicção ainda mais fluente. Musical. Imagética. Quer seja: poética, de primeiro grau.

É quando a magia cria morada na fala do dia a dia.

Onde residem a beleza e a delicadeza destes haicais? Na semeadura das ideias em campos de imagens, na associação da beleza plástica à reflexão filosófica.

É a filosofia encantando-se pela pintura. Como em O casal Arnolfini, de van Eyk ou em As meninas, de Velázquez.  Quer seja: quando filosofia e arte amalgamam-se. Quando pintura e poesia veem-se dentro de si: reverberações em espelhos, quadros, reflexos.

Os haicais de Rafael F. Carvalho operam esta síntese brilhantemente. Apontam para fora e veem-se internamente. Tal como a leveza das folhas do bambuzal, lindamente espalhadas/espelhadas na capa do livro. Movimento que alcança a quarta capa como suave sinfonia.

Em tempo: o projeto gráfico do volume, capa, título e fontes de impressão estão em harmonia zen com os haicais. Tudo é leve, tudo se move. Tudo é finesse. Brisa de encantamentos, o volume é sedução gráfica para os olhos, mente e coração do leitor.

O universo temático haicaísta faz-se presente pela cartada da palavra-curinga arroz – e suas derivações: palhas de arroz, cozer o arroz, comer o arroz. E está contido no uso de vocábulos como lua, noite, insetos, plantação, aldeia, quimono, bambu, mar, pássaros, etc.

O tempo de preparar a comida, as estações do ano, o ato de contar histórias, observar a noite, tocar um instrumento, cuidar da plantação, dar-se conta da velhice – tudo converge, em flashes rápidos e certeiros, para modos de vida familiares ao leitor.

O todo conflui para a beleza da poesia carvalhana. Lê-la é adentrar numa projeção da memória em que as imagens vêm carregadas de ideias. Ideias de quem não somente olha o mundo, mas olha-o pensando, refletindo, sentindo. Significando e ressignificando numa folha de bambu, num bico de pássaro.

A emoção de ler Rafael F. Carvalho é a de encontrar sutilezas na vastidão bruta da vida.

Hoje, poesia, teu nome é encanto, carinho e cuidado em Bambuzal.

 

Bebendo água em

um rio vi cabelos

grisalhos: inverno

 

 

Chove na aldeia:

todos cozinham

seu jantar de arroz

 

 

Meu quimono seca no

pé de bambu. Percebo

brotos crescendo debaixo

 

 

O bico do pássaro

tem a forma da lua:

A noite vai assobiar

 

 

O rochedo leva

o mar para o céu:

estrelas de sal

 

 

Só as crianças

fazem leite de arroz:

a velhice é bruta