Hinos matemáticos

Amador Ribeiro Neto

 

Marco Lucchesi (Rio de Janeiro, 1963) é professor da UFRJ, poeta, romancista, ensaísta, tradutor, crítico literário, memorialista, missivista, roteirista, organizador de antologias, organizador de obras, editor de revistas literárias, membro da ABL. Foi contemplado com vários prêmios nacionais e internacionais. Tem livros traduzidos para o árabe, romeno, persa, russo, turco, polonês, híndi, sueco, húngaro, urdu, bangla e, claro, inglês, francês, alemão, espanhol e italiano. Publicou, os seguintes livros de poesia: Bizâncio (1997), De passione (2000), Alma Vênus (2000), Poemas reunidos (2001), Sphera (2003), Meridiano celeste & bestiário (2006), Clio (2014). Hinos matemáticos (Rio de Janeiro: Dragão, 2015) é sua mais recente publicação.

A poesia de Marco Lucchesi é de um lirismo arrebatador. Poucos conseguem, como ele, aliar erudição e leveza, ciência e sentimento, matemática e amor. Assim é, e não poderia ser diferente, em se tratando do poeta que é, Hinos Matemáticos, um livro que desafia o leitor com fórmulas matemáticas poucamente esclarecedoras. Mas com formas poéticas abundantemente tocantes.

Uma poesia que nos rememora a velha lição valéryana: poesia e matemática são duas abas do mesmo chapéu. Mas Lucchesi vai além da simples equação aritmética. Interessa-lhe a musicalidade contida na matemática. Aquela mesma música a que toda poesia aspira ser. O “espólio inabordável entre 0 e 1”,  como enuncia o poema “Busca do ouro”.

As imagens sucedem-se numa espiral que toca os mesmos pontos. E neste apoio conhecido, impulsionam-se pra novos volteios.

 

E as formas que não cessam

de crescer

 

Delírios fugazes

Líquidos lampejos

 

dizem os versos finais de “Solilóquio fractal”. O espaço em aberto. Expandindo-se. E isomórfico a ele, a poesia. Formas, delírios, lampejos: o leitor percorre galáxias em movimentos e banha-se num erotismo riscado a arpejos de luz e gozo.

O poema que abre o livro incandesce caminhos do devir. Cito “Canteiros”, na íntegra:

 

Um fósforo desata momentâneo

os fios de uma noite sem estrelas

 

No céu azul de Samos

voam ímpares.

E os pares sobrenadam

nas águas do Ilissos

 

O jardim

o conjunto de canteiros

E a floresta sombria e ilimitada

 

Como domar a astúcia do infinito?

 

O fósforo não acende, não ilumina: desata os fios de uma noite escura. Os raios do fósforo são os fios que, ao invés de clarear, ampliam a dimensão do escuro. Entre estes versos e os finais há a ilha grega de Samos, seu rio Ilissos, os canteiros do jardim, a floresta “sombria e ilimitada”. A ilha: locus de suspensão da vida. O rio antigo, hoje canalizado e subterrâneo: a dimensão espacial do lado de lá. Para além dos olhos. No entanto, tão próxima aos pés.

Depois do poeta construir a imagem sideral na progressão de “jardim”, “conjunto de canteiros” e, por fim, “a floresta”. Como se não bastasse a vastidão em si, é uma floresta “sombria e ilimitada”. Quer seja: o desconhecido dentro do desconhecido dentro do desconhecido.

Por fim, o verso que encerra o poema projeta este espaço como indomável em seus ardis, argúcia e sagacidade.

Estamos diante de um poeta que soma a matemática à vastidão do espaço – e configura-a na mais delicada poesia. Em filigranas do sublime.

Esse é o movimento presente em todos os poemas. Próximos e distantes. Perto e desconhecidos. A matemática e a palavra. Duas fontes de força bruta. O homem busca entendê-las para cantá-las. O poeta mergulha na estética da matemática para, nela, situar e localizar sua poesia. Daí o título do livro: Hinos matemáticos.

O poema “Primeira prova” orquestra a busca desta música precisa:

 

Orquídeas

resplandecem

no quintal

A geometria

de fogo

de suas pétalas

e a forma

do silêncio

em que se apoiam

Trago

o coração perdido

e os olhos tersos

da breve epifania

Toda flor

desponta

no seio do silêncio

e ao seio

do silêncio

acorre e se dissolve

Lembro

de Hardy

indo ao

fundo

silêncio

dos gregos

Teoremas

         cheios

   do frescor da beleza

          de quando foram descobertos

Dois mil anos

e sequer

uma ruga

em seu puro semblante

(Euclides

e a infinidade

dos números primos

Pitágoras

e a raiz quadrada

irracional de dois)

Os desenhos

                  do matemático

     e do poeta devem

                                         ser belos

Flores

teoremas

desmaiam

em súbitos

jardins

sob                              crepúsculos

fugazes

A beleza é a primeira prova

                   da matemática

 

 

Como consta das Notas que acompanham o volume, os versos em itálico são extraídos de Em defesa de um matemático, de G. Hardy.  No Posfácio intitulado “A espiral e o sonho dos meninos”, o poeta explica que “a ideia de beleza na matemática, que se encontra em diversos autores, como Hardy ou Poincaré, causou em mim grande impacto. Como se me deparasse com uma verdade perdida, um substrato arqueológico que me parecia estranhamente familiar e decisivo”.

Um vetor de leitura possível para este livro é seguir as orientações do poeta nas imprescindíveis Notas e no esclarecedor Posfácio. Todavia, isto não impede que uma outra leitura se faça na contramão destas orientações. É aquela leitura em que o eu lírico desenreda-se do estrato matemático dos poemas e mergulha nas epifanias das imagens em alumbramentos de sons e sentidos. Outros sons. Outras imagens. Outros sentidos. Para além da matemática. Para dentro da poesia em si.

Esta navegação, que se norteia pelo hino, pelo canto, pela enunciação dos significados por vir, é a do encantamento que a música produz nos ouvidos e nas sensibilidades. A entrega da beleza em estado de graça. Sem preço algum. Sem merecimento algum. Entrega da poesia em revelações inusuais. Revelações de pura entrega e vasto gozo.

Então, mergulhado nestas galáxias de imagens (sonoras, visuais e semânticas), o leitor chega ao cerne da matemática sem a necessidade dos teoremas e das teorias. É quando o poema “Lendo Hadamard” ganha as ganas do leitor tomado pela beleza lírica dos poemas de Marco Lucchesi. Cito-o na íntegra:

 

Perdem-se os primos {venerandos números}

quando num bosque em plena madrugada

sob a lira cintilante de Orfeu

põem-se a bailar mais bravos e dispersos

 

O imaginário

{nuvem     bosque      pensamento}

é o atalho cristalino da matemática

 

 

A poesia vence. Entendemos o poeta quando diz: “o vínculo entre a beleza e a matemática há de trazer novos ventos para as matemáticas no Brasil, rompendo uma cláusula de barreira cultural. O direito dos meninos e das meninas de sonharem nos campos do pensamento matemático”.

Somos todos meninos e meninas. O sonho da poesia é nosso mundo.  Obrigados ao poeta pela sua imensa poesia. Galáxia entre galáxias que nos leva a imensuráveis espaços – de caos, de exatidão, do fractal, do geométrico infinito. Espaço sideral de enternecedor lirismo.

Mostruário mundo: a poesia de Letícia Palmeira

Amador Ribeiro Neto

Letícia Pereira nasceu em São Paulo, em fevereiro de 1976. Mudou-se para João Pessoa em meados dos anos 80, cidade em que reside atualmente, e passou a escrever livros e diários de forma incessante. Além de publicar livros nos gêneros conto, crônica, novela e romance, a autora organizou e participou de diversas coletâneas e antologias.

Em 2019, com a publicação do livro “ Mostruário persa”, invadiu, à sua maneira, o vasto universo da poesia.

Escrever é o princípio, diz autora, sempre que é questionada sobre literatura em entrevistas.

”Mostruário persa” é delicado e encantador artefato desde o projeto gráfico. Daqueles livros pequenos, mas não tão pequenos a ponto de se colocar no bolso.  Nem do tamanho normal, a ponto de não caber confortavelmente na mão.

É de um vermelho pitanga na capa e possui um orifício de fechadura naquele ponto exato em que a fechadura se instalaria se a capa fosse uma porta. No orifício vê-se desenhado, a bico de pena, apenas o contorno de quatro objetos, cada um de uma cor, e circundando o olho mágico da fechadura, quatro arabescos que dançam destacando os nomes da autora e do livro. No centro de tudo, e embaixo, a vela, o ícone da editora Penalux, foi parar dentro de um candeeiro. Perfeito A imagem da capa é da Luyse Costa. Luyse é uma das grandes capistas do mercado editorial hoje.

Depois de vista e lida a capa, a Apresentação, assinada pela própria poeta, encerra-se com um convite: “Entre e encontre seu artefato”.

O leitor entra, desliza e deslinda-se em beleza. Encontra seu artefato logo de cara, e logo o perde porque encontra outro mais belo. E o perde também porque há outro, sucessivamente, mais belo. E, como numa espiral ascendente, perde, acha, etc. e etc., espiral afora.

No entanto, o leitor não somente está dentro de uma espiral, mas também dentro de um caleidoscópio que se move. Move-se e reflete. Reflete e refrata as partes.  As partes e o todo, tal como a poesia procede, age, atua. FAZ. A “poiésis” da poesia.

Tudo se move, reflete, refrata, dentro de um caleidoscópio, dentro de uma espiral… Transcinematográfico. Holocinematográfico.

Assim, “Mostruário persa” dá-se como um livro de poesia sobre a linguagem da poesia.

Mas também pode ser o contrário disso, nada disso, se estamos acostumados com poesia em verso, com poesia em imagem, com poesia visual, com poesia verbo-voco-visual, com poema em prosa, com proesia, com proema, com prosa porosa, com poesia rimada, com poesia de verso branco, com miniconto,….

Da mesma forma, se estamos acostumados com metalinguagem, como o poema referindo-se ao próprio poema, o poema enquanto objeto do próprio poema, e conceitos afins, talvez seja interessante repensemos também este conceito. Antes de mais nada, porque estamos repensando o conceito de poema, de poesia, a partir deste livro de Letícia Palmeira.

Em tempo: não nos propomos, e seria quixotesco fazê-lo, repensar tais conceitos aqui e neste exíguo espaço. E espaço de leveza (risos). Apenas toques.

O interessante é que Letícia Palmeira, com “Mostruário persa”, livro de poesia, coloca em cena tais questões. E aí reside seu mérito e seu nó górdio.

Nó górdio porque – e aqui recorro ao termo ‘texto’ a fim de não ser contaminado por nenhum outro já carregado ideologicamente – seu texto não se encaixa, “a priori”, nem em poesia em prosa e muito menos em miniconto.

O que se lê de poesia em prosa é, via de regra, prosa vazada por esfarrapadas características da linguagem poética. O resultado acaba sendo, na melhor das hipóteses, um poema ainda fortemente prosaico ou uma prosa carregada nas tintas da poesia. Em suma: um produto final marcado pela indistinção: não diz ao que veio. De Baudelaire, que inaugurou o estilo, aos mais duvidosos dos cadernos culturais digitais de hoje, como bem nota o poeta e ensaísta Paulo Toledo, é um “imbróglio” só.

Letícia Palmeira passa ao largo disso.

Seu mérito mora em fugir dos minicontos que buscam registrar em  micronarrativas, lapsos poéticos: o estranhamento, a ambiguidade, o andamento melódico, a construção icônica, etc. Resultado: querem unir a objetividade da prosa com a ambiguidade da poesia. Raríssimas vezes o hibridismo funciona. Na maior parte dos casos e causos, o produto é um ornitorrinco verbal.

Em “Mostruário persa”, o texto é uma narrativa, possui eu-lírico, e em várias passagens pode ser classificado como neorromântico. No entanto, não é piegas, não foge à realidade, não é saudosista, não é sentimental, não é onírico, nem edênico. Talvez seu romantismo repouse no elogio e na invocação que faz da inspiração, quando se levanta contra o uso puro, simples e frio da técnica. E no andamento imagético e rítmico de algumas passagens que remetem o leitor ao estilo clariceano, um estilo com tiradas neorromânticas.

No poema 3, intitulado “Dialética”, o leitor vai se dar conta de que a ironia é fino, elegante e sofisticado recurso da poeta.

A ironia, por si, companheira das dissimulações e prima das astúcias, está presente neste poema, desde o título e a epígrafe, que cito: “Escrever é liberdade de expressão / Liberdade vigiada / Mas não deixa de ser palavra / E palavra diz quase tudo / Ou quase nada”.

Na sequência, o poema enumera algumas características do escritor: o escritor quadrado, “da narrativa ensaiada e equilibrada com rede de proteção”. É o tecnicista, que não ousa nunca e, ao contrário, aplica os manuais de “bem escrever”, disciplinadamente. Outro tipo: o escritor plantonista instantâneo: capta a palavra que lhe vem à mente e não a trabalha. É o produto bruto, fruto puro de um “insight”. O terceiro tipo é o escritor ambivalente, aquele que adora um trocadilho barato. Não percebe que o trocadilho da literatura é de outra verticalidade. O quarto tipo é o escritor saliente. “Caminhando, fingindo displicência, cresce feito erva daninha. Esse tipo é aparente e enche a boca de dente e má-criação, invadindo a arte cheio de vaidade com seu clamor por ser aplaudido”.

E depois de citar os quatro tipos – curioso como ela não fica com os já canonizados “três tipos, três modalidades, três funções, três etapas, etc.” e nem completa os redondos “cinco”. Prefere morrer nos “quatro”, talvez para ironizar a “tradição”. E então conclui com uma frase bombástica que lhe rende um único parágrafo:

“O mundo está cheio de nós”.

Bem entendido: nós enquanto pronome pessoal (e aí o eu lírico se incluiria, ironicamente) e nós enquanto substantivo (funcionando metaforicamente) – outra ironia, que envolveria escritores e leitores.

Finalmente, depois de breves considerações, conclui seu poema com essas tiradas: “Eu, por defesa, jamais me denominaria escritor. Não é meu ofício. Tudo o que faço é ´por distração, pois sou prolixo, genioso eu-lírico, e escrevo apenas pra esboçar sorriso frente à plateia de prontidão”.

Poesia da mais fina cepa. Metalinguagem, linguagem e significado. Tudo somado em alta voltagem. Tem o que dizer, tem a forma de dizer, tem o modo de se comentar.

Enfim, o leitor lê, se diverte, se instrui, sabe mais, tem mais.

Sente que o que lê tem mais sabor, dá mais prazer.

Literatura é isso aqui.

Entre neste mostruário e vá escolhendo seu artefato. Agora foi o poema 3. Entre mais.

O poema 5, intitulado “Artesã” é um rol de promessas feitas a si próprio pelo eu-lírico. E a cada atividade exercida, o leitor vai vendo nascer à sua frente um eu metamorfoseante e bem curioso. Religioso, conservador, piegas, infantil, doce, humilde, ingênuo, etc., até que se depara, por exemplo, com um empenho assim: “vou expandir minha contínua hipérbole de ser”.

E algo soa estranho. Fora do lugar. Fora da ordem. Fora do pensamento. Fora do trivial. “A hipérbole de ser”:  o que significa? Se “ser” já é uma grande questão existencial, para não dizer filosófica, que dizer da “hipérbole de ser”? E abrindo mais o verso: “minha contínua hipérbole de ser”. Há, então, um projeto continuado da hipérbole de ser? E abrindo todo o verso todo: “vou expandir minha contínua hipérbole de ser”. Esta promessa de explosão galáctica de ser, lança o eu lírico para além do que enunciado, já que a reverberação sonora (com licença, leitores, mas não é complicado e é rapidinho….) eu dizia, a reverberação sonora da bilabial de /p/ e /b/ em “ex/P/andir” e “hi/P/ér/B/ole” associada às toantes (= vogal tônica) em /i/ de “expand/I/r”, “m/I/nha”, “cont/Í/nua” lançam o objeto-desejo para esferas nunca dantes sonhadas, para espaços siderais ainda mais infinitamente infindos.

Escute o som mudo das bilabiais /P/ e /B/ associadas às vogais tônicas agudas /I/ no espaço sideral.

Agora pense no ganho de ambiguidade de sentido das palavras associado à musicalidade, a imagética poéticas.

Pronto. Eis a força da poesia, seu tempo, lugar, espaço, aço e flor.

Eis o diferencial da poesia de Letícia Palmeira e seu “Mostruário persa”.

Há tantos artefatos neste mostruário que ele já é armazém, venda, empório, vendinha, casa sertaneja, mercado, entreposto, alojamento, casa, museu. Morada da palavra. Morada da palavra. Morada do ser. Morada da poesia.

Ficar de olho no olho mágico da porta, no portal da capa do livro é um eu e eus nos acudam, deus nos livre-livro nos seduz e por isso portas se descortinam abertas. Signos se alçam no ar de cada arabesco, feito em sol, em sonho, em si. A realidade pede mais. A poesia, matéria viva, em beleza estende a mão. Na mão um livro pulsa. A poesia toda pulsa. No meu peito, no meu coração, na minha mente. No peito e no coração siderais, espaços infinitos afora. Ninguém segura a belezura da poesia sem dono deste mundo redondo sem fronteira.

Irresistivelmente gostosa

Amador Ribeiro Neto

Rosana Piccolo é poeta paulistana inquieta, provocativa e inovadora.

Nunca havia lido um livro seu, até que me caiu nas mãos “Bocas de lobo” (Patuá), num desses envios gentis do Eduardo Lacerda. De cara ela escancara o mundo dos usuários crack, os vaga-lumes vagando, no cenário de devastação urbana de uma tristíssima São Paulo, cidade tomada como tema do livro. E me ganhou de cheio.

Rosana Piccolo (São Paulo, 1955), é formada em Filosofia pela USP e em Jornalismo pela Cásper Líbero. Além de “Bocas de lobo” (2015), publicou “Ruelas profanas”(1999), “Meio-fio” (2003), “Sopro de vitrines” (2010), “Refrão da fuligem” (2013) e “O pão” (2018). Todos de poesia. “Alla prima” (2019, Patuá) é seu mais recente livro.

Depois de lido o livro recebido, saí atrás dos demais. Por isso digo: Rosana Piccolo é poeta de uma obra de leitura imprescindível, apaixonante, inquietantemente gostosa e arrebatadora.

Ela não se cansa de reinventar-se. E de nos cutucar em nossos sentimentos e criações.

Criações de arte, de poesia, de vida.

“Alla prima” é uma antologia do que a própria poeta considera o mais representativo de usa produção. Além de poemas inéditos. Tudo reunido indistintamente. Misturado. Quem não conhece a obra de Rosana não distingue o inédito do publicado. Não faz mal. Critério único: qualidade poética.

Poesia em sincronia. Poesia em sintonia. Poesia em harmonia.

O resto que se exploda.

Rosana Piccolo quer mais galáxias e estrelas em redes infinitas de gozos sígnicos. Corpos em cópulas.

Num primeiro momento, como no primeiro sexo, o leitor pode perder o chão. Não por desorientação. Mas por encanto imenso. A perda do referencial por imersão total nele. A perda de si por adentrar-se absoluto no outro. E o alter. É a poesia.

Esta entrega, por um instante, é o “inestante”.

Dura um quanto imensurável.

Tempo. Tempo. Tempo. Um senhor tão bonito quanto a cara do Bernardo, meu filho.

Eu vivencio esta belezura pura pureza.

Puro azul celeste celestial.

Você vive esta belezura pura pureza.

Puro azul celeste celestial.

Sem saber.  Sem sabermos. Imersos nela.

Total. É a poesia da Rosana Piccolo. A seda azul do papel que envolve a maçã.

.

“Cerimônia do chá”

Em uma dessas vitrines, dubiamente iluminadas

pela hora mágica, pode ser visto o tatame.

O braseiro rivaliza o pôr do sol. Fumega o incenso,

fumega sem fim. A caligrafia da chuva já foi removida.

Rente à parede, nasce o ikebana da nova estação.

Possível ver os convidados, três ou quatro.

E o gestual do anfitrião – lá fora assoviam sacis,

arrepio no crânio das cerejeiras. O vaso, a cumbuca,

utensílios de nome poético foram retirados do recinto,

de entrada tão pequena que o samurai aí se agacha,

espadas do lado de fora.

O chá é vulcão adormecido: por um tremor derrama

o perigo, e queima, e dói, e não é? Há também a estampa

dos quimonos, cuja flor é tão perfeita que a natureza

não soube imitar.

.

A poesia de Rosana Piccolo tem a força mágica de lançar o leitor no vaivém intergaláctico das mais inusitadas combinações de: 1) sentidos; 2 sensações); 3) músicas; 4) formas; 5) ideias; 6) gozos; 7) complete você mesmo… 

O leitor estanca para, passo seguinte, emergir-se em alumbramento.

Este auto-encontro entre o que sente perceber e o que percebe ser, desenha uma dinâmica que, ah!, susta-lhe a respiração – ora em fôlego curto, ora sem fôlego algum.

Magia medra o devaneio. Mas também a certeza.

Quem sabe o que é poesia, quem penetra seus mistérios e materialidades, seus meandros e geometrias, quem penetra suas reentrâncias e saliências, convive com sua essência, sua rarefação e concreção, seu gole de absinto e porção de alfenim. 

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“Diário do dia”

O dia chega aos trancos, nas presas da serra elétrica.

Com negra gordura vela o semáforo, britadeiras

latejam no chão difícil. Detém-se no arranha-céu.

E empilha suas dentaduras de prata.

Chega estridente. E vocifera, e machuca a manhã

de tímpanos frágeis. Na chaminé desabafa,

mistura gel e fumaça – penacho de pressa

nos cafés expressos.

O dia saliva nas filas. No comedouro do meio-dia

e meia, onde a carne esfria; e se requenta

em banho-maria.

E desaba. E pisoteia letreiros, esquinas desencantadas.

E se enrodilha nas placas como fio embaraçado. E se

estica, e se esgarça

meu coração aos soluços.

Enfim o rapto da noite – ascende em bicicletas

e pombos recolhidos – na praça dos meu lagos,

onde enterro o céu no chão.

.

Às galáxias destas sensações e maravilhamentos vêm somar-se a estupefação e o encanto dos que são tomados pelo amor.

1. Amor à linguagem da poesia, antes de tudo.

2. Amor à vida, acima de tudo.

A coreografia dos signos em dança desenha, passo a passo, passo sim, passo não, o compasso & o descompasso das: (a) ideias; (b) sons; (c) imagens.

à tudo em close à tudo em uníssono à tudo em foco à tudo uno & múltiplo & plural.

PORQUE em Rosana Piccolo, cada poema é sempre lido como o primeiro, o inicial, o único. Mesmo que já lido, é como se pela primeira vez, tal seu grau de inventividade. Mesmo que você o conheça, lê-lo é partir do grau zero da leitura. E isso o faz obra prima, isso o faz ser como o primeiro, daí o título desta antologia que já nasce admirável.

Lê-se Rosana Piccolo e sente-se inspirado. Com vontade de fazer poesia – se você já é poeta ou com vontade de ser. Ou se você está lendo o Correio das Artes, isto já é um sinal de que você lê livros com muitas coisas escritas, considera a arte e os artistas importantes e etc. e tantas coisas óbvias mais…

Voltando. O leitor sente-se inspirado ao ler Rosana Piccolo, tal como desejava o querido Valéry, para quem o poeta não tinha de se sentir inspirado. Isso não dizia muito para fazer boa poesia. Sentir é pouco. É preciso dominar a arte da linguagem da palavra para fazer poesia. Se sentir bastasse, os bares estarias lotados de excelentes poetas. E não é bem assim. Mas esta é conversa para outro CEP 20.000.

Rosana Piccolo faz poesia à flor da pele & à flor da mente. O intelecto premiado pela sensibilidade de formas que informam e seduzem. Ideias em parceria com os sentimentos. Inventividade e emoção. Por isso vale a repetir, leitor: eis uma poesia inovadora e irresistivelmente gostosa de ser lida – melhor: irresistivelmente gostosa de ser devorada.

Publicado em CORREIO DAS ARTES de janeiro de 2020, Ano LXX, Nº 11. Suplemento Literário do Jornal A União. João Pessoa-PB, p. 23-24.

Apareceu a Margarida

Amador Ribeiro Neto

 

Roland Barthes, filósofo dos signos e dos sentimentos. Diz que a vida é feita de pequenos golpes de solidão.

Solidão das perdas. Dos vazios. Das frustrações. Das doenças.

Não estamos conseguindo manter estirada a linha dos compromissos do cotidiano. Aqui e ali a linha afrouxa. Esgarça. Arrebenta.

Passam os dia. Ajambramo-nos aos descompassos dissonantes.

Pousamos a mão sobre o coração. Sentimos. Pulsar leve. Pulsar afoito. Tributos.  Atributos.

Tribulações.

Para frente.

Pique? Pouco. Quase nenhum.

Alegria? Um tiquinho.

Projeto? Buscar. Construir. Resistir.

Em abril deste ano, uma amiga. Queridíssima. Uma irmã. Que João Pessoa amalgamou ao meu peito paraibano. Há vinte e oito anos amalgamou.

De repente um câncer surgiu no músculo do braço direito. Câncer muscular? Câncer bobo, decretei. Errei. Cinco meses depois. Morta. Grande golpe da solidão.

O olhar vívido. A risada franca e maravilhosamente estrepitosa. A irreverência dos modos tropicalistas. O feminismo despojado. A convivência fraterna com deus e o diabo na terra do sol e do frio. Na rua e na universidade. Desafiando a sisudez dos caretas. Tua alegria de viver e reinventar a alegria fica conosco, Berna, Bernadete, Bernadete Rodrigues Palhano.

A vida é real e de viés, pontua o poeta Caetano. Vivo entre João Pessoa e rio. Por que não posso chorar?

Choro. Pinto. Gravo. Escrevo. Enquanto procuro um araçá na fruteira dos dias que ficam. Que restam.

Em março deste ano iniciei a seleção dos melhores poemas de um renomado poeta. A antologia deveria ficar pronta em outubro. Estamos em novembro. A vida é feita de pequenos golpes de solidão. Fui golpeado por ela em setembro de 2018.

Os poemas a serem selecionados. Lindamente lindos. Do mais tocante lirismo. Sempre habitaram meu dia a dia. Invadiram meu sono. Deu tempo de escolhê-los a tempo. O restante do livro ficou pendente.  Quem me encomendou o trabalho, entendeu, etc., ponto.

O gosto acre do golpe da solidão persiste. Fica. Fixa. Tinge de bílis o dentro e o entorno do coração.

Nesse tempo todo. Como fui esquecer da vida? Como a vida pôde esquecer de mim? Mistérios do tempo, o senhor tão bonito. Quanto fugidio.

Fiquei na geladeira? Meio desligado em stand by? Apagado em off? Que diferença faz?

Sem saber, fui transformado num capítulo de Machado de Assis. Aquele que você acaba de ler. E que o narrador pede para ser deletado. Rasgado. Esquecido. Capítulo inútil. Passa pra frente. E novamente, deleta. Livro vão. De narrador ranzinza.

Ou um fragmento de Clarice. Qualquer livro. Em que ela esbraveja não se compreender. Estar exaurida de viver. Não entender as coisas divinas. Menos ainda quem é Deus. O ser Deus.

Mas onde é que eu estava mesmo? Ah, sim, na esfera sideral da poesia do grande poeta.  Há anos me cubro de constelações na belezura de cada livro seu. Virei até galáxia lírica de alta excelência. Possuído pela magia de fina emoção. Emoção.

Uma vez, há dezesseis anos, nos corredores do CCHLA da UFPB, o querido amigo Sérgio de Castro Pinto, depois de apoiar carinhosamente a mão em meu ombro, disse-me, com toda a calma que lhe é peculiar: “Amigo, Amador, li seu Barrocidade. Você escreve bem, poeta. Mas é preciso botar mais emoção nestes poemas”. Fez uma pausa e frisou: “Mais emoção!”.

Hoje me lembro de sua observação e rio gostosamente. Na hora, não tive muita reação. Fui pego pela surpresa. Fiquei impactado como o caipira que chega pela primeira vez à rodoviária da capital paulista. Não sabe para onde olhar. Para onde ir. Perplexo. Continua parado. Continua observando.

Não disse sim. Nem não. Confesso que sabia, antes de lançar meu livro, quem estaria à direita e à esquerda dele. Quem me festejaria. Quem me alçaria à forca. Mas aquela opinião de Sérgio me pegou de calças curtas (risos). Completamente inesperada à minha bola de cristal cerebral.

Os anos passaram. Dezesseis anos depois estou lançando Poemail que, acredito, de certa forma, é uma resposta à orientação afetuosa e certeira do poeta e amigo SCP. Não sei se tão bem, e tanto, como ele queria.  Mas, a tentativa está feita. (mais risos).

Não que eu tenha reservas ao Barrocidade. Longe disso. Longe mim. Nem considero Poemail superior a ele, como o prefaciador deste o fez em relação àquele. Barrocidade possui uma unicidade de linguagem inovadora, que ainda hoje continua soando como um objeto não identificado no cenário careta de parte considerável da poesia brasileira contemporânea. Em tempo: Não sou um poeta ególatra, nem falsamente modesto, frise-se.

Ronald Polito, em prefácio esclarecedor e muito bem escrito, valoriza imenso o Poemail, pelo que lhe sou muito grato. Traça rotas de leitura, ao mesmo tempo em que lê, com rara sensibilidade, poemas que somente o olhar de um crítico-poeta sensível, competente e despojado, é capaz de fazer.

Mas é do poeta Sérgio de Castro Pinto, o mais expressivo poeta paraibano desde Augusto dos Anjos, que eu falava. E a ele volto.

Fui reler um de meus teóricos favoritos – Paul Valéry. E lá encontrei Sérgio. O rigor aliado à emoção. E como eu não vira isto antes? Pois é: a tal da leitura diretiva. Eu colhia o que me interessava. Quanto ao resto, passava batido. Meus olhos tinham viseira.

Agora, mais velho, mais zen, menos afoito. Aprendi a comer o magro do prato. Delicio-me melhor com o cajá das teorias e da vida. O mesmo cajá de sempre. O tempo é que está sendo usufruído de outro modo.

Barthes, Lucchesi, Polito e Sérgio têm uma coisa em comum: valem-se da palavra com parcimônia. Lirismo. Lírica social. Tudo muito sublime.

E foi devido aos golpes da vida. Aos breves intervalos de perda e recuperação. Dor e felicidade. Vazio e aconchego. Interrupção e continuidade. Que a coluna Festas Semióticas. Como a margarida. Reapareceu.

A vida é feita de lampejos de felicidade.

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* Na foto, Bernadete Rodrigues Palhano, minha querida amiga Berna.

Publicado em Correio das Artes nº 9, Novembro 2019, Ano LXX, p. 30-31, João Pessoa-PB.

Parapsicologia da decomposição, de Ademir Assunção

Amador Ribeiro Neto

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Ademir Assunção (Araraquara-SP, 1961) é poeta, contista, romancista, músico e jornalista. Em poesia publicou: LSD Nô (1994, 2ª edição em 2014), Zona Branca (2001, segunda edição em 2006), A musa chapada (2008, em parceria com Antonio Vicente Pietroforte), A voz do ventríloquo (2012, Prêmio Jabuti – primeiro lugar), Tempo instável na tarde dos anjos desolados (2011), O Caio e o Cuio (2013, infantil que comentamos nesta coluna), Pig Brother (2015), Até nenhum lugar (2015). Parapsicologia da decomposição (Juiz de Fora: Espectro Editorial, 2017) é sua mais recente publicação.

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A Espectro Editorial tem se caracterizado por publicar autores que primam pela excelência de qualidade. Parapsicologia da decomposição faz jus ao rigor da editora.

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Com epígrafes de Chico Science (canção “A cidade”) e de João Cabral (poema “Psicologia

da composição”) a plaquete de Ademir Assunção anuncia a que veio: tomar a poesia como corpo ativo da cidade, da vida humana, da linguagem. Por isso mesmo vale-se de vozes polifônicas com diferentes dicções e uma só direção: denúncia da violência /canto de amor à vida.

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O poema “não tem trema, não tem métrica / não tem esquema”, porém “tem treta com a polícia / tiros na surdina das noites / sangue, urina, esperma”. E a voz do eu-lírico anuncia: “vamos de parte em parte”, “sim, por partes / que todos sabemos / a vida é breve, / e o que sobra é arte, / se tanto, / gesto pleno de espanto”.

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Com espanto e sem pressa adentramos uma “terra devastada”, tsunami de fraturas (sociais e pessoais) expostas.

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Fundem-se no poema a realidade e a sua expressão, a mineralidade cabralina e o caldeirão manguebeat. Afinal, “não há pureza na palavra / bala”. O enjambement craveja o substantivo “palavra” com a sugestão de várias significações. Para, enfim, perfurá-la com o tiro da violência.

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Mas “a palavra pele / incita a música, a flauta vértebra”. E aí o poeta invoca a companhia outro poeta renitente: Maiakóvski: “De corpo a corpo verta a alegria. / Esta noite ficará na História. / Hoje executarei meus versos / na flauta de minhas próprias vértebras”.

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Em Parapsicologia da decomposição, Ademir canta e decanta o corpo. Canta ao tomá-lo como mote. Como metáfora da poesia. Decanta-o ao separar-lhe o que é impureza. As misturas de asfalto e sujeira ao corpo que se esfacela, esfarela, derrama, decompõe: “pele viva sobre o asfalto pedra / (a exatidão da palavra / fóssil), / (o engenho da palavra / agronegócio)”.

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O suplício do corpo de um indivíduo é o suplício coletivo de uma nação arruinada, com “bananas esquecidas na geladeira, / morangos mofados na fruteira”.

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A poesia, que aqui se apresenta como poesia-denúncia, nem de longe é a poesia digestiva, fácil, didática e panfletária. É a poesia-valise: linguagem-bomba que explode ao contato de coração e mentes desassossegados. Antes: em ebulição.

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Esta verve o poeta já revelara em A musa chapada e em A voz do ventríloquo. Agora, enfatiza proposta e a linguagem num poema-síntese, minimalista e, como sempre, fértil em intertextualidades com outros artistas – da palavra, da canção, das artes plásticas.

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O poema de Ademir percorre o chão de asfalto e salta no ar, onde “aviões colidem no céu / de brigadeiro”. Um bom exercício musical é ler o poema em voz alta enfatizando os enjambements, quer seja, os versos que vão buscar sentido (rítmico, sintático, semântico) na linha seguinte do poema.

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Uma explosão de emoções crispa-se no corpo do leitor e do ouvinte. Ambos se contraem. A poesia tem destas maravilhas nos versos dos grandes poetas: arrancam com a mão a emoção de nosso corpo todo. Jogam-na no ar, em explosões de agonia, prazer e delírio.

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Beleza que o significado, pleno de significâncias, associado à forma do poema, proporciona.

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A vida também explode “na telas do computador”, onde “se trava uma guerra / contra a morte dos líquidos / no corpo ainda vivo”. Corpo ao sol, lixo descartado. Mas ainda vivo. Na tela do computador há uma esperança: palavras dançam e uma “ninfa febril” sobe aos céus, carregando Hagoromo, seu manto de plumas.

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Aqui, o oriente encontra-se com o ocidente. A vida com a morte. A tragédia com a busca de sua superação. E o leitor convulsiona-se: o processo de composição do poema não é o da acumulação, da organização linear. Antes: é a desconstrução, metáfora da decomposição do corpo atingido pela bala. “A camisa vazia / vestia um vivo / antes do zumbido da bala”. E ao final desta parte: “Não só a camisa / mas a calça também vazia”.

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Na penúltima parte do poema, voo, asa e bala descrevem o percurso do tempo e da morte. A vida é alçada enquanto (como) pergunta / dúvida / questionamento: “a morte / do vivo / sem a bala?”.

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Na parte final, pulso e pulsação – marcações de ritmo – revestem-se de novos redimensionamentos e convidam o leitor a reinventar a trajetória da bala, da vida, poesia, da História.

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Uma parte do paideuma deste poema: Cabral, acima de tudo. Chico Science, o fundo lítero-musical. T. S. Eliot, a dureza da terra devastada: memória e poesia. (Em tempo: nova e rica tradução de Gilmar Leal dos Santos: A terra árida). Drummond na revivificação do fóssil, míssil, istmo, espasmo e áporo. Haroldo de Campos, Caio Fernando Abreu, Artur Bispo do Rosário: rosácea de afinidades sincrônicas.

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“Saio do meu poema / como quem lava as mãos”: Cabral. “Entro no meu poema / como quem suja as mãos”: Ademir.

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À releitura de Psicologia de composição. À leitura de Parapsicologia da decomposição.

 

A máquina de existir, de Fabrício Marques

Amador Ribeiro Neto

 

Fabrício Marques (Manhuaçu-MG, 1965) é mestre em Teoria da Literatura e Doutor em Literatura Comparada pela UFMG. Professor, jornalista e poeta. Autor de Marquises (1992), Samplers (2000), Meu pequeno fim (2002), A fera incompletude (2011). A máquina de existir (S. Paulo: Pedra Papel Tesoura, 2018) é seu mais novo livro de poemas.

O que se destaca, de chofre, ao término da leitura de A máquina de existir, é a gratificante sensação de ter-se lido uma obra que mantém a excelência da qualidade dos poemas de ponta a ponta. E, ao fazer tal afirmação, reitero a observação do saudoso Carlos Felipe Moisés nas orelhas.

Destaco este aspecto porque já é lugar comum afirmar-se que todo livro tem seus altos e baixos. Praticamente impossível fugir desta destinação. Pois a poesia de Fabrício Marques atinge a maturidade. E o leitor é o grande presenteado.

Com poemas longos, bem longos, outros mínimos, um poema em prosa (proesia), e numa variedade temática que vai das memórias familiares ao sexo com a amada, passando pelas tecnologias (seus recursos, sua terminologia), o livro é uma máquina de engendrar sensibilidades inteligentes.

A linguagem dialoga com a literatura (Drummond, em especial, Bandeira, T. S. Eliot, Valéry, Mário Faustino, Affonso Ávila, Leminski), a música popular (Caetano, destacadamente, mas também Gil, Torquato), as artes plásticas (Hélio Oiticica, Volpi), filosofia (Ortega y Gasset, Nietzsche).

Na composição dos poemas a estrutura está, de tal modo bem incorporada às ideias que, praticamente, passa despercebida. Mas, lá estão, em intertextualidade formal, recursos advindos de diferentes artes: cinema, arquitetura, canção, pintura.  Antonioni, Saura, Le Corbusier, Cartola, Tarsila.

A dicção drummondiana, ora às claras, ora oblíqua, talvez seja a dominante do livro. O grande poeta mineiro é invocado no ritmo dos versos, na invocação do universo familiar e, acima de tudo, na percepção corrosiva da vida. Corrosão que, por vezes, traveste-se de ternura, para amenizar seu impacto. Mas resulta, sim, em amplificação da angústia.

O poema “Uma noite” inicia-se esperançoso: “Ela voltará para casa / e eu a reconhecerei de longe”. E conclui-se de forma aterradora: “Por ora, / todos a procuram / num raio de 16 quilômetros”.

“Deslimites” crava a dor da mesma clave: “Vida, / estamos quites: // você ignora / meus palpites”. E conclui: “infinita- / mente // triste”.

Em “Pólen”, a estagnação da natureza estende-se pelos sentimentos do eu-lírico: “A árvore não cresce mais / e o amor também acabou”.

Esta ausência do amor presentifica-se até quando ele existe, mas não encontra sua expressão em palavras. Transcrevo o poema “Apenas três”:

 

 

 

Consta que a língua portuguesa

tem em torno de 400 mil palavras,

e eu preciso de apenas três

justo as que me faltam

as que não consigo dizer.

 

 

 

Em contraponto à decepção/desilusão do existir há os movimentos de uma máquina que engendra sonhos. E aí o amor surge como “o eixo da vida”, nas palavras de outro orelhista, o Tarso de Melo. Depois de enumerar as dificuldades do existir, no poema que dá título ao volume, conclui: “a luz vai brilhar / como um vagalume / que só acende”. Portanto, não apenas haverá uma luz, mas haverá uma luz contínua a mover a máquina da vida. Afinal, depois de citar textualmente Caetano no poema “Mais-valia”, conclui enfático e otimista, referindo-se a famoso poema de Coelho Neto: “eu escolho ser a chuva / que lentamente dissolve, / fibra por fibra, / as geleiras seculares”. Em tempo: poema resgatado por Torquato Neto em celebrada canção edipiana.

Se há um painel semiótico de artes englobadas pela poesia de Fabrício Marques, sem dúvida a poesia cantada da MPB, ao lado da poesia impressa dos livros, é forte marca d’água a tatuar as fendas dos poemas.

Caetano, explícito em “Mais-valia”, reaparece sutil em “os átomos todos”, de “Felizes”, e em “Totem para o homem zapping”: “sou uns / sou uns e outros a seu dispor”, e oblíquo em “fruta gogoia”, música do folclore baiano imortalizada por Gal, em gravação sugerida por Caetano.

Afora tais aspectos estruturais e estruturantes de A máquina de existir, há versos memoráveis que colam na memória do leitor. Destaco dois: 1. “pra quem está no escuro, tanto faz o sotaque da lua”; 2. “amanhã é domingo, floração de incertezas”.

Enfim, Fabrício Marques publica belo e delicado livro de poesia. Sorte nossa, seus leitores. Transcrevo três poemas.

 

 

CAMADAS

 

Há o mar

 

E dentro do mar

há a nuvem,

pronta para partir.

 

Dentro da nuvem

há uma concha.

 

Dentro da concha,

o que eu mais amo,

pura pérola.

 

Lá dentro do amor,

mil variações de amor.

E dentro das diversidades

há a chuva.

 

Há a chuva.

 

Eu caio

e, dentro da queda,

me levanto em pleno azul.

 

Dentro do azul,

o movimento dos barcos

e a solidão da gávea.

 

Longe e perto

a praia imensa

no país do céu exíguo

 

As longas hastes

de seus dedos tocam

a morada do ser

 

A concha descansa

em alto mar

ora em suas margens

ora lá no fundo

 

E no fundo do fundo

do mais dentro

o silêncio

 

E dentro do silêncio

o abismo

que toda palavra contém

 

a onda perfeita

a pura pérola

o mar

 

sempre recomeçado

 

 

 

DESLIMITES

 

Vida,

estamos quites:

 

você ignora

meus palpites

 

eu aceito

teu convite:

 

cultivar

meu apetite

 

de satélite

que insiste

 

lançar-se

sem limite

 

rumo a tudo

que existe

 

no espaço

entre mim e ti,

 

infinita-

mente

 

triste

 

 

 

 

 

ENQUANTO DORMES

 

Enquanto dormes, sem que percebas,

reparo teu sono: teu corpo, meu mundo.

A luz da arandela incide sobre a movimentação

rochosa do granito, o quarto mudo,

 

eu me pergunto: o que se passa? Teus

200 ossos a me convocar em vário ritmo:

a carne é franca. Ossos não mentem,

a carne é franca, a repetir num rito.

 

Ave, palmas breves; ave, flexor do hálux;

salve, pectínio: tua pelve, minha praia.

E no tumulto do sangue, ave, valva;

salve, átrio; e se joguem na pista, na veia, na raia.

 

Enquanto dormes, amo teu esplênio,

o escaleno anterior e o posterior, dando voltas

– o que se passa? As articulações estalam,

um involuntário sorriso: teu riso, mil volts.

 

Muito acontece enquanto dormes:

vértebras e tendões se entendem, sem áporos;

músculos profundos dialogam,

e amo tudo o que se passa sob teus poros,

 

aqueles mesmos que envolvem, lâminas de tecido,

teu corpo, e respiras, entreaberta fresta,

e me convidas para a algazarra de seres vivos

a que serves de abrigo: teu corpo, uma festa.

 

O movimento rápido dos olhos. O movimento

rápido das pernas. Pra que tanta pressa,

meu Deus? Se fatalmente te sei por um

és-não-és, digo, por um triz, tão presa

 

a mim e ao mesmo tempo tão alheia

ao meu lento escrutínio: teu sono, meu garimpo.

E, não só com os olhos, mas com todos

os sentidos, teu corpo desço e grimpo

 

Súbito, me lembro: hoje, mais cedo,

comeste fruta gogoia. A lembrança brusca

do alimento se aventurando por teu corpo,

a começar do véu palatino, em busca

 

de sossego, de um final remanso onde se dissipe

(o que se passa?) em breves rusgas

enquanto dormes, e é estranho, mesmo para mim,

o crescimento imperceptível de rugas

 

e distraio-me por um segundo, mas retorno

a teu corpo, que nunca é o mesmo: meu pódio

acolhendo uma grande família: prócero,

esplênio e ilíaco, amo vocês, sem réstia de ódio.

 

Teu corpo em repouso, a carne é franca

e fracas são as horas em demasias de relógio.

Aqui, neste quarto, sob o comando de lobos

e hemisférios, enquanto dormes elogio

 

teu corpo em repouso, uma senha – não

para confundir as leis que regem teu sonho –

mas para salvar a desusada emoção

com que penetrei fundamente no teu sono

 

pois sei que estás para acordar, e a mim

só resta o arrepio do toque, apenas sobra

o gesto de deitar em teu colo, doce

e úmida província: teu corpo, minha obra,

 

aquela mesma que com mil chamas

permanece alheia a um mundo em que tudo ruísse

e ainda assim vibrássemos em paz,

até que despertasses, e o teu corpo todo risse.

 

 

 

Rebis, de Marco Lucchesi

Amador Ribeiro Neto

 

A poesia de Marco Lucchesi é um dos memoráveis patrimônios de nossa produção artística. Ela vem tatuada na pele da mais fina sensibilidade. As revelações do mundo que opera, e a consequente instauração de uma linguagem própria, são luzes num mar jade sob azul celestial.

Esta poesia mergulha no leitor e sustém-no intensa e profundamente. Feita de parcas palavras e exuberantes ideias, suas imagens visuais e sonoras, transporta o leitor deste mundo para outro mais dentro dele. A seguir, lança-o pra outro mundo – galáxia da estupefação gerada e regida no trabalho com a linguagem.

Não há como ler Marco Lucchesi e não ser tomado/possuído pelas filigranas que tecem e imantam os meandros da ourivesaria da palavra.

Palavra nuclear. Palavra epifania. Palavra: ser, morada e essência desta poesia.

A respiração alteia-se. O corpo responde à grandeza de imagens arquitetadas na fruição do amoroso gesto da leitura.

Fruição, gozo, prazer de ler e sentir-se, paradoxal e concomitantemente, no centro do território e na zona limítrofe – do coração e do cotidiano.

Esta poesia é a suspensão do trivial – ainda que, este, necessário. É o elevamento das funções essenciais da vida ao êxtase do enleio. Maravilhamento.  Iluminação.

A mente projeta-se num tapete voador. O coração amalgama-se à cabeça. O corpo todo é redemoinho de delícias, delírios, decisões.

O leitor sente, emociona-se. E não perde o fio da meada. Continua atento e forte. Livre, leve e solto.

Rebis: leitura que nos alça ao mundo da memória e do imaginário. Da história e do sonho. Pasárgada aqui e lá. Uma poesia que une, reúne, argamassa acaso e organização. Sentimento e raciocínio.

Poesia cujo pulsar instaura-se nos volteios entre arfar e refletir.

Um dos perigos que o poeta corre, lembra-nos T. S. Eliot, é perder-se nas emoções. Não que elas sejam dispensáveis. “Mas”, diz Eliot, “o objetivo do poeta não é descobrir novas emoções, mas utilizar as corriqueiras e, trabalhando-as no elevado nível poético, exprimir sentimentos que não se encontram em absoluto nas emoções como tais”.

Poesia, então, é trabalho com a linguagem. É trabalho de coeficiente poético. Ou seja: a palavra e suas manifestações literárias. A palavra e a revelação, não do novo, mas de algo que se faz novo pelo modo tal como é revelado – na percepção de Chklóvski.

Prossegue o poeta de The waste land: “A poesia não é uma liberação da emoção, mas uma fuga da emoção. Não é a expressão da personalidade, mas uma fuga da personalidade”. E conclui regiamente: “Naturalmente, porém, apenas aqueles que têm personalidade e emoções sabem o que significa escapar dessas coisas”.

Marco Lucchesi, em toda a sua produção poética – e Rebis reafirma isso –, sabe valer-se da mais sublime emoção com o mais rigoroso trabalho com a palavra. Nada escapa ao seu zelo com o melhor da linguagem. Faz uma poesia que toca fundo no leitor porque o que conta é a expressão, o modo, a carpintaria do poema. Trabalho este nascido da relação do poeta com a grande poesia de nosso tempo. E com a poesia canônica.

A poesia de Lucchesi dialoga com o passado por presentificá-lo numa da linguagem literária atemporal.

Retomando Rebis. O título do livro é palavra derivada do latim res bina, que significa duas coisas, matéria dupla ou, simplesmente, duplicidade. Rebis significa igualmente magnum opus – ou seja, grande trabalho, grande obra.

A grande obra, geralmente originária de estágios conflitantes, ou mesmo estágios opostos, atinge, ao final do processo, a harmonização. Seria, para Jacques Monod, guardadas as devidas restrições (e polêmicas), algo como o processo que vai do caos à sistematização da necessidade organizadora.

Outra possível  significação para o termo rebis encontramos na mitologia grega. Hermafrodito, filho de Afrodite e Hermes, nascido homem, rejeita o amor de uma ninfa. Esta, por vingança, invoca os deuses para que a unisse, em um só corpo, a Hermafrodito.

Esta duplicidade, este processo contínuo e ambíguo, que permeia a gênese semântica e mitológica do termo rebis, é tomada, por Lucchesi, como um dos mananciais de seu livro. Algo como afirmar que a linguagem da poesia não se (p)rende a um só corpo, sexo, desejo. Ou seja, é grande obra em aberto. Ou, como preconizou Haroldo de Campos, antecipando Umberto Eco, é obra aberta.

Em resumo, a poesia desenvolve um arco que vai da duplicidade, da ambiguidade, do caos à harmonização. Rebis dá-se como este processo conflituoso e, por fim, harmônico.

Certamente por isso o volume encerra ilustrações e projeto gráfico, assinado por Zenilton Gayoso, que exploram os interstícios dos poemas. Seu primoroso trabalho plástico e gráfico é conversa inteligente com os poemas. Confere ao volume o status dúplice de livro de poesia e livro de artista, concomitantemente. Impressos em papel especial, os volumes, numerados e assinados pelos dois artistas, trazem a capa costurada manualmente e o título espelhado, como se diante de poça d’água, rio ou mar.

Rebis, de Marco Lucchesi, é abrigo da mais fina, sublime e tocante poesia. Livro-casa de um mundo que se entrega ao leitor na calmaria de versos desenhados nos brancos da folha. Versos dançarinos em ritmos e harmonias vários. Versos que se desdobram, desmancham-se e desvendam a beleza do sonho e da vida. Porque Rebis é esvaecimento e materialidade. Contenção e gozo.

 

Imerso na beleza lírica desta poesia, encerro com a transcrição de um poema.

 

 

NÃO HÁ SEGREDO

ALGUM NO CORPO DA

PALAVRA

 

OU ANTES

AO COMBINÁ-LA COM VERBOS

E LICORES

 

AO DISSOLVÊ-LA EM

SERPES

E DRAGÕES

 

AO SUBLIMÁ-LA

EM VIVOS

ATANORES

 

TRANSMUTA-SE A

PALAVRA

NO REBIS MISTERIOSO