Louise Glück, prêmio nobel de poesia

Amador Ribeiro Neto

Louise Glück (1943) poeta e ensaísta nova-iorquina. Contemplada com  destacados prêmios literários nos Estados Unidos, como a Medalha Nacional de Humanidades, o Prêmio Pulitzer, o Prêmio Nacional do Livro, o Prêmio National Book Critics Circle Award e o Prêmio Bollingen. Em 2020 laureada com o Prêmio Nobel de Literatura “por sua inconfundível voz poética que com austera beleza torna universal a existência individual”.

No Brasil a Companhia das Letras publicou-lhe Poemas (2006-2014)  e agora acaba de lançar Receitas de inverno e da comunidade (2022, trad. de Heloisa Jahn).

O livro surpreende pela linguagem discursiva direta, despojada e hipnótica.

Estruturado, ora como diálogo entre o eu lírico e um interlocutor, ora como voz única do eu-lírico, os versos longos e reflexivos, mesclados a descrições curtas e certeiras, vão direto ao alvo e fisgam o leitor do início ao final de cada um dos quinze poemas que compõem esta coletânea.

A angústia da vida e seus dilemas diários são vistos sem mascaramento algum. Deus não está presente uma única vez nos versos de Glück. Como se a poeta de setenta e nove anos houvesse chegado à conclusão de que as ilusões da vida não mais valessem a pena serem prolongadas. A dura plenitude do cotidiano é escancarada às claras e talvez por isso o eu lírico, depois de tantas viagens, um dia jogue seu passaporte no mar.

Ele afundou na hora.

Para o fundo, para o fundo, enquanto eu continuava

fitando a água vazia.

O tempo todo o concierge olhando para mim.

Venha, disse ele, segurando meu braço. E começamos

a dar a volta no lago, meu hábito cotidiano.

Estou vendo, disse ele, que você já não

quer retomar sua antiga vida,

ou seja, mover-se em linha reta como no tempo

sugere que façamos, e sim (fez um gesto na direção do lago)

num círculo que aspira

àquela quietude no âmago  das coisas,

embora eu prefira pensar que ele também lembra um relógio.

Nesse ponto ele tirou do bolso

o grande relógio com que sempre andava. Desafio você, disse,

a concluir, olhando para isto, se hoje é segunda ou terça.

(…)

A força do diálogo num ritmo avassalador toma o leitor de um golpe e abre um abismo aos seus pés, forçando-o a repensar a lógica poética que organiza o lirismo dos versos. Há um  estranhamento inicial que um prazer da descoberta converte em alumbramento.

É o que sentimos em “História de criança”. O poema transcorre como uma narrativa de carochinha, mas a certa altura inverte a expectativa e deixa a marca glückiana na leitura que fazemos:

Cansados da vida rural, o rei e a rainha

voltam pra a cidade, com todas as princesinhas

bagunçando no banco de trás do carro, cantando a canção de ser:

Eu sou, eu és, ele é –

Mas não haverá

conjugação no carro, ah, isso não.

Quem pode falar no futuro? Ninguém sabe coisa alguma sobre o futuro,

nem os  planetas sabem.

Mas as  princesas terão de viver nele.

Que dia mais triste virou este dia.

Fora do carro, as vacas e pastagens derivam para longe;

parecem calmas, mas “calma” não é a verdade.

Desespero é a verdade. É isso que

mãe e pai sabem. Toda esperança está perdida.

Precisamos voltar para o lugar onde a perdemos

se quisermos encontra-la outra vez.

O lugar original que era ocupado por Deus, para a poesia de Louise Glück, é ocupado apenas pelo homem e sua história. Um lugar perdido e não identificado. Um não-lugar. Uma busca indefinida e infinita. Mas uma busca concreta, não ilusória. “Eu sou, tu és, ele é, mas não haverá” é a materialidade do presente e não a fantasia do futuro, não o mundo da ansiedade, não a dissimulação das ilusões.

A poesia glückiana parece ser, em certa medida, resposta poética ao livro O futuro de uma ilusão, de Freud. Ela quer o homem maduro, livre das amarras de um pai que o torne eternamente dependente e infantilizado. Seja este pai um passaporte, uma “calma”, as receitas de inverno, etc.

FÉRIAS NA DISNEY

Amador Ribeiro Neto

A poesia de Férias na Disney (Patuá, 2020) de cara quebra as pernas do leitor. Mesmo daquele já prevenido desde Alarido (2015), o nada convencional livro de estreia de Bruno Molinero, poeta que veio pra desafinar o coro, o solo, o duo, o escambau da poesia contemporânea brasileira.

Quando da publicação de Alarido, escrevi: Em Bruno Molinero a palavra colhida do jornalismo é reciclada por imagens e montagens estruturais que desconstroem a percepção viciada do leitor e inauguram um novo momento. Cada poema está no limite do prosaico. A poesia narrativa de Bruno Molinero é neo-épica, sem deixar de ser lírica. Ele estreia com marca própria. Que venha o novo livro”.

Seis anos se passaram para que Férias na Disney fosse lançado. Demorou, mas valeu a espera.

Se o livro inicial apostava mais no aspecto formal, com os poemas estruturados como depoimentos em primeira pessoas, versos curtos, ritmos acelerado, este vai num  híbrido de poesia e prosa, centrado no comportamento da classe média paulistana.

Em ambos, a música é um ponto alto, tornando o texto até cantável, como se fosse um rap. Um rap de áspera crueza, humor mordaz e aguda ironia. Moral: O riso resultante é um envergonhado “caramba, mas é isso mesmo, poeta?”. Para logo depois gerar a indagação “e agora?” como na antinomia drummondiana.

Mas se na poesia do poeta mineiro o riso é corrosivo, na poesia Bruno Molinero o riso é demolidor. Seu alvo é a sociedade paulistana, brasileira, de um presidente que face a duas centenas de mil mortos pela COVID 19 ironiza “e daí?”. A indagação que indignou o país é agora um verso e passa a ser história literária da poesia contemporânea deste país.

Se na idade média a “verdade” era teológica, hoje ela é política, social, econômica. Assim, o poeta não se exime de usar a poesia como elemento de comunicação e utopia por um mundo melhor. Uma poesia que não aceita ser é líquida. Antes, firma-se como matéria concreta, feita de signos materiais ideológicos, produzindo elementos para consciência de classe.

No entanto, Bruno Molinero sabe que não vale a pena fazer da poesia um panfleto, nem discurso didático. Para ele, em primeiro plano está a linguagem. Por isso diferencia jornalismo de linguagem poética. Poesia é linguagem, todavia, carregada de significado, como bem claro deixou Pound em seu ABC da Literatura, um livro mais citado que lido.

Quanto ao engajamento da obra de arte, o poeta de Férias na Disney tem claro: “A arte militante tem uma chave de leitura só, deve ser lida daquela maneira para chegar ao significado que o autor quer. Eu queria que existisse no meu livro uma chave mais ampla de leituras”.

Por isso mesmo, em Férias na Disney, carrega sua linguagem de significado em alta voltagem. A classe média, que frequenta a Disney, é destrinchada nas profundas entranhas. Não em sentido econômico, mas como um  “estado de espírito”, aquela que viaja pelas telenovelas, programas de auditório, reality show, big encenações religiosas, etc., veste-se e consome exageradamente, que perdeu a delicadeza do bom convívio social, que vota movido pelo ódio de classe, que  menospreza a cultura, que promove aglomerações na pandemia, etc. – esse o público-alvo retratado pelo livro.

Ao poeta não escapam os fenômenos psicológicos e sociais desta classe. Os poemas surpreendem, ora pelo corte curto da lâmina dos versos, ora pela discursividade sem cerimônia do texto. Tudo na mais corrente coloquialidade.

E aqui, na contramão da poesia marginal, a coloquialidade tem funcionalidade e serventia. É uma apropriação da linguagem cotidiana em que a forma e o conteúdo comentam-se reciprocamente gerando maior taxa de informação.

O poema “anúncio”, um misto de colagem de publicidade jornalística com clímax aos moldes dos contos à la Poe, com o rasgo da ironia mais gritante, é um exemplo:

aluga-se

quarto

pra casal

homem

e mulher

sem vícios

mobiliado

com cama

criado-mudo

bíblia e um

trinta e oito

carregado

na gaveta

Não bastasse a bíblia e o trinta e oito repousarem juntos na gaveta do criado-mudo, ele ainda está carregado. Ou seja: mudo fica o leitor, sentindo-se imobilizado – ou mais um móvel no ambiente do anúncio. Nova ironia: lembre-se que um dos sentidos de anunciar é prenunciar.

Mas se há algum prenúncio neste livro, ele advém da observação, anotação e revelação dos fatos. Férias na Disney é um livro pitoresco, no sentido de pictórico. É um livro do olhar, da visão. Não é um grande mergulho no mundo interno das pessoas, suas angústias, dúvidas, hesitações.

Mesmo no poema “gatilho”, em que relata um suicídio, tudo é asséptico. Até o final trágico é revelado, e resolvido, num verso e numa palavra. Depois de tomar veneno de rato, o marido

abraçou aquela que foi

sua companheira por vinte anos

na tristeza na doença na morte

que os separe

amém

e enfiou pela primeira vez

o dedo no próprio

cu

A caracterização da interioridade das pessoas dá-se mais pela descrição de suas circunstâncias exteriores. Raramente os sentimentos são apresentados per si.

No geral, há um radar narrativo colhendo imagens na Disney, ruas, praia, cafeteria, frente à pizzaria, avião, praça de alimentação e lugares não nomeados – mas com ações bem definidas. O que acaba ampliando o alcance metafórico do poema.

O retrato do país, hoje, é traçado em cinco palavras no poema “você não acredita”:

o meu dentista

também entrega

pizza

Concisão, ironia e rigor determinantes de uma inversão de valores. Visto como uma mancha gráfica, o poema desenha uma bandeja com a pizza embaixo. O incômodo visual é isomórfico ao incômodo semântico. Cabe ao leitor agir como coautor do poema e, consequentemente, do mundo, resolvendo o incômodo: utopia da poesia.

Poemas que se abrem com cena ou diálogo em andamento são outro procedimento de que se vale o poeta. Isso pega o leitor de jeito e o enreda no poema sem maiores firulas. “açougue” é assim:

não

não

o que ensinei naquele vídeo

foi a desossar leitão inteiro

só  isso

como posso ter culpa do que

aquela molecada aprontou?

rejeito

nego

recuso

afinal

todo mundo gosta de assistir

barriga de bicho sendo aberta

Para depois continuar num delicado jogo de /f/ e /a/ e /i/

quando faca afiada de lâmina fina

corta superficialmente as costelas

tiradas osso a osso a osso a osso

é como se eu pegasse as cédulas

desviadas de nossas mil estatais

e escancarasse o sistema podre

berrando

vagabundos

canalhas

o  porco escovado ao vivo

com suas miudezas flácidas

a coluna vertebral já extraída

garras ósseas feito crustáceos

dedos em menstruação suína

zurro

suado

mexido

quando foi a última vez que

você saiu de casa sem medo?

hein?

quando?

faz tempo?

E segue o poema para mais adiante anunciar:

Mas nunca nunca podia pensar

Que essa molecada tão jovem

Faria  uma barbaridade dessas

Jesus

Tão menininhos tão menininhos

Meus sentimentos à família

Lamento

Mas e daí?

Sua linguagem coloquial, direta e clara às vezes pode nem parecer poética. Mas o ritmo, marcado pela forma como o poeta corta os versos, imprime a musicalidade a que todo poema aspira ter. Sem contar o uso de assonâncias (sequência de vogais abertas, fechadas ou nasalizadas com determinado propósito) ou de aliterações (consoantes, com a mesma finalidade) deixam ver claramente que o poema possui rico substrato musical.

Embora os “recursos literários tradicionais” parecem não estar nos projetos deste livro. O poeta, até nisso, decidiu inovar. A poeticidade está em novos procedimentos, como estamos vendo.

Ainda que Bruno Molinero não se considere poeta, embora seja um estudioso da linguagem poética, sua poesia está aqui para desmenti-lo. Em mais um depoimento a Walter Porto, como nos citados anteriormente, declara: “Suponha que além de trabalhar em jornal eu goste de fazer cadeiras. Por mais que no meu tempo livre eu estude isso, faça cadeiras e as pessoas até elogiem as minhas cadeiras, a pergunta é se isso me faz um marceneiro. Eu acho que não. Poeta é o Manuel Bandeira”.

A estrutura das premissas é verdadeira, mas elas, em si, são falsas. Ao invés de um silogismo temos um sofisma. Tanto que a própria conclusão não é um “logo”, mas um “acho”. Risos.

Portanto, podemos afirmar, diante do lido e demonstrado, que com Férias na Disney, Bruno Molinero firma-se como um dos mais expressivos poetas da nova geração da poesia brasileira contemporânea.

Publicado no CORREIO DAS ARTES, suplemento literário do jornal A União de João Pessoa-PB, de 28 de março de 2021, p. 27-29, na coluna Festas Semióticas, do autor.

Gil Jorge

Amador Ribeiro Neto

O livro se chama “Mínimas” e foi publicado em 2019 pelo Selo Demônio Negro, de São Paulo. Todavia, a tipologia das letras da capa permite que se leia “Minhas Mínimas”. Este jogo tipográfico é o mote visual de Gilberto José Jorge, ou Gil Jorge, como ele assina, nascido em Santo André-SP, em 1960. Da caligrafia gestual à tipomorfia digital, trabalha a poesia visual com filigranas luminosas.

Poeta, editor e promotor de eventos culturais. Boa parte dos poemas que realizou desde os anos 80 se situa na vertente de uma caligrafia gestual e tipográfica. Foi co-organizador da mostra Poesia Evidência, em 1984, na PUCSP; coeditor da revista de caligrafias impressa em serigrafia pela Entretempo, AGRRAFICA, em 1987; coeditor do álbum Atlas, com mais de 80 participantes, entre cineastas, artistas plásticos, poetas, músicos etc. Participou com vários poemas ao longo das edições da revista Artéria, editada por Omar Khouri e Paulo Miranda. Vive em Paraty (RJ).

Poesia visual não é, apenas, desenhar um objeto com as palavras que o significam. Por exemplo: formar a palavra paz com palavras que conformem sua imagem. Isso é caligrama, a forma mais elementar de poesia visual. Elementar porque óbvia, didática. E a poesia foge disso. Poesia é desvio do uso do idioma (Jean Cohen), é ambiguidade (Jakobson), etc.

Nem é apenas desenhar, ou desenhar com letras ou com símbolos gráficos. Isso pode ser arte gráfica ou artes plásticas.

Pedro Xisto criou um poema que aparentemente é mero geometrismo. Uma obra de arte plástica abstrata. No entanto, é um poema concreto. Trata-se do memorável poema “Zen” (1966).

Nele, as letras Z E N foram unidas por um traço dando origem a um retângulo que as camufla e, à primeira vista, deixa transparecer apenas as figuras geométricas: triângulos e retângulos. Este é um caso em que a palavra e o desenho se conformam em perfeita harmonia, para usar um dos termos caros ao pensamento zen.

Por fim, poesia visual envolve palavra e tipologia, no jogo de forma e sentido, na espacialização do branco da página.

Engano supor que a poesia visual seja invenção da modernidade.  Bem lá atrás, três séculos antes de Cristo, Símias de Rodes já escrevia “O ovo”, o primeiro poema visual de que temos registro.

A Poesia Concreta é visual ao seu tempo de implantação do movimento. Com o passar dos anos, foi deixando, em parte, o lado visual e se fixando em outros de seus outros princípios. A produção atual de Augusto de Campos é de poesia visual, mas não é concreta,  já que o poeta deixou de praticar, segundo declarações dele mesmo, este tipo de poesia há anos.

Gil Jorge revela-se influenciado por Apollinaire (divulgador dos caligramas nas vanguardas europeias), Edgard Braga, Augusto dos Campos, Arnaldo Antunes, Walter Silveira, Tadeu Jungle. Mas sem dúvida encontramos em sua poesia também a presença de Joan Brossa Pedro Xisto, Wladimir Dias Pino.

Em Gil Jorge, enquanto  a tipografia é explorada, ela vem carregada de sentido em alta voltagem. Os poemas expressam com ironia, desencanto, humor, erotismo, afronta, um modo de ver o mundo que nos remete a um Gregório de Matos.

“planos / após anos após anos após anos após anos / planos” ou “planos / anos após sapos anos após sapos anos após sapos anos / planos” do poema “engolindo sapos” vem grafado numa tipologia em que uma linha corta e une as letras numa continuidade cotidiana. Ler é vasculhar, descobrir e ver sentidos. Daí a importância da exploração do olhar perscrutador nos poemas de Gil Jorge.

O  poema “Ego”: “o ego é igual  a um ser elevado ao quadrado”, é um verso irônico cujo desenho conduz a um afunilamento que engole todo o ego, todo o ser elevado ao quadrado, todo o poema.

Ao visualizar o poema, mais do que lê-lo, percebe-se que mais do que irônico, ele é sarcástico. A tipografia toda em maiúscula e em branco num fundo negro realça a importância do que diz. Mas as palavras “quebradas” nas sílabas para que caibam no quadrado já iconizam a ironia da necessidade de se adequar à forma (status) para satisfazer à necessidade (aparência).

Visto à distância, o poema lembra um poço e seu fundo e a similaridade com a narrativa de Narciso inevitavelmente vem à tona: de tanto envaidecer-se, afoga-se. Aqui, o ego, igual a um ser elevado ao quadrado, acaba afunilado.

Os dois lados do poema – o ego e o ser ao quadrado – são comentados nas duas páginas que o compõem: a do título é branca com o nome do poema em negro e da poema, como vimos, é ao contrário. Frente e verso, vida e morte, eros e psiquê. E como se não bastasse, o quadrado está apoiado sobre um de seus ângulos e não sobre uma de suas bases, como é de praxe, o que imprime sensação de movimento e vertigem de profundidade.

Gil Jorge trabalha a caligrafia gestual como elemento constitutivo estrutural de sua poesia visual. No caso do poema “Nós” salta aos olhos, de imediato, que ele explora a ambiguidade do termo: 1. Substantivo plural:  entrelaçamentos; empecilhos; problemas; 2. Pronome pessoal: primeira pessoa do plural. Por isso a caligrafia desenha entrelaçamentos que remetem a abraços, cópulas amorosas mas também a atritos, choques, divergências. A escolha pala verticalidade da caligrafia sugere um aspecto cinematográfico das imagens e, consequentemente, sugerir mais cenas em cada bloco.Descrição: E:\Meus documentos\2. IMAGEMS\- -  1. INTERNET\- - Literatura\- - - - - - -Literatura 2020\3. gil jorge. nós.jpg

Gil Jorge trabalha a caligrafia gestual como elemento constitutivo estrutural de sua poesia visual. No caso do poema “Nós” salta aos olhos, de imediato, que ele explora a ambiguidade do termo: 1. Substantivo plural:  entrelaçamentos; empecilhos; problemas; 2. Pronome pessoal: primeira pessoa do plural. Por isso a caligrafia desenha entrelaçamentos que remetem a abraços, cópulas amorosas mas também a atritos, choques, divergências. A escolha pala verticalidade da caligrafia sugere um aspecto cinematográfico das imagens e, consequentemente, sugerir mais cenas em cada bloco.

Nós

Em “Mínimas”, poesia visual, não há prevalência da forma. Isso é curioso, raro e rico. Forma e semântica caminham juntas, inter-relacionaldas, entrelaçadas. Diria mais: amalgamadas. Por isso é um livro para se “vler” (ver-ler ao mesmo tempo), na terminologia de Décio Pignatari. 

Publicado no Correio das Artes de 07 de fevereiro de 2021, na coluna Festas Semióticas, deste autor, p. 24-25-26.

Peixes
Oração
Existir
Gil Jorge

Cacaso pagou caro por se ater à poesia marginal, da qual foi maior mentor

Amador Ribeiro Neto

Antônio Carlos de Brito, o Cacaso, um dos nomes mais importantes da década de 1970. Da Geração mimeógrafo, que imprimia seus próprios poemas ou se mobilizava em pequenas editoras. E que deu origem à Poesia Marginal: oralidade em primeiro plano, espontaneidade de linguagem, postura crítica diante do momento político do país, discurso quase sem ambiguidades. Exceto trocadilhos piadísticos, de fácil deglutição.

Cacaso era professor, poeta, crítico, desenhista, letrista da MPB. Bem informado, levou para a universidade a discussão sobre esta nova poesia que surgia no Rio. Abriu discussão contra o Estruturalismo, a linha teórica do momento e insurgiu-se contra a Poesia Concreta, depois de ter-se mostrado simpático a ela.

No poema “estilos de época” detonou: “Havia / os irmãos Concretos / H. e A. consanguíneos / e por afinidade D. P., / um trio bem informado: / dado é a palavra dado / E foi assim que a poesia / deu lugar à tautologia / (e ao elogio à coisa dada) / em sutil lance de dados: / se o triângulo é concreto / já sabemos: tem 3 lados”.

O interesse pela poesia marginal tem levado o mercado editorial a relançar poetas desta época como Chacal, Ana Cristina César, Francisco Alvim, Nicolas Behr, etc. Bem como a investir em novos poetas que têm seguido esta linha: Bruna Beber, Ana Martins Marques, Angélica Freitas, dentre outros.

Poesia Completa/Cacaso, da Companhia das Letras, além de reunir sua obra poética já pulicada, traz inéditos colhidos entre anotações de 23 cadernos do poeta, escritos entre 1977 a 1987, ano de sua morte aos 44 anos de infarto. Traz ainda sessenta das quase trezentas letras de canções em parcerias com Tom Jobim, Edu Lobo, Djavan, Toquinho, João Donato, João Bosco, Zé Renato, Francis Hime, entre outros.

Na seção fortuna crítica Roberto Schwarz descreve o poeta fisicamente associando-o à “estampa rigorosamente 68”. Heloisa Buarque de Hollanda comenta toda a produção de Cacaso e conclui que sua poesia tinha uma postura mais “cultural que literária”. Francisco Alvim destaca a ironia e a perfídia como formas de corrosão da epifania de sua poesia. Vilma Arêas tece crônica de memória pessoal. Mariano Marovatto estabelece a biografia essencial do poeta em poucas páginas.

O elo imediato entre vida e poesia levaram Cacaso a radicalizar a linguagem a ponto de eliminar, ao máximo, a ambiguidade. Contrariando as metáforas e metalinguagens que recheiam o livro de estreia (1967), de viés cabralino, drummondiano e eliotiano, agora o poeta escreve no poema que dá nome ao novo livro (Na corda bamba, 1978): “Poesia / Eu não te escrevo / Eu te / Vivo // E viva nós!”. A poesia deixa de ser representação e passa a ser a própria vida.  Sem dúvida, um paradoxo: a negação da poesia se dá enquanto a se redige a própria poesia.  

Poesia é representação, é linguagem. O problema reaparece quando o poeta busca no imediatismo a identificação vida-arte. Esta “pressa” leva-o a escrever uma série de poemas de resultado duvidoso.

É o caso de “orgulho”: “descreça / e apareça”. Ou “boêmia”: “Acho que hoje já é / Amanhã”. Ou “genealogia”: “A gente é o pai da gente”. Ou “amizade”: “O sexo não tem sexo”. Ou “oferta”: “A amizade não / tem preço”. Ou: “falando sério”: “Outro amor? Não caio mais”. Ou: “ré menor”: “fazendo versinho / querendo carinho”.

No entanto, tais recursos não encontramos nas letras das canções. “Dinheiro em penca” (com Jobim), “Dentro de mim mora um anjo” (com Sueli Costa), “Lero-lero” (com Edu Lobo), “Morena de endoidecer” (Djavan), entre outras, são belas letras que resultaram em antológicas canções.

Procedimentos do livro de estreia serão retomados em poemas do último livro publicado em vida, como “já já” e “tiau Roberval” e encontrados em poemas inéditos resgatados por esta antologia.

Cacaso era um bom poeta. Por submeter-se às normas da poesia marginal, da qual foi o principal mentor, pagou um alto preço.

Obra: Poesia completa/Cacaso – 1ª ed.

Autor: Cacaso

Editora: Companhia das Letras, S. Paulo, 2020

2 estrelas

Publicado na Folha de S.  Paulo/Ilustrada de 09/02/2021

Olhar agudo e mão leve de arrudA tecem poemas com música e significado

Gregório de Matos celebrando a unidade, apregoa num soneto: “o todo sem a parte não é todo / a parte sem o todo não é parte”. Século 16, o mundo busca a unidade em Deus, ou em alguma coisa. Mas quer ser uno.

O poeta arrudA, em lançamento recente, assume a fragmentação de nossos tempos e canta-a “à parte / toda essa apatia / à parte / em toda parte essa tal / de tecnologia / à parte / esse desgaste natural / de ambas as partes / nem sempre tão igual / à parte / um e outro desastre (…)”.

E segue falando de nossos desastres ecológicos, econômicos e pessoais num mundo sem eixo, sem norte, à parte, mas em toda parte, fragmentado.

Fragmentos de uma canção impossível é obra pensada desde sua estrutura interna até o projeto gráfico. Constituída por 50 poemas, sete partes, cada uma delas com sete poemas e um de abertura.

Na literatura, como nas artes, o número sete, cabalístico, sempre é impregnado de significações, bem como o um. A ideia de infinito e de unidade, respectivamente, permearão os poemas e o projeto gráfico. Ambas em conflito. Fragmentárias.

Os poemas se inter-relacionam num movimento elíptico interno em que cada qual possui um centro móvel que se comunica com os centros dos demais. À distância, as elipses iconizam vários planetas em movimento dentro de uma órbita.

Desta feita, a leitura dos poemas se torna intercambiável e os temas interpenetráveis. Como se depreende do fragmento citado, a musicalidade não é mero recurso metafórico do título –  ela habita o corpo do poema como uma camada de significação e beleza.

Capa, projeto gráfico, ilustrações internas assinadas por Gabriel Marcondes Egestos são um todo único que ora se fragmenta para abrir cada parte do livro, ora se une para compor a capa. O prefácio analítico e esclarecedor é assinado por Lucia Rosa, criadora e coordenadora do Coletivo Dulcineia Catadora, onde o poeta publicou 23 poemas de arrudA.

Os 50 poemas não têm títulos. São numerados de um a sete dentro de cada parte. Mas podem ser lidos independentemente: “nunca / estivemos / tão / próximos / dos nossos / ossos / nunca / chegamos / tão perto / dos nossos / desertos / nunca / fomos / tão íntimos / dos nossos / instintos / quando / te olho / aqui de dentro / nunca / fomos // tão infinitos”.

Quase sempre são uma longa estrofe seguida por uma pausa, uma segunda estrofe composta por um único verso que ocorre depois de leve suspensão rítmica.

Linguagem sintética, versos curtos, lirismo com rigor, rica apropriação de imagens do cotidiano, espontaneidade colhida com precisão e simplicidade. Tudo revelado como novidade do primeiro contato.

Assim é o olhar agudo e a mão leve, certeira de arrudA ao recolher planetas, estrelas, hibiscos, luas, sóis, girassóis, rios, calêndulas, ruínas, satélites, crustáceos, pássaros, planetas, terremotos, tecnologias, ossos.  Assim é a semântica do poeta: elementos da natureza, da cultura e do tempo. Fragmentados e inter-relacionados numa teia que ele tece com suave música e significados.

Seus versos podem ser lidos até o final da linha ou segundo o enjambement, que é o recurso literário em que um verso continua no seguinte pelo ritmo, sintaxe e sentido. Como arrudA despreza a pontuação, o uso do enjambement é um convite ao leitor para que a danças das elipses das sete partes do livro reverberem múltiplas significações. E a poesia espalhe-se numa galáxia de novas sensações e novos sentidos.

Num mundo fragmentado tudo se reorganiza plasticamente para o leitor no momento da leitura da poesia. Torna-se uno.

Publicado na FOLHA DE SÃO PAULO/Ilustrada 20.01.2021

Autor: arrudA

Título: fragmentos de uma canção impossível

Editora: Patuá, 2020

Cotação: 5 estrelas

Hinos matemáticos

Amador Ribeiro Neto

 

Marco Lucchesi (Rio de Janeiro, 1963) é professor da UFRJ, poeta, romancista, ensaísta, tradutor, crítico literário, memorialista, missivista, roteirista, organizador de antologias, organizador de obras, editor de revistas literárias, membro da ABL. Foi contemplado com vários prêmios nacionais e internacionais. Tem livros traduzidos para o árabe, romeno, persa, russo, turco, polonês, híndi, sueco, húngaro, urdu, bangla e, claro, inglês, francês, alemão, espanhol e italiano. Publicou, os seguintes livros de poesia: Bizâncio (1997), De passione (2000), Alma Vênus (2000), Poemas reunidos (2001), Sphera (2003), Meridiano celeste & bestiário (2006), Clio (2014). Hinos matemáticos (Rio de Janeiro: Dragão, 2015) é sua mais recente publicação.

A poesia de Marco Lucchesi é de um lirismo arrebatador. Poucos conseguem, como ele, aliar erudição e leveza, ciência e sentimento, matemática e amor. Assim é, e não poderia ser diferente, em se tratando do poeta que é, Hinos Matemáticos, um livro que desafia o leitor com fórmulas matemáticas poucamente esclarecedoras. Mas com formas poéticas abundantemente tocantes.

Uma poesia que nos rememora a velha lição valéryana: poesia e matemática são duas abas do mesmo chapéu. Mas Lucchesi vai além da simples equação aritmética. Interessa-lhe a musicalidade contida na matemática. Aquela mesma música a que toda poesia aspira ser. O “espólio inabordável entre 0 e 1”,  como enuncia o poema “Busca do ouro”.

As imagens sucedem-se numa espiral que toca os mesmos pontos. E neste apoio conhecido, impulsionam-se pra novos volteios.

 

E as formas que não cessam

de crescer

 

Delírios fugazes

Líquidos lampejos

 

dizem os versos finais de “Solilóquio fractal”. O espaço em aberto. Expandindo-se. E isomórfico a ele, a poesia. Formas, delírios, lampejos: o leitor percorre galáxias em movimentos e banha-se num erotismo riscado a arpejos de luz e gozo.

O poema que abre o livro incandesce caminhos do devir. Cito “Canteiros”, na íntegra:

 

Um fósforo desata momentâneo

os fios de uma noite sem estrelas

 

No céu azul de Samos

voam ímpares.

E os pares sobrenadam

nas águas do Ilissos

 

O jardim

o conjunto de canteiros

E a floresta sombria e ilimitada

 

Como domar a astúcia do infinito?

 

O fósforo não acende, não ilumina: desata os fios de uma noite escura. Os raios do fósforo são os fios que, ao invés de clarear, ampliam a dimensão do escuro. Entre estes versos e os finais há a ilha grega de Samos, seu rio Ilissos, os canteiros do jardim, a floresta “sombria e ilimitada”. A ilha: locus de suspensão da vida. O rio antigo, hoje canalizado e subterrâneo: a dimensão espacial do lado de lá. Para além dos olhos. No entanto, tão próxima aos pés.

Depois do poeta construir a imagem sideral na progressão de “jardim”, “conjunto de canteiros” e, por fim, “a floresta”. Como se não bastasse a vastidão em si, é uma floresta “sombria e ilimitada”. Quer seja: o desconhecido dentro do desconhecido dentro do desconhecido.

Por fim, o verso que encerra o poema projeta este espaço como indomável em seus ardis, argúcia e sagacidade.

Estamos diante de um poeta que soma a matemática à vastidão do espaço – e configura-a na mais delicada poesia. Em filigranas do sublime.

Esse é o movimento presente em todos os poemas. Próximos e distantes. Perto e desconhecidos. A matemática e a palavra. Duas fontes de força bruta. O homem busca entendê-las para cantá-las. O poeta mergulha na estética da matemática para, nela, situar e localizar sua poesia. Daí o título do livro: Hinos matemáticos.

O poema “Primeira prova” orquestra a busca desta música precisa:

 

Orquídeas

resplandecem

no quintal

A geometria

de fogo

de suas pétalas

e a forma

do silêncio

em que se apoiam

Trago

o coração perdido

e os olhos tersos

da breve epifania

Toda flor

desponta

no seio do silêncio

e ao seio

do silêncio

acorre e se dissolve

Lembro

de Hardy

indo ao

fundo

silêncio

dos gregos

Teoremas

         cheios

   do frescor da beleza

          de quando foram descobertos

Dois mil anos

e sequer

uma ruga

em seu puro semblante

(Euclides

e a infinidade

dos números primos

Pitágoras

e a raiz quadrada

irracional de dois)

Os desenhos

                  do matemático

     e do poeta devem

                                         ser belos

Flores

teoremas

desmaiam

em súbitos

jardins

sob                              crepúsculos

fugazes

A beleza é a primeira prova

                   da matemática

 

 

Como consta das Notas que acompanham o volume, os versos em itálico são extraídos de Em defesa de um matemático, de G. Hardy.  No Posfácio intitulado “A espiral e o sonho dos meninos”, o poeta explica que “a ideia de beleza na matemática, que se encontra em diversos autores, como Hardy ou Poincaré, causou em mim grande impacto. Como se me deparasse com uma verdade perdida, um substrato arqueológico que me parecia estranhamente familiar e decisivo”.

Um vetor de leitura possível para este livro é seguir as orientações do poeta nas imprescindíveis Notas e no esclarecedor Posfácio. Todavia, isto não impede que uma outra leitura se faça na contramão destas orientações. É aquela leitura em que o eu lírico desenreda-se do estrato matemático dos poemas e mergulha nas epifanias das imagens em alumbramentos de sons e sentidos. Outros sons. Outras imagens. Outros sentidos. Para além da matemática. Para dentro da poesia em si.

Esta navegação, que se norteia pelo hino, pelo canto, pela enunciação dos significados por vir, é a do encantamento que a música produz nos ouvidos e nas sensibilidades. A entrega da beleza em estado de graça. Sem preço algum. Sem merecimento algum. Entrega da poesia em revelações inusuais. Revelações de pura entrega e vasto gozo.

Então, mergulhado nestas galáxias de imagens (sonoras, visuais e semânticas), o leitor chega ao cerne da matemática sem a necessidade dos teoremas e das teorias. É quando o poema “Lendo Hadamard” ganha as ganas do leitor tomado pela beleza lírica dos poemas de Marco Lucchesi. Cito-o na íntegra:

 

Perdem-se os primos {venerandos números}

quando num bosque em plena madrugada

sob a lira cintilante de Orfeu

põem-se a bailar mais bravos e dispersos

 

O imaginário

{nuvem     bosque      pensamento}

é o atalho cristalino da matemática

 

 

A poesia vence. Entendemos o poeta quando diz: “o vínculo entre a beleza e a matemática há de trazer novos ventos para as matemáticas no Brasil, rompendo uma cláusula de barreira cultural. O direito dos meninos e das meninas de sonharem nos campos do pensamento matemático”.

Somos todos meninos e meninas. O sonho da poesia é nosso mundo.  Obrigados ao poeta pela sua imensa poesia. Galáxia entre galáxias que nos leva a imensuráveis espaços – de caos, de exatidão, do fractal, do geométrico infinito. Espaço sideral de enternecedor lirismo.

A poesia de Mário

A poesia de Mário

                                                                                       Amador Ribeiro Neto

A poesia de Mário de Andrade é tão importante quanto desigual. Importante na multiplicidade técnica e variedade temática, espelhando nosso país histórica, estética e socialmente. Desigual na qualidade estética de seus livros:  ao longo de sua produção poética há oscilação permanente de poemas bons e ruins em todos os livros.

 Comumente marcado por um subjetivismo que várias vezes escorrega para o mero romântico, Mário de Andrade deixa passar-lhe pelos vãos dos dedos a contundência que caracteriza a grande poesia. À exceção de alguns poemas, ou parte de outros, não conseguiu manter o vigor poético de um Cabral, de um Bandeira, de um Augusto de Campos, ou mesmo de um certo Drummond. Sem dúvida ficou aquém destes. Mas é dono de uma obra tão variada e instigante que ainda hoje é uma pedra no sapato/no caminho dos estudiosos de literatura.

Sua narrativa, p. ex., contém obras primas da nossa literatura como Macunaíma (1928) e Contos Novos (1946). Isso, sem falar de profundos mergulhos no campo da cultura popular, legando-nos obras indispensáveis nas áreas de música, dança, etc. E aí não cabe compará-lo a Cabral, Bandeira, Augusto ou Drummond. Nenhum deles produziu, uma obra tão ricamente diversificada quanto Mário.

Por isso, por isso leitores, apaguemos a comparação. Todo eu estou hoje comparativo. Ainda há pouco, falando do caráter desigual de sua poesia, cheguei a escrever: chinfrim. Risquei chinfrim. Risquemos a comparação. Digamos somente um poeta desigual. E vamos à poesia de Mário. Sem comparações.

*** *** *** *** ***

Se entendermos que a modernidade se caracteriza pelo descompasso entre a realidade e a sua representação; por uma consciência em crise e consciente desta crise da linguagem, como nos diz João Alexandre Barbosa, então Mário é moderno em vários momentos. Mas, neste autor de tantos talentos, a poesia oscila muito qualitativamente. Podemos dizer que o Mário poeta manteve uma relação pendular com a Estética, ora encharcando-a nos temas nacionais, ora atropelando-a nas técnicas vanguardistas importadas da Europa. Em sua poética, já nos lembra Álvaro Lins, o pensamento continuamente busca uma forma de expressar-se. Isso é moderno. Isso é próprio da poesia moderna. O ruim é que quase não deu certo com o Mário.

  Os livros engajados (O Carro da Miséria, Lira Paulistana, Café, p. ex.) sacrificam a forma poética em benefício de uma imposição ideológica: a consciência explícita de um eu problemático que se insere no mundo conflitante das lutas de classe. Os poemas líricos, quando não caem num subjetivismo romântico constrangedor, ou num rebuscamento técnico e terminológico, acabam compondo o que há de melhor em sua poesia. Neles, um franco sensualismo invade os vocábulos e as estruturas dos poemas gerando uma dicção leve, graciosa, sedutora. Nestes momentos, uma musicalidade muito particular, que nasce e se desenvolve dentro de admirável coloquialismo e grande contundência, confere aos poemas líricos o tom harmonioso das obras bem feitas.

Mas quando um sentimento de brasileirismo forçado e de gosto duvidoso resvala para o pitoresco pelo pitoresco, cobrindo os poemas de rebuscamentos e preciosismos verbais, fica claro que o Mário quer vestir uma roupa nova para parecer moderno. Nós, leitores, percebemos que tal roupa não lhe cai bem e, à semelhança da Candinha, naquela velha canção, somos obrigados a falar mal do modelo do seu terno.

O afinco do compromisso de Mário com o modernismo acaba se convertendo muitas vezes num empecilho à sua poética. Ele não flui. Alguma coisa fica fora da ordem. Fica o Eu lírico gravitando ao redor da linguagem – como se faz com um OVNI sobre o qual se discorre sem, no entanto, ter-se entrado nele. Esse Eu lírico lunático intercepta o poema e deixa os versos expostos em fragmentos temáticos e técnicos não resolvidos. Resultado: a forma do poema resulta disforme-desinformante.

No entanto, os olhos deste Eu lírico nunca ficam “looking for flying saucers in the sky”, para citar outra velha canção.. Atento ao cotidiano, atento a si mesmo, quando se insere no mundo e em si, canta e grita as necessidades – suas e do Brasil. O país, inicialmente retratado como novo, sensual, convidativo, transmuda-se, nos últimos livros em um país duro, marcado por opressões e recoberto pela miséria advinda da concentração do capital nas mãos de uma minoria. O mundo interior, inicialmente tinto pelas cores do entusiasmo, ao final já se mostra desbotado pelas experiências frustradas. Em ambas as fases temos uma obra poética irregular mas inquietante.

“Não pretendo obrigar ninguém a seguir-me.

Costumo andar sozinho”.

À primeira vista, parecem versos caetânicos. Mas são de Mário. E estão em um dos seus livros mais problemáticos: Paulicéia Desvairada, de 1922. Um livro onde as técnicas mais avançadas da vanguarda convivem com um certo tom parnasiano da linguagem. Ou com um enfoque romântico. P. ex., em “Ode Ao Burguês”, Mário opõe a “fraca alternativa” da “visão bucólica da vida dos nossos setembros”.

Se os versos citados de Mário lembram outros de Caetano, “Vejo uma trilha clara pro meu Brasil apesar da dor /  Vertigem visionária que não carece de seguidor”, fica difícil dizer que os dois andam pelas mesmas trilhas. Ao optar pelo verbo obrigar (ainda que na forma negativa), o Eu lírico impõe-se uma certa disciplina – até militarista, ousaria dizer.

O verbo pretender, auxiliar de obrigar, não esconde matizes semânticos de imposição: não pretende obrigar, mas… Desta forma o Eu lírico não parece convicto da necessária displicência para o fluir poético. Ia só, sim, mas ia duro, num cortado tacanho e até ufanista.

É bem diferente da luminosidade que estampa-se pelos dois versos de Caetano: trilha clara, vertigem visionária. Não há certezas aqui, mas uma clarividência que “não carece de seguidor”, quer seja: ela se basta. O Eu lírico está completo em si, sem conflitos. E em outra canção vemos que tal serenidade nasce de uma fala de todo o corpo deste Eu. Diz Caetano: “É só um jeito de corpo / Não precisa ninguém me acompanhar”.

 Nos versos de Mário, ao contrário, quem fala é uma consciência imbuída de um programa previamente traçado: o seu “Projeto Brasil”.

Felizmente este Mário pesadão da Paulicéia Desvairada descontrai-se ao longo de sua produção. Já no livro seguinte, o Losango Cáqui, no poema 37 diz: “                                  Te goso!… / E bem humanamente, rapazmente. / Mas agora esta insistência em fazer versos sobre ti…”. A consciência de linguagem, distensionada, permite afluir a metalinguagem num lirismo cadenciado e pipocado de fino humor.

Mesmo sabendo que, na equação dos Andrades, Caetano é mais Oswald, não há dúvida de que Mário sabe ser odara. Num ritmo envolvente e num coloquialismo consequente, que resgata a oralidade da fala sem tirar-lhe a poeticidade, Mário metamorfoseia um militar em malandro-tropical e este no símbolo do Brasil para caetanear a todos nós no poema

                               CABO MACHADO

Cabo Machado é cor de jambo.

Pequenino que nem todo brasileiro que se preza.

Cabo Machado é moço bem bonito.

É como si a madrugada andasse na minha frente.

Entreabre a boca encarnada num sorriso perpétuo

Adonde alumia o sol de oiro, dos dentes

Obturados com um luxo oriental.

Cabo Machado marchando

É muito pouco marcial.

Cabo Machado é

dansarino, sincopado,

Marcha vem-cá-mulata.

Cabo Machado traz a cabeça levantada

Olhar dengoso pros lados.

Segue todo rico de jóias olhares quebrados

Que se enrabicharam pelo  posto dele

E pela cor-de-jambo. Cabo Machado é delicado gentil.

Educação francesa

mesureira

Cabo Machado é doce que nem mel

É polido que nem manga rosa.

Cabo Machado é bem o representante de uma terra

Cuja Constituição proíbe as guerras de conquista

E recomenda cuidadosamente o arbitramento.

Só não bulam com ele! Mais amor menos confiança!

Cabo Machado toma um geito de rasteira…

Mas traz unhas bem tratadas

Mãos transparentes frias,

Não rejeita o bom-tom do pó-de-arroz.

Se vê bem que prefere o

arbitramento.

E tudo acaba em dansa!

Por isso Cabo Machado anda maxixe.

Cabo Machado… bandeira nacional!

Através da dança, do molejo, da cor e da postura (mais que do posto na hierarquia militar), o Eu lírico tece um retrato do Brasil. Ou do povo brasileiro.

A dança é, particularmente em Cabo Machado, um “jeito de corpo” que sacode a miséria, a opressão, o dilaceramento de nosso povo (nosso dilaceramento). Sacode, dá a volta por cima, mas não esconde, não mitifica, não ignora. Antes: até anuncia-a. Mais: até denuncia-a. Mas sem a exacerbação de uma via trágica.

A busca da alegria, do bem-estar que a dança propicia, é a contrapartida para a acusação carrancuda de uma realidade atroz e desestruturadora. Pela dança, em “Cabo Machado”, a realidade nos é revelada e mascarada ao mesmo tempo. Não com um intuito protetor, maternal, alienador. Mas com consciência serena de um Eu que conhece as dificuldades e com ela não se desespera nem se acomoda.

Dança-se mesmo na miséria porque, no Terceiro Mundo, até na miséria o lúdico está presente. A dança, marca registrada de nossa cultura popular, coloca em cena o manifesto e o latente: por trás do Cabo Machado sensual (cor de jambo, moço bem bonito, dansarino, olhar dengoso, delicado gentil, educação francesa mesureira, etc.), há o Cabo Machado subdesenvolvido (pequenino que nem todo brasileiro que se preza, dentes obturados onde alumia o sol de oiro) e há, também, o Cabo Malandro (só não bulam com ele! / Mais amor menos confiança! / Cabo Machado tem um geito de rasteira… / Se vê bem que prefere o arbitramento).

Enquanto signo da ambiguidade, a dança dá suas mãos para a poesia e, juntas, entrelaçam os passos. Resultado: o universo rítmico e visual do poema resulta riquíssimo. O poema é mesmo todo melofanologopaico, como queria Pound. Ou, desmembrando o palavrão. Melopeia: musicalidade acentuada. Fanopeia: o mundo das imagens. Logopeia: o contingente ideológico.

O gingado de Cabo Machado, seu charme com o bom-tom do pó-de-arroz, seu jeito doce que nem mel e polido que nem manga rosa, sua opção pelo arbitramento e o alerta: só não bulam com ele! Mais amor menos confiança!, demonstra que por trás deste dengo todo habita o malandro-capoeira: Cabo Machado toma um jeito de rasteira…

Atente-se para a reviravolta que o poema opera a partir da adversativa eclipsada em “Só não bulam com ele!”. Explicita-se agora, mais claramente, que o poder da força do Cabo Machado armazena-se potencialmente na dança: basta uma provocação e o passo-dança da capoeira converte-se em passo-de-luta. (Não é que Cabo Machado dê rasteiras: ele próprio toma um geito de rasteira… É o seu “jeito de corpo”).

O gingado da rasteira, o passo-dança e o passo-golpe da capoeira: tudo ao mesmo tempo agora: isto é Cabo Machado. Por isso ele anda maxixe: a dança leva-o adiante.

Não é usual da dança ter uma direcionalidade – comumente ela se esgota nos próprios passos. Não leva a lugar nenhum já que “dança é todo movimento rítmico do bailarino”. A dança é dança enquanto se desenvolve.

O andar é outra coisa: é carregado de direcionalidade. Anda-se para se atingir um certo objetivo. Anda-se, p. ex., para, de um ponto chegar-se a outro.

Cabo Machado, no entanto, une as duas coisas e se desloca dançando-andando. Por isso ele é genuinamente carnavalesco: festivo, irreverente, dissimulador, sedutor, malandro. Através do compromisso alegria-alegria da dança denúncia, regenera e renova a vida dentro dos parâmetros do Terceiro Mundo.

Nesta apresentação não-linear de Cabo Machado a linguagem converte-se em máscara do sentido único do signo e, dentro de um lirismo de alternâncias e reverberações de ritmos, imagens e ideias, desenha o percurso errante do desejo de Cabo Machado (o desejo dos brasileiros): uma alegre negação do niilismo pela música, pela dança. (Ou, como diríamos contemporaneamente: com Cabo Machado o niilismo dançou).

A miséria do Terceiro Mundo, metonimicamente estampada, p. ex., na baixa estatura de Cabo Machado, convive carnavalizadoramente com a riqueza de “joias olhares quebrados / que se enrabicharam pelo posto dele / e pela cor de jambo”. O poder do cargo que ocupa, e da função que desempenha, configuram seu caráter. Enquanto objeto do desejo, em Cabo Machado o Eros (a cor de jambo) e o Trabalho (o posto dele) despertam interesses.

Também no Terceiro Mundo o objeto do desejo continua indeterminado. Aqui, menos por ausência de definição que por excesso de carências e de possibilidades.

Ao trocar a generalização quase lunática de Paulicéia desvairada pela particularização singularizada do poema em questão, Mário de Andrade despoja a linguagem de seu peso (neo)parnasiano, de seu enfoque romântico e aproxima-a mais do objeto que canta. Supera o abismo que separa o objeto cantado do próprio canto empreendido, consciente dos limites desta empreitada poética. Este Mário é moderno. Este Mário é instigante. Este Mário é semiótico. Evoé Mário!

Publicado no Correio das Artes de julho de 2022 e no site MUSA RARA em 02.agosto. 2022 https://www.musarara.com.br/a-poesia-de-mario

Gregório Duvivier, sonetos de amor e sacanagem

Amador Ribeiro Neto

Gregório Duvivier é carioca em 1986. Formado em Letras pela PUC-Rio. Já se consolidou como roteirista e ator de talento. É ator e criador do canal Porta dos Fundos, consagrado sucesso da Internet  que vem renovando o humor brasileiro. Além disto, assina uma coluna semanal na Ilustrada da Folha de São Paulo. Sem contar que comanda o impagável talk-show Greg News na TV por assinatura, onde detona, com muito humor, a política nacional uma vez por semana.

Em 2008 publicou A partir de amanhã eu juro que a vida vai ser agora (7 Letras) e em 2013 Ligue os pontos, poemas de amor e big bang (Companhia das Letras), ambos de poesia.

Quando do lançamento de Ligue os pontos, escrevi aqui nesta coluna: “Gregório Duvivier cismou que é poeta”. Mais adiante criticava a “rudeza, ignorância, boçalidade de tomar o prosaico e não conseguir superar sua pasmaceira”. Sua incapacidade de “não vertê-lo em poético”.

Passados oito anos desde seu último lançamento, Gregório é outro poeta em Sonetos de amor e sacanagem (Companhia das Letras, 2021). Ao escolher a forma fixa o poeta sai-se melhor e revela consciência de linguagem e intertextualidades admiráveis. Tudo com leveza e riso solto. Como não se encantar, de cara, com o soneto que marotamente abre o livro debochando do leitor que o lê, aos moldes barrocos de seu xará. Vejamos:

Soneto de apresentação

Deste livro, veloz, me livraria,

Nada que encontras é necessário.

Não entendo o porquê da Companhia

Publicar tantos livros desse otário.

Em teu lugar, não o leria,

Tem autores melhores nesse páreo.

Quem investir em comprar tal poesia

Desperdiça um pedaço do salário.

Se queres um bocado de ultraje

Sacanagens maiores há em Bocage.

Se procuras algum divertimento

Sugiro leres a Constituição.

Putarias num livro de ficção?

Tem piores no Velho Testamento.

O clássico surge para retratar o cotidiano num espelhamento às avessas. O apolíneo se converte em estilhaços da realidade desmembrada por uma mordaz e hilariante crítica. Aos moldes do distanciamento brechtniano, o eu lírico aparta-se do leitor, aqui com a verve sarcástica que traveste-se do poeta chororô português:

Soneto pra Sá de Miranda

Tenho pena de quem é meu amigo,

pois deve desejar a minha morte.

Nasci graças a deus com uma sorte:

a de não ter que conviver comigo.

Garantiram: não tem nenhum perigo.

Não há chato, no mundo, do meu porte.

Jamais serei de mim o meu consorte.

Só a vocês concedo esse castigo.

Os segundos que chegam logo após

ouvir no gravador a minha voz

dão vontade de dar à vida um fim.

Se eu fosse por acaso dessa gente

que convive comigo diariamente

ou me matava ou bem matava a mim.

Ao escolher o soneto, com seus catorze versos distribuídos em dois quartetos e dois tercetos, com dez sílabas em cada verso, o poeta estava consciente de que, como ele mesmo diz, “a  forma fixa te obriga a criar imagens novas, porque precisa caber no decassílabo, tem um esquema rígido de rimas e, graças a isso, você dá um drible nos clichês da subjetividade. A métrica fixa é uma restrição que liberta”.

Talvez venha daí  a ironia com as redes sociais e consigo próprio no soneto abaixo:

Soneto fático

Repare nas pessoas conversando:

não é um bate-papo, é uma luta.

Todos querem pra si o olhar do bando.

Ninguém se entende nem sequer se escuta.

Pode até parecer civilizado,

mas se olhar com cuidado e lucidez

vai perceber que quem está calado

só espera chegar a sua vez.

Fale merda que alguém no mesmo instante

dirá uma merda mais irrelevante

que não tem nada a ver com a merda acima.

Falar só serve pra fazer barulho.

Esse poema, mesmo, é um entulho.

Não muda nada — mas ao menos rima.

O lado político marcante em seus programas Porta dos Fundos, na Internet. e o Greg News, na TV por assinatura, bem como no livro anterior, aqui aparece na medida em que a política está presente em tudo que o homem faz, mas não aparece como política institucional. Isto se deve ao fato, como o poeta explica em entrevista, ao fato de que ele optou por dar um respiro para que se volte às trincheiras com mais fôlego. “No livro, não tem política. Não tem exatamente porque, para mim, o exercício do livro foi encontrar um lugar fora da política, embora tudo seja política, claro. E o livro esbarra o tempo todo em questões de gênero, por exemplo, ou de paternidade, que são questões políticas, mas não a política institucional. Acho que tem uma hora que a gente precisa de um respiro, de um alimento, para continuar nas trincheiras. A poesia é esse alimento, esse sanduíche que você leva para dentro das trincheiras”.

Gregório Duvivier deu a volta por cima: deixou de lado as facilidades de uma coloquialidade não resolvida aos moldes da geração CEP 20000 e encontrou a solução nas tramas do soneto. No decassílado, na estrofação e no rimário a coloquialidade bem resolvida, tocando aqui e ali, o soneto glaucomattosiano, é bem sucedida, diverte e faz pensar. É poesia de boa safra e com Sonetos de amor e sacanagem Gregório Duvivier produz seu melhor livro.

“Risque esta palavra” não frusta, apesar de não ser bem realizado

Amador Ribeiro Neto

“Encerramos afinal nossa aventura / eu e tu”, e “a poesia – parece estar de volta…. / é mesmo ela”,  versos finais de Risque esta palavra, o mais recente livro de Ana Martins Marques.  Parecem versos de um tratado, uma tese, uma comprovação. Trata-se de um livro de poemas.

Dirigido  a “meu amigo”, o chamado  cria um vínculo com o leitor que se  volta ao título do volume e então percebe que o verbo riscar, além de significar apagar, pode ter o sentido de realçar. Risque, em vez de deletar, pode ser lido como grifar, destacar. O nome do livro como uma possível exaltação da linguagem da poesia.

De fato há este projeto. Um fio estrutural e temático busca dar unidade ao livro. Se não chega a ser bem realizado, não frustra. Tal como nos versos, “assim como a Boêmia / também Minas faz fronteira com o mar”, Risque esta palavra é mar imaginário cercado por montanhas. Mas leva a viagens intercontinentais.  Seguramente é o livro da maturidade de Ana Martins Marques.

Os anteriores vieram marcados por cacoetes e modismos que filiavam-na a grupos, mas não distinguiam seu lugar. Uma poesia diluída, desleixada, de descrição ou enumeração de significados e coloquialidade esvaziados.

Some-se a isso a diluição  drummondiana e os clichês que a poesia marginal insistiu em valorizar tolamente. Porém, entre um ou outro poema, havia versos que apontavam para algo novo. Todavia os prêmios vinham e afogavam o que poderia ser um começo de experimentação.

Risque esta palavra surge seis anos depois de sua última publicação. No título o imperativo afirmativo pode encerrar uma negação. À semelhança da narrativa machadiana em D. Casmurro pede-se ao leitor negligenciar o que está escrito. Recomeçar. Inútil: já fora incorporado pela leitura.

O ludismo de “mostrar e ignorar o visto” incorpora signos passados que interessam ao presente. E é assim que o livro cresce com um projeto que se estende do título ao último verso: a linguagem como corpo do tempo e da poesia.

“Finados” resolve-se em poucos versos, ritmo frenético e a fugacidade da vida mais a vizinhança da morte. Coloca o leitor dentro do poema levando-o a vestir as camisas deixadas nos armários e a habitar as “casas coloridas” e “alegres sem motivo”.

Em “Fazer as malas é tarefa impossível” a desconhecida alteridade de si próprio marca o tom dos versos: “quem está de partida / arruma a mala / de um desconhecido”. A reflexão pessoal e a linguagem são duas viagens dentro do poema.

Corpo, tempo, impermanência, palavra, água, memória, morte, a figura masculina, mar, são alguns dos elementos que fazem a trama poética de Ana Martins Marques. Todos interligados: “cada corpo confina com o que lhe falta”, como num verso de “Minas à beira-mar”.

 “Noções de linguística”, a terceira parte, é bem sucedida linguagem falando da própria linguagem. Os poemas “Língua” e “é uma alegria haver línguas” pensam e vivenciam a língua dentro da linguagem e na linguagem do corpo do eu lírico. Quebram o estado de dicionário e inauguram o estado de poesia. Por isso prestam-se  para serem lidos em silêncio, em voz baixa, alta, reproduzidos por impresso, em imagem, som, dança, etc.

Quer seja, dois poemas que pedem ir livro afora: “No princípio / toda língua é estrangeira // acerca-se do seu corpo como de uma cidade / até tomá-lo / fazê-lo chamar-se a si mesmo pelos nomes / que ela lhe dá: / pé perna barriga dentes”. Ou então: “É uma alegria haver línguas / que não entendo // nelas é sempre infância:/ mar mãe manhã”.

Em Prosa (I) e (II) a ironia, que antes salteava os poemas, agora desenha mancha gráfica de grande efeito e deleite. O que um dia fora arremedo de prosa poética é agora amadurecido poema em prosa de prazerosa intertextualidade e acentuada musicalidade.

“Parar de fumar”, a parte que encerra o volume, desenha um único poema na estrutura e no tema. Está estruturado visual e ritmicamente de tal forma que o leitor chega ao fim quase sem se dar conta, tomado pela beleza da linguagem. Então constata que a última poesia ata-se à primeira.

Cotação: 3 estrelas Livro: Risque esta palavra (poesia) Editora: Companhia das Letras Ano: 2021, 118p  

Publicado na Folha de São Paulo (Ilustrada) em 30 de agosto de 2021

Arnaldo Antunes: Algo Antigo

Amador Ribeiro Neto

Em Algo antigo, livro de Arnaldo Antunes lançado pela Companhia das Letras, no mês passado, há poemas tradicionais, visuais das mais variadas vertentes, fotografias. Pra deixar claro que o poeta tá engajado com os novos tempos de isolamento, com a avassaladora presença da midia e da política no nosso cotidiano.

Mas, claro, o passado também está presente. Afinal, não há presente sem história. Por isso, os afoitos e apressadinhos adeptos do “carpe diem” não se iludam: “o melhor lugar do mundo é aqui e agora” porque ele está impregnado de história.

Arnaldo Antunes sabe bem disso e é por aí que, sendo poeta antenado, nomeia seu livro de Algo antigo, ou melhor,  al(anti)go, pois tudo carrega algo de antigo, de passado, de história. E como ele mesmo diz em um poema feito pra cantar, “a coisa mais moderna que existe nessa vida é envelhecer”. Gente é pra viver muito, não pra morrer de COVID 19. É ter passado longo pra compartilhar.

Em outras palavras, é a dialética do novo-velho, novelo, ou “novelho” – como já poetizou o genial noventão Augusto de Campos em um poema da década de cinquenta. Poema que o próprio Arnaldo já tematizou em forma e fundo em vários poemas que produziu. Pois: é o que já é.

E viva a vida, a poesia e quem a lê (ainda e sempre).

Algo antigo estava terminado e seria lançado antes da pandemia. Mas daí veio o vírus, o lançamento foi adiado na esperança de que logo as coisas normalizassem. Como todos sabemos e sentimos, no corpo e na alma, dentro de nós, ao nosso redor, no país e no mundo, a Coisa ainda está aqui.

Arnaldo aproveitou e reviu poemas, re-organizou o livro. Constatou que vários poemas tematizavam o isolamento. Coincidência. Premonição. Sincronicidade. Dê-se o nome que se queira. A arte tem dessas coisas. E outras mais. O que vale é que os poemas tocam nossas mentes, nossos corações com a beleza que já conhecemos de seus livros e canções.

O poema “lápide” diz da passagem do presente em cinco versos rápidos:

aqui jaz

o presente

eterno porque eterna

mente

fugaz

Desde 2015, quando lançou Agora aqui ninguém precisa de si, 1º lugar no Jabuti – que tivemos a feliz oportunidade de comentar aqui no Correio das Artes – ele não publicara um novo livro. Vem seis anos depois com a palavra, bruta matéria concreta de sua poética. Como sempre, mesmo vale-se de grafismos, diagramações, diversidades de fontes gráficas, poemas em prosa, caligrafismos, fotos. E mais: tercetos, dísticos, quadras, sextilhas, poemas concretos, etc., dentre outras formas, que ficam a cargo da descoberta e maravilhamento do leitor.

“algo antigo / onda do mar de Vigo / hexassílabo, fio de tele / fone, fome / de perigo” veio pra provocar, instigar, coçar a onça com vara curta, brincar de roda, de self, de zap, de vapt, de vupt. Um livro que é um tiro, um tapa, um afago e um beijo.

Reflexão e divertimento. Tudo ao mesmo tempo.

inimigo

da rotina

que prossegue

Não é um livro para indiferentes. São poemas inquietantes. Provocativos. De uma beleza que desinstala o leitor de sua cômoda posição de observador e o coloca como agitador de novas soluções estéticas, sociais, éticas. Sem panfletarismo nem didatismo. Com pleno domínio da linguagem, da forma da palavra, da dimensão semântica, sonora e visual da palavra. Um poeta do rigor da expressão poética.

Para o Brasil com mais de 400 mil mortos, pela COVID 19, até o momento, e outro monturo de “cadáver adiado que procria”, no célebre verso de Fernando Pessoa, o poema “o homem não existe” cai como uma luva:

o homem não existe

não quer

sair

de si

nem

de si

st

ir

de (não)

ser

pra nas

cer

Arnaldo tira da forma o que a forma dá: informação filosófica, concentração significativa em alto grau. Com as três estrofes o poema, à primeira vista, constrói a figura do inquietante questionamento shakespeariano: ser/não ser. No entanto, a duplicidade da negativa na língua portuguesa é explorada como ênfase da assertividade. Não há a opção do homem existir em hipótese alguma. Ele está condenado por si e por sua circunstância histórica a não existir. É um cadáver adiado. Desistiu de ser pela inércia de sua conduta egoica, narcísica, individualista. Não quer evoluir, transformar o mundo e transformar-se. Está apático.

A grandeza do poema está em condensar todo este vasto painel de informações em tão poucas palavras. Na forma como ao desconstruir este homem zero à esquerda, desconstrói a sintaxe, os vocábulos e a própria musicalidade dos versos. Visualmente, o poema é um estilhaçamento que representa a própria condição do homem arrebentado por sua “inexistência” concreta.

Condensação semântica, visua(musicali)dade: teu nome sempre foi Arnaldo Antunes.

Do primeiro livro, há quase quarente anos, Ou e, em 1983, AA já apontava para e/ou isso e/ou aquilo, num movimento que recicla a antítese barroca num movimento dialético do neobarroco. Barroco que, queiramos ou não, está marcadamente presente nas entranhas da cultura brasileira de todas as épocas. Um fator dominante, podemos dizer. Uma dominante rizomática, que se espalha explícita ou subliminar.

Em Arnaldo Antunes ela se faz presente como herança caetânica, compositor que a assume com clareza, reciclando-a ao seu modo: “mas barroco como eu”.

Assim como Arnaldo, quase todos, na cultura brasileira, têm o Barroco embasando ou adubando sua produção.  De Oswald a Augusto de Campos, de Tarsila a  Beatriz Milhazes, de Antunes Filho a Mario Bortolloto, de Ana Botafogo a Débora Colker, de Glauber Rocha a Hilton Lacerda, de Donga a Johnny Hooker, de Pierre Vergez a Sebastião Salgado, etc., vai um Brasil neobarroco escancarado ou encoberto. Mas sempre (neo)barroco. Arnaldo e sua poesia aqui. Barroco reciclado presente. Sempre. E ou.

Seus poemas caligráficos, por exemplo, trazem para a página impressa a emoção do texto manuscrito e a configuração mecanizada do texto impresso. Ambos os recursos pulsam na página num movimento de reconhecimento, aproximação e, concomitantemente, trazem a presença do outro – a imprensa. Que chega ao leitor sendo percebida  como menos fria, menos distante – menos chaga, mais cheia de lua e estrelas.

É que agora a letra impressa vem transmutada pela “emoção da presença da letra do poeta” e não apenas pela “presença de um eu-lírico impresso em letras de imprensa”. Não é somente uma voz distante que fala, mas uma mão presente que escreve. Um corpo que se aproxima e se entrega em oferecimento na dádiva do poema que é, por si, dádiva e presente. Tempo presente. Ei-lo.

Presente enquanto aquilo que em ofertório se dá aos olhos, ao corpo. Aquilo que existe no momento atual. Que existe no instante da enunciação.

Mas também presente como enquanto mimo, regalo, colo, coisa para fazer-se lembrado/a e prolongar a beleza-maravilha daquele instante-já. 

O poema “nem sei pensei” é essa hesitação barroca de não saber, pensar, não pensar, saber, tudo desenhado, iconizado, melhor dizendo, nos movimentos do vaivém do coração e da mente, que ora balançam-se rápidos, ora suaves.

Com sextilhas e redondilhas maiores, ou seja, poema de seis estrofes com versos de sete sílabas, mais tônicas predominantes nas segundas, quintas e sétimas sílabas, num tecido tênue e elaborado, de finas filigranas, o poemas “e já que não há amor” é moldado fio a fio:

e já que não há amor

também já que não há mais dor

agora nem mel nem sal

escorre ou seca no céu

cessa sua meia-noite

cessa sua noite inteira

cessa-se o fio  da foice

do dia que lhe dá beira

cessa sua morte certa

cessa seu tempo justo

cessa-se o todo e a parte

o ar em torno do arbusto

agora não há miragem

pôr dentro ou fora da imagem

agora até mesmo a hora

de partir já foi-se embora

da cova volta à alcova

do útero volta ao berço

o filho volta à avó

o fim ao seu descomeço

só resta de si si mesmo

só resta do mundo o mundo

da  poça um poço sem fundo

da água a sede ao avesso

Apaixonado pela cultura popular, dela se valendo em seus poemas e canções.  Os timbres e as multiplicidade de instrumentos dos arranjos e os embalos rítmicos  ele aproveita nas composições. A estrofação, as rimas e os temas são recursos da poesia de cordel, do desafio e do repente que ecoam em seus poemas.

Fã de carteirinha do Tropicalismo, professa, fiel ao movimento, a inexistência de fronteiras entre erudito e popular. Poesia concreta, poesia de cordel, poesia digital são “um dia, um dado, um dedo”, pra lembrar um célebre verso da cultura popular. Este é Arnaldo, roqueiro e poeta de vanguarda, que bebe tanto no popular como no mais refinado repertório semiótico das artes.

Algo antigo se encerra com o poema que o intitula, cujos versos finais dizem: “algo / que já era / (embora / vivo) / para (agora) / ser/ um livro”. Livro que é novo elo novo  novelo e que se relança ao recomeço.

A coluna de hoje é dedicada à minha querida amiga, e também colunista do Correio das Artes, Analice Pereira, que ama a poesia e a poesia da canção de Arnaldo Antunes.

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Publicado no Correio das Artes, maio 2021, ano 71, nº 3, p.19-21. Suplemento literário encartado no jornal A União, João Pessoa-PB, domingo, 30 de maio de 2021.

As pretinhas são o melhor que há

Amador Ribeiro Neto

Ele tem 35 anos. É paulistano da Zona Norte de São Paulo. Nasceu “em uma casa bem pobrezinha. Sua imaginação foi sua melhor amiga e o fez visitar mundos incríveis, transformando-o em astronauta, desenhista, guerreiro, pirata, rei, pintor, samurai e muitas outras coisas”.

Isso quem diz é ele mesmo, Leandro Roque de Oliveira, pai de duas meninas, uma com nove e outra com dois anos de idade.  Devido às suas facilidades em rimar, seus amigos começaram a dizer que Leandro matava os inimigos nas batalhas de improvisações. Daí surgiu seu nome artístico, uma fusão de “MC” e “homicida”: Emicida.

Uma das maiores revelações do hip hop brasileiro da década de 2000. Um rapper, compositor e cantor que rapidamente ganhou o reconhecimento público e da crítica. Na levada de sua criatividade, logo preencheu de sentido as iniciais de seu nome artístico: Enquanto Minha Imaginação Compuser Insanidades Domino a Arte.

De “Triunfo”, sua primeira aparição na mídia, até “AmarElo”, seu mais recente trabalho, Emicida tem colecionado não somente elogios, como tem diversificado sua linha de trabalho. A partir da canção “Amora”, feita para sua primeira filha, escreveu seu primeiro livro infanto-juvenil, homônimo, publicado este ano pela Companhia das Letrinhas, com ilustrações de Aldo Fabrini.

Com o isolamento social advindo da Covid 19, Emicida começou a produzir queijo e hoje não somente abastece o mercado local, como já atende a pedidos de mais longo alcance. No meio disso criou uma grife de moda e tem já o projeto de uma revista de HQ, já que desenha e conhece as HQ como poucos.

Para um garoto que viu amiguinhas de escola sendo estupradas e mortas, amiguinhos assassinados, que passou fome e vagou pelas ruas enquanto a mãe trabalhava como empregada doméstica, já que o pai, alcoólatra falecera quando tinha seis anos de idade, ele foi distante. O título de uma mixtape, de 2009, é significativo: “Pra quem já mordeu um cachorro por comida, até que eu cheguei longe”.

O bom humor e o mais sublime lirismo sempre estiveram presentes na obra de Emicida. Mesmo quando a ordem era denunciar as mais caóticas, inviáveis e desumanas situações sociais. Sabe pôr o dedo na ferida sem a agressividade que só distancia e assusta o público. O viés de denúncia de sua obra faz refletir e intenta a mudança.

Brincando, até repórter ele foi. No programa “Manos e minas”, da TV Cultura, e no “Sangue B”, da MTV, pegou o microfone e reportou. Sem jamais deixar a música e a poesia, tá ligado? Tanto é que em 2015 seu nome chegou ao Grammy Latino na categoria de Melhor Álbum de Música Urbana.

Atualmente está todas as segundas, ao vivo, na telinha da TV, no programa “Papo de segunda”, do GNT. Opina sobre temas do momento, com bom humor, simpatia característica e aguda consciência social. Sua inteligência e facilidade de verbalização destacam-se a cada programa.

Lançar um livro infanto-juvenil não surpreende. Em especial para quem tem como projeto o princípio didático de cidadania plena: “Precisamos encontrar palavras inspiradoras, positivas e convidativas que façam com que as crianças tirem conclusões por elas mesmas”.

E é isso que ele põe em prática, com desempenho e competência admiráveis, em seu livro “Amoras”. A frase de abertura é um verso poético que salta em beleza e fica pedindo que o leitor se detenha um pouco mais. Que curta, que entre em si. Que pare o tempo por um momento. Que se desvincule dos compromissos com a realidade. E que se permita voltar a ser a criança que traz adormecida em si.

Se o leitor aceitar este convite, já é um presentão que se dá.  

O livro inicia-se assim:

“Não há melhor palco

para um pensamento que dança

do que o lado de dentro

da cabeça das crianças”.

E a narrativa corre na leveza da poesia e no encanto da relação de um pai com sua filha. Ambos estão sob uma amoreira e ele lhe explica que “as pretinhas são o melhor que há. Então a alegria acende os olhos da menina”. E o mais não digo porque não traio narrador de histórias – e muito menos a poesia.

Mas a verdade é que Emicida conta a história de uma menina e seu pai, numa conversa aprazível, leve, maneira, recheada de elementos da cultura. Há os religiosos: o budismo, islamismo e culminam nas religiões africanas. Há os histórico-sociais: Zumbi dos Palmares, Martin Luther King. Há… etc. e etc.

As ilustrações de Aldo Fabrini são o outro lado do livro. Têm autonomia e criam um novo modo de ler a história. Assim, sem se distanciar do eixo da narrativa central, apresentam uma complementação e não um mero espelhamento do que o autor diz. Assim, não pode ser desvinculada do texto escrito sob pena de empobrecimento do livro. Da capa à quarta capa, ilustração e texto formam uma unidade que agrada, diverte, faz pensar e sentir belezas.

  Ainda falando das crianças, Emicida disse num depoimento: “Se a gente conseguir criar um campinho de força em volta delas para que elas tenham suas convicções de igualdade preservadas, conseguimos pontuar que quem ataca qualquer diferença que duas pessoas tenham, essa pessoa é que está errada”.

“Amoras” é um livro afetuoso e poético sobre o universo cultural negro. A identidade das crianças negras é seu ponto chave. Pensado e escrito com a mais sublime delicadeza. Aquela que só a alguns poetas é dado ter. Emicida em “Amoras” é um desses.

(Este texto é dedicado a Laís Vitória Gonçalves Ferreira, 10 anos).