Hinos matemáticos

Amador Ribeiro Neto

 

Marco Lucchesi (Rio de Janeiro, 1963) é professor da UFRJ, poeta, romancista, ensaísta, tradutor, crítico literário, memorialista, missivista, roteirista, organizador de antologias, organizador de obras, editor de revistas literárias, membro da ABL. Foi contemplado com vários prêmios nacionais e internacionais. Tem livros traduzidos para o árabe, romeno, persa, russo, turco, polonês, híndi, sueco, húngaro, urdu, bangla e, claro, inglês, francês, alemão, espanhol e italiano. Publicou, os seguintes livros de poesia: Bizâncio (1997), De passione (2000), Alma Vênus (2000), Poemas reunidos (2001), Sphera (2003), Meridiano celeste & bestiário (2006), Clio (2014). Hinos matemáticos (Rio de Janeiro: Dragão, 2015) é sua mais recente publicação.

A poesia de Marco Lucchesi é de um lirismo arrebatador. Poucos conseguem, como ele, aliar erudição e leveza, ciência e sentimento, matemática e amor. Assim é, e não poderia ser diferente, em se tratando do poeta que é, Hinos Matemáticos, um livro que desafia o leitor com fórmulas matemáticas poucamente esclarecedoras. Mas com formas poéticas abundantemente tocantes.

Uma poesia que nos rememora a velha lição valéryana: poesia e matemática são duas abas do mesmo chapéu. Mas Lucchesi vai além da simples equação aritmética. Interessa-lhe a musicalidade contida na matemática. Aquela mesma música a que toda poesia aspira ser. O “espólio inabordável entre 0 e 1”,  como enuncia o poema “Busca do ouro”.

As imagens sucedem-se numa espiral que toca os mesmos pontos. E neste apoio conhecido, impulsionam-se pra novos volteios.

 

E as formas que não cessam

de crescer

 

Delírios fugazes

Líquidos lampejos

 

dizem os versos finais de “Solilóquio fractal”. O espaço em aberto. Expandindo-se. E isomórfico a ele, a poesia. Formas, delírios, lampejos: o leitor percorre galáxias em movimentos e banha-se num erotismo riscado a arpejos de luz e gozo.

O poema que abre o livro incandesce caminhos do devir. Cito “Canteiros”, na íntegra:

 

Um fósforo desata momentâneo

os fios de uma noite sem estrelas

 

No céu azul de Samos

voam ímpares.

E os pares sobrenadam

nas águas do Ilissos

 

O jardim

o conjunto de canteiros

E a floresta sombria e ilimitada

 

Como domar a astúcia do infinito?

 

O fósforo não acende, não ilumina: desata os fios de uma noite escura. Os raios do fósforo são os fios que, ao invés de clarear, ampliam a dimensão do escuro. Entre estes versos e os finais há a ilha grega de Samos, seu rio Ilissos, os canteiros do jardim, a floresta “sombria e ilimitada”. A ilha: locus de suspensão da vida. O rio antigo, hoje canalizado e subterrâneo: a dimensão espacial do lado de lá. Para além dos olhos. No entanto, tão próxima aos pés.

Depois do poeta construir a imagem sideral na progressão de “jardim”, “conjunto de canteiros” e, por fim, “a floresta”. Como se não bastasse a vastidão em si, é uma floresta “sombria e ilimitada”. Quer seja: o desconhecido dentro do desconhecido dentro do desconhecido.

Por fim, o verso que encerra o poema projeta este espaço como indomável em seus ardis, argúcia e sagacidade.

Estamos diante de um poeta que soma a matemática à vastidão do espaço – e configura-a na mais delicada poesia. Em filigranas do sublime.

Esse é o movimento presente em todos os poemas. Próximos e distantes. Perto e desconhecidos. A matemática e a palavra. Duas fontes de força bruta. O homem busca entendê-las para cantá-las. O poeta mergulha na estética da matemática para, nela, situar e localizar sua poesia. Daí o título do livro: Hinos matemáticos.

O poema “Primeira prova” orquestra a busca desta música precisa:

 

Orquídeas

resplandecem

no quintal

A geometria

de fogo

de suas pétalas

e a forma

do silêncio

em que se apoiam

Trago

o coração perdido

e os olhos tersos

da breve epifania

Toda flor

desponta

no seio do silêncio

e ao seio

do silêncio

acorre e se dissolve

Lembro

de Hardy

indo ao

fundo

silêncio

dos gregos

Teoremas

         cheios

   do frescor da beleza

          de quando foram descobertos

Dois mil anos

e sequer

uma ruga

em seu puro semblante

(Euclides

e a infinidade

dos números primos

Pitágoras

e a raiz quadrada

irracional de dois)

Os desenhos

                  do matemático

     e do poeta devem

                                         ser belos

Flores

teoremas

desmaiam

em súbitos

jardins

sob                              crepúsculos

fugazes

A beleza é a primeira prova

                   da matemática

 

 

Como consta das Notas que acompanham o volume, os versos em itálico são extraídos de Em defesa de um matemático, de G. Hardy.  No Posfácio intitulado “A espiral e o sonho dos meninos”, o poeta explica que “a ideia de beleza na matemática, que se encontra em diversos autores, como Hardy ou Poincaré, causou em mim grande impacto. Como se me deparasse com uma verdade perdida, um substrato arqueológico que me parecia estranhamente familiar e decisivo”.

Um vetor de leitura possível para este livro é seguir as orientações do poeta nas imprescindíveis Notas e no esclarecedor Posfácio. Todavia, isto não impede que uma outra leitura se faça na contramão destas orientações. É aquela leitura em que o eu lírico desenreda-se do estrato matemático dos poemas e mergulha nas epifanias das imagens em alumbramentos de sons e sentidos. Outros sons. Outras imagens. Outros sentidos. Para além da matemática. Para dentro da poesia em si.

Esta navegação, que se norteia pelo hino, pelo canto, pela enunciação dos significados por vir, é a do encantamento que a música produz nos ouvidos e nas sensibilidades. A entrega da beleza em estado de graça. Sem preço algum. Sem merecimento algum. Entrega da poesia em revelações inusuais. Revelações de pura entrega e vasto gozo.

Então, mergulhado nestas galáxias de imagens (sonoras, visuais e semânticas), o leitor chega ao cerne da matemática sem a necessidade dos teoremas e das teorias. É quando o poema “Lendo Hadamard” ganha as ganas do leitor tomado pela beleza lírica dos poemas de Marco Lucchesi. Cito-o na íntegra:

 

Perdem-se os primos {venerandos números}

quando num bosque em plena madrugada

sob a lira cintilante de Orfeu

põem-se a bailar mais bravos e dispersos

 

O imaginário

{nuvem     bosque      pensamento}

é o atalho cristalino da matemática

 

 

A poesia vence. Entendemos o poeta quando diz: “o vínculo entre a beleza e a matemática há de trazer novos ventos para as matemáticas no Brasil, rompendo uma cláusula de barreira cultural. O direito dos meninos e das meninas de sonharem nos campos do pensamento matemático”.

Somos todos meninos e meninas. O sonho da poesia é nosso mundo.  Obrigados ao poeta pela sua imensa poesia. Galáxia entre galáxias que nos leva a imensuráveis espaços – de caos, de exatidão, do fractal, do geométrico infinito. Espaço sideral de enternecedor lirismo.

Dois olhos sobre a louça branca

Amador Ribeiro Neto

 

Nathan Sousa (Teresina, 1973) é tecnólogo em marketing, escritor, acadêmico, professor, poeta e letrista. Autor de O percurso das horas (2012), No limiar do absurdo (2013), Sobre a transcendência do silêncio (2013), Um esboço de nudez (2014; finalista do Jabuti 2015), Mosteiros (2015), Nenhum aceno será esquecido (2015). Dois olhos sobre a louça branca (Guaratinguetá-SP: Penalux, 2016) é seu mais recente livro.

Nathan é um poeta e tanto. Disse isso quando comentei Mosteiros, aqui mesmo, em Augusta Poesia. Resultado: um fragmento do artigo foi parar numa das orelhas de seu novo livro. Feito de que me orgulho.

No entanto, seu mais recente livro é velho. Velho no sentido de nos apresentar uma poesia de fabricação conhecida, com sabor de déjà-vu. Não sei o que houve, mas Nathan resolveu investir na “poesia dita profunda”. Não se deu bem. Nem poderia. A tal poesia dita profunda é um enfeixamento de fórmulas consagradas pelo senso comum, naquilo que se acredita seja a grande poesia. Ou, simplesmente, poesia. Não é. Ledo engano. Poesia é a língua de um povo, com suas imagens e sons. Língua viva do povo, que vivifica uma nação. T. S. Eliot, que epigrafa uma das sessões do livro, com um verso de “The waste land”, disse isso num artigo antológico. É preciso aprender a lição.

Nathan Sousa revela-se admirável poeta em Mosteiros e em Um esboço de nudez – este, finalista do Jabuti. Mas erra a mão em Dois olhos sobre a louça branca. No prefácio, Alberto Lins Caldas rasga elogios ao poeta e ao seu livro: “Nathan Sousa é um poeta completo, pleno, dono do seu doloroso ofício, do seu ofício de vivente em tempos obscuros”. Lins Caldas é rigoroso na produção de sua poesia, e em seus textos críticos, mas é generoso neste prefácio. Também não funciona.

O livro peca pela inundação de metáforas, seguidas de adjetivações excessivas. Tais recursos não escondem a busca, do poeta, por uma linguagem da opulência. Há imagens em demasia, comprometendo a concisão. Esta busca de algo a mais, grandioso e magnificente, já se evidencia nas inúmeras citações que cobrem um leque que vai da mitologia grega a pop stars roqueiros. Da poesia hindu à xamanista. De Nietzsche a Kevin Carter. Do barroco ao pós-moderno.

Enfim, um painel amplo, vasto e quase irrestrito. Isso compromete a essência da poesia. Sugestão: ao invés de ficar borboleteando ao redor de tantas citações, en passant, Nathan deveria fazer o que já fez em livros anteriores: ater-se ao rigor da linguagem poética. Trocar a abundância pela parcimônia.

Vejamos. No poema “Prataria” o subtítulo já se revela majestoso: “a concavidade milenar das ostras”. Isso não é bom. A busca do pomposo acaba soando trivial. É uma prática comum entre poetas que não conhecem o caminho da poesia. E que se atrapalham nos jogos vazios de imagens. Nathan não é um poeta de volteios e desvarios neoparnasianos. Então por que os utiliza neste livro?

Outra coisa: há ingenuidade, ou comodismo, em acreditar que antíteses fazem poesia. Só o fazem quando dizem a que vêm. E quando criam relações inusuais entre termos afins. Aí, sim, funcionam. Mas em “Rapinas (dorso escuro, ventre prateado)”, de que cito a estrofe inicial, elas não produzem o efeito desejado:

 

vejo uma fêmea entre um feto e uma lata de detritos.

estou também na lástima desta deusa de sepultos.

e enquanto as esfinges conspiram nas esquinas,

voa uma sanha frívola de rapinas, acossando os répteis

das línguas tingidas ao sobejo e ao catchup.

 

Há infelicidade em construções como: “estou também na lástima”, “esfinges conspiram nas esquinas”, “sanha frívola de rapinas”, “répteis das línguas tingidas ao sobejo e ao catchup”. Pois é: o poeta não esconde seu empenho na construção de uma linguagem luxuosa, adjetivada e metaforizada. Mais grave: linguagem que se pretende inusitada. O resultado decepciona. É uma pena. Fica uma poesia à la Salgado Maranhão (a quem é dedicado um poema). Ou à la Iacyr Anderson Freitas. Falando neste, não há como não nos lembrarmos de Cabral, poeta que Iacyr clona inescrupulosamente.

Pois bem, há poemas em Dois olhos sobre a louça branca que não se desgrudam do estilo cabralino. Quando digo não se desgrudam, refiro-me a colar no grande poeta e produzir algo, não como discípulo, mas como outro retrato do mestre pernambucano. Nathan não toma Cabral para vencê-lo. Antes: é vencido por ele. E aí a marca cabralina, ao invés de conquista, passa a ser demérito. Entre outros, são exemplos da malfadada insistência: “Asas e crinas contra o tempo”, “Fascículo catalão, rabisco”, “Os ponteiros” e “Monólogo para uma gaiola (o silêncio inicial)”, que transcrevo na íntegra:

 

observe: este século nutre o pássaro

com cinzas, sobras e pouca sombra.

dele, sabemos da asa, do porte,

do canto (quase nada do bico).

porém, ele (o pássaro)

nada sabe do tempo que passa;

de seu desenho na paisagem;

das rinhas por onde sangra.

aprendeu (apenas) a não usar

a esgrima para domesticar as esperas.

o vertebrado (das penas) é ovíparo

e por isso nada em sua volta

está isento de mergulho:

sua plumagem de pigmentos

milenares, a evolução complexa

de combinações coloridas

(a melanina no cio, em pleno voo),

as carotenóides e as cores estruturais,

o carnaval pela  máscara humana

passa (invisível). observe: o tempo

nos alimenta a opacidade

rasante.

 

 

Para além das imagens, do ritmo, da construção sintática e semântica cabralinas, nada há de Nathan aqui. O poema é bonito. Mas já foi feito. O poeta repete a lição aprendida. É um aluno aplicado. O problema é que se aplicou em demasia. Vestiu a camisa (e todo o restante da roupa) do Cabral. Assim não funciona.

Mas nem só de grandiloquência e imitatione vive o poeta. Ele também persegue a coloquialidade em alguns poemas. Sai-se bem nos versos finais de “Agudos”:

 

só o acaso saberá domesticar esta vaga certeza

que me fareja como se a memória e o aço

fossem desejo e língua.

ou sêmen

e pólvora.

 

No prefácio, Lins Caldas já havia destacado que diante da “língua que é ‘sêmen e pólvora’: a poesia que não insemina corpos e imaginações não é poesia”. Comentário que ratifica o que venho assinalando: poesia é gana, é risco, é rigor. E, para conseguir-se isso, constitui-se como “linguagem carregada de significado”, nas palavras de Pound. Exatamente: as duas coisas. Primeiro: linguagem. Segundo: carregada de significado.

De nada adiantam os malabarismos da linguagem, nem as densidades dos significados, se ambos permanecem em gôndolas distintas nas águas da poesia.

O curioso é que Nathan sabe disso tudo, de sobra. Mosteiros e Um esboço de nudez, repito, comprovam fartamente. Por que desviou o caminho certeiro das águas é um enigma esfíngico (apropriando-me de seu universo mitológico, adjetivado e proparoxítono).

Na esteira da pseudopoesia de viés filosófico, à la Antonio Cicero, temos em “Não precisamos  saber (ave de Aristófanes)”:

 

ainda que me pesem o anonimato e a minha sombra,

restará em meu orgulho fracionado  um pedaço de céu

caído como uma pedra no peito.

 

porém, a vida é grave,

e o tempo é o silêncio entre a lágrima

e o falso riso.

 

Ou no poema “Aqui se paga (sermão do sexto sentido)”, em que Vieira e a Bíblia surgem oblíqua e diluidamente:

 

respondo pelo que calo

e somente deus conhece

minha sintaxe de água.

 

porque aos peixes

é dado chorar de

olhos abertos.

 

Há uma displicência nesta coloquialidade a serviço das imagens surradas que não escondem o viés de autoexpiação. Além de uma pitada do pior de Manuel de Barros: a metáfora abusiva, inconsequente, encharcada de elementos da natureza.

Ou uma falsa espontaneidade das imagens associada a um coloquialismo clichê em “A remoção das montanhas (o lodo da escada)”, que cito integralmente:

 

subiu aos céus.

quis falar com deus,

pai, todo poderoso.

 

mas esquecer

os dentes no copo

de uísque, ao lado

da cama

(perto da bíblia)

onde havia  anotado

o número de uma placa

de caminhão para jogar

no bicho.

 

Assim, Nathan Sousa não corteja o leitor: azara-o. Uma pena.

Por fim, o poeta fica devendo-nos um novo livro, pleno das delícias e dos saberes poéticos que ele domina a mancheias.

Alarido

Amador Ribeiro Neto

Bruno Molinero (São Paulo, 1990) cursou a Escola de Comunicações e Artes da USP. Jornalista. Estudou na Escuela Internacional de Cine y Televisión de Cuba e na Universitat de les Illes Balears, na Espanha. Vencedor do Prêmio Jovem Jornalista, do Instituto Vladimir Herzog. Finalista do prêmio Nascente, da USP. Representante do Brasil no World Event Young Artist, na Inglaterra. Alarido (S. Paulo: Patuá, 2016) é seu livro de estreia.

Sua poesia é feita da mesma matéria temática do jornalismo. Caminhoneiros tomando rebite pra dar conta da carga. Dona de casa mata o marido por puro estresse. Mãe atormentada pelas fantasias do filho abortado. Garoto crucifica um inseto depois de tomá-lo como deus. Medo do motoqueiro que carrega “revólver na bermuda”.

Engenheiro perde família no terremoto do Haiti, emigra para o Brasil e passa fome. Incêndio queima casas e biblioteca – menos uma página do Drummond. Menina do pole dance apresenta queixa inusitada. Delírios de um jovem solitário diante de uma garota no metrô. A garota do BDSM. Garotinha morre e vira boneca das coleguinhas. A inveja da mulher infértil e o castigo aplicado a uma tartaruga. A estranha lição de vida do jovem polaco. Ritual de um velho ante a morte. Universitária se fotografa para as redes sociais entre tiros. Idas e vindas das mandingas. Embaraços de uma anciã carente.

Maravilhamento da filha ante a morte do pai. Estranhas descobertas de um bebedor de uísque. Jovem que faz amor no cemitério.

Manchetes de jornais. Poderiam ser e parar por aí. Mas não. Sua poesia advém da mesma escolha sintática do jornalismo. Versos curtos. Nada de inversões. Predominância quase absoluta de substantivos. Ritmo acelerado de palavra puxa palavra. Comunicação imediata.

Bruno Molinero constrói seus poemas com a matéria concreta do cotidiano. E com a materialidade das palavras. Eles são fruto de uma montagem de versos (às vezes sílabas, às vezes apenas letras) que iconizam o objeto de que tratam. Por isso mesmo, ao lado da secura e objetividade, há a arquitetura de um aporte cinematográfico.

Ler Alarido é adentrar nas tramas e teias do cinema. Ainda que a contracapa do livro enuncie: “Alarido: 1. ruído de vozes, de gritos; falatório, algazarra, gritaria. 2. gritaria de guerra, clamor de combate”. O poeta, ou quem escreve a contracapa, já que não é assinada, parece chamar a atenção para o caráter auditivo e combativo do título. De fato a denúncia é a marca desta poesia, que sabe ser engajada passando ao largo do panfletário, do didático e da pasmaceira. Coisa rara. Coisa louvável. Mas não é só isso.

Todo bom poema é uma somatória de um bom tema com um bom arranjo da linguagem. Muitos se equivocam e focam no tema desprezando o tratamento dele. Outros incorrem no erro inverso: aprimoram formas e menosprezam o tema.

Em Alarido (assim, no singular, para ecoar mais forte) temos espessa marca da materialidade da poesia. O signo é tomado no âmago de suas camadas de significado e significante. Se a palavra visa a ser música na poesia – e música que se corporifica em significados –, aqui temos um grande livro de poesia. Temos uma estreia que merece toda atenção do leitor da melhor poesia.

Na resenha da antologia É agora como nunca (organizada pela Adriana Calcanhotto), comentando um poema de Bruno Molinero, anotei: “a narrativa do jornalismo policial convertida em possante vivacidade poética. Talvez seja nosso Rubem Fonseca da poesia”. Retomo e reafirmo o que dissera. Se nosso grande prosador vem, a cada livro, renovando a narrativa contemporânea com uma marca singularíssima (que chega a confundir críticos e leitores afoitos), o poeta trilha o mesmo caminho. Parece fácil o que ele consegue. Mas foi ele quem conseguiu esta forma na poesia contemporânea. Bandeira ensaiou algo próximo no “Poema tirado de uma notícia de jornal”. Mas é outra coisa. Outro contexto. Outro momento. Bruno toma o noticiário e o recicla com forma e/ou novas intervenções textuais. E aí mora o alumbramento de sua poesia.

Vejamos. “lúcia, 51, canhota” diz:

a morte do meu pai
é minha lembrança mais bonita

estávamos nós quatro na cozinha
eu
mamãe
vó marta
e meu irmão
quando veio a bomba

– papai morreu

vestida de rosa e bolinhas amarelas até o tornozelo
vovó se levantou
subiu no banquinho em frente à pia
esticou-se para alcançar o pó de café guardado no
armário
e disse lentamente
enquanto colocava a água para esquentar

– calma, lucinha. nós já vamos vê-lo

entramos no landau azul
chumbo
e logo imaginei meu pai da mesma cor do carro
algodãozinho no nariz
terno preto
gravata fina

mas quando chegamos ao porão
em que meu velho tinha dormido para sempre
quase caí para trás

meu pai estava enforcado
mas não era um morto qualquer
caído
frouxo
flácido

ele morreu enforcado
em um quarto colorido
cheio de brinquedos
vestido de palhaço
e com milhões de bexigas amarradas no pé esquerdo
tantas
mas tantas
um exército de bolinhas cintilantes
que puxava o corpanzil de 120 quilos pelo tornozelo
em direção ao céu
e só não o levava para a lua
porque a corda amarrada no pescoço
insistia em fazê-lo flutuar de ponta cabeça

meu pai morreu enforcado
espelhado
ao contrário
invertido

ele sempre me surpreendia
aquele bandido
até na morte tinha que fazer palhaçada

deitei no carpete cinza
olhei os cabelos feito morcegos ao meio-dia
e adormeci com o cheiro forte de café que inundava o ar
Como desconhecer a força poética deste poema? Bruno vale-se do coloquial, de recortes da realidade crua e os investe de uma linguagem admiravelmente isomórfica. Quer seja: a cada sequência do poema, marcada pela divisão estrófica, o eu lírico (= lúcia, 51 anos) faz-nos companhia no percurso para o encontro da morte. E na construção do vazio da vida entre cores e brinquedos.

Em “ângela, 51, não tem ovos”, a solidão se compraz da crueldade:

nunca antes tinha tomado sopa de tartaruga
até que meti a gertrudes na panela

ela mereceu
:
decidiu colocar um ovo bem na minha frente
acredita?

vinte anos juntas,
desde que a bicha parecia um enfeite de banheiro,
e nunca tinha feito nada parecido

aí… cloc

botou a casca
melecada
ao lado do meu pé

justo ela
comprada para nos fazer companhia
quando descobri que não tenho óvulos próprios

tomei o caldo frio
ainda ouvindo-a borbulhar dentro do casco

Imagens desconcertantes vazam todo o poema. O primeiro verso começa com requintes de uma refeição sofisticada. E o último fecha o poema com requintes da crueldade anunciada. A invocação do leitor como cúmplice (“acredita?”), a incorporação da onomatopeia como economia verbal (“aí, cloc”) e o desamparo ante a traição da tartaruga, depois de vinte anos de cumplicidade, desorientam o eu lírico (= ângela, 51 anos) ao mesmo tempo em que desnorteiam o leitor. Esta quebra da norma, inicialmente sugerida, reverte a expectativa que o poema enunciava, e instala uma nova perspectiva: e aí reside a poesia.

A banalização da violência está em “marcela, 43, casada”:

matei, sim senhor
porque quis
não, até que era bonzinho
na gaveta da cozinha. uma daquelas grandes, sabe?
isso, ele estava no sofá
de costas
não, não me viu
dei dois passos e a lâmina escorregou para a cabeça dele
não tirei porque mancharia ainda mais o tapete
ora, se sabe, por que pergunta?
desculpe. sim, o corpo ficou lá
depois saí
mansão. era muito rico
não. deixou tudo para as meninas
eu sabia, sim senhor
porque quis, já disse
cansei de subir em pau de sebo. deslizar fácil não tem graça
sim. mas vou ficar muito tempo?
é que deixei a panela no fogo

A poesia, sabemos, é um texto difícil. Esta dificuldade, todavia, não reside nos malabarismos da linguagem. A bem da verdade, malabarismo, em poesia, é tiro no próprio pé. É difícil fazer um poema hermético de qualidade. Mas é também difícil fazer um poema simples, que prime pelo rigor sem cair na mesmice.

Em Bruno Molinero a palavra colhida do jornalismo é reciclada por imagens e montagens estruturais que desconstroem a percepção viciada do leitor e inauguram um novo momento. Pode ser o caso do leitor de jornais, bem como o de literatura. Bruno Molinero desinstala a segurança do leitor que, precipitadamente, acha que sabe qual é a do poema.

Não sabe. Não sabemos. Eis mais um mérito deste poeta. Cada poema está no limite do prosaico. E essa é uma grande qualidade. O poético limítrofe. Isso não é fácil. Isso fascina em Alarido.

A poesia narrativa de Bruno Molinero é neo-épica, sem deixar de ser lírica. Seu estilo épico-poético-jornalístico é um alento em tempos de tanta literatura diluída e/ou vazia. Ele estreia com marca própria. Que venha o novo livro.

 

Tudo (e mais um pouco)

Amador Ribeiro Neto

 

Chacal (Rio, 1951) nasceu Ricardo de Carvalho Duarte. O seu nome verdadeiro está no título do livro de estreia: Muito prazer, Ricardo (1971). Tudo (e mais um pouco) (S. Paulo: 34, 2016) reúne sua obra do primeiro ao mais recente livro, Alô poeta (2016). Em 2007 ele havia lançado, em coedição da Cosac Naify e 7Letras, Belvedere, até então o livro mais completo sobre sua obra.

Chacal é um empenhado ativista do CEP 20.000 e um dos nomes mais lembrados quando se fala da Poesia Marginal. Integra a célebre antologia “26 poetas hoje”, que a Heloisa Buarque de Hollanda organizou em 1976. Esta antologia marcou época e encheu a bola de muita gente sem talento algum pra poesia. É o caso de Chacal.

Com seu jeito desleixado de escrever, acreditando e divulgando que “tudo que você sente é você mesmo e, portanto, é sua poesia”, segue fazendo sucesso entre os adolescentes remanescentes dos anos 70. E entre os novos e velhos adolescentes das décadas de 90 e 2000. Adolescentes estes que se incumbiram de alastrar um modo de fazer poesia marcado por confundir naturalidade com boçalidade, coloquialismo com pobreza vocabular, quebra da norma com ignorância estética, crítica a autores canônicos com desconhecimento da literatura. E por aí vai, no mesmo ramerrão de horrores.

E uma das piores balelas ostentadas por Chacal é a convicção de ele que se vale da concisão e da irreverência de Oswald de Andrade. E, pra piorar o texto e o contexto, boa parte da crítica repete seu jargão. Sem avaliá-lo, é certo.

Na verdade, Chacal não passa de um diluidor dos recursos oswaldianos. Diluidor significa aqui o que o leitor já sabe: aquele, ou aquilo, que diminui a concentração com a adição de líquido. No caso, concentração é a poesia de Oswald. E líquido, o despreparo, a ignorância e a preguiça de estudar teoria e história da poesia. Só quem estuda e conhece poesia é capaz de fazê-la. Sem repetir o já feito. Sem chafurdar na pasmaceira contagiosa.

Ter sentimentos, todos temos. Ser poeta é outra coisa. É, por exemplo, converter o sentimento em linguagem, rigor, exatidão. Oswald é poeta. Pessoa, T.S. Eliot, Drummond, idem. Valéry, outro grande poeta, afirma que não basta ao poeta sentir-se inspirado. É preciso fazer o leitor sentir-se como tal. Ou seja: é preciso  converter seus sentimentos, pensamentos, ações em linguagem poética.

Para Chacal, basta sentir. O resto é lero-lero, conversa mole. É assim esse seu livro. Do livro publicado em 1971, ao do ano passado, não percebemos sequer uma linha de amadurecimento. A infantilização dos textos é a tônica dominante de sua obra reunida. Não há tudo e mais um pouco. Há pouco. E quase nada.

Em 1971 ele escrevia no poema “Prezado cidadão”:

 

colabore com a lei

colabore com a Light

mantenha luz própria

 

Certo, o rapaz tinha só vinte anos. Pois bem, em 2016, com sessenta e cinco, ele escreve:

 

o mercado quer te regular

mas a vida não tem manual

invente-se!

 

Pois é. Com exclamação e tudo. Mas não tem jeito. O poeta não escreve bem. E desconfio que ele saiba disso. Vive, psicanaliticamente, insistindo, no refrão: “escreve bem, escreve bem, escreve bem”. Vem a dúvida: é um imperativo para o leitor? Ou um conselho para o próprio poeta?

Vejamos:

 

primeiro escreve bem

depois vai procurar sua turma

faz um zine

inventa uma banda

mas antes, escreve, escreve

e fala bem porra

 

O leitor deve se sentir pasmo. Os clichês usados como clichês sem mais nem por quê. Não há uma negação que possa ser mimetizada. Não há uma afirmação que se fundamente numa escrita mimética. Isomorfismo, quer seja, trama do que se diz, com o modo com que é dito, inexiste. Insisto. Busco alguma relação entre forma e fundo. Nada encontro. É um texto apenas de superfície. Leviano. Nem tangencia o essencial.

A dita poesia de Chacal não existe. Ele acredita que trocadilhar boçalmente é ser oswaldiano. Por favor, salvemos Oswald desta fria.

Chacal acha que faz rir com o poema “Chiste”, que cito integralmente:

 

inexistível não existe.

 

Chacal acha que faz poema engajado em “Ganso”:

 

só afogando o (passo de) ganso

vamos tirar o (brasil do) atraso

 

Chacal acha que faz rir e que faz poema engajado em “Olho”:

 

tu pensas que me vês

mas eu é que te vejo

 

eu sou mais poderoso

que o incrível hulk

mais incrível

que o poderoso chefão

 

porque eu sou

eu sou o olho

eu sou o olho

da televisão

 

Por fim, a sapiência de uma lição de vida e de poesia, escrita sob a consciência crítica, política, existencial e psicanalítica, quando contava cinquenta e seis anos, no poema “Como era bom”. Cito-o na íntegra:

 

o tempo em que marx explicava o mundo

tudo era luta de classes

como era simples

o tempo em que freud explicava

que édipo tudo explicava

tudo era clarinho limpinho explicadinho

tudo muito mais asséptico

do que era quando eu nasci

hoje rodado sambado pirado

descobri que é preciso

aprender a nascer todo dia

 

Como já disse o semioticista russo Chklóvsky, a poesia reside na singularização do objeto e na alteração de nossa percepção usual da coisa. O objetivo jamais pode ser a simplificação das coisas. Ao contrário: deve criar uma nova visão do já conhecido. E não apenas uma imagem de reconhecimento. (Isso é pegadinha, não é poesia).

Após afirmar que a língua da poesia pode se aproximar da prosa, Chklóvsky pontua: “mas sem contradizer a lei da dificuldade”. Ou seja, a dificuldade é aquela “pedra de quebrar dente”, o que “açula a atenção, isca-a com o risco”, que nos ensina João Cabral, num poema que deve ser leitura obrigatória, e diária, para todo poeta.

Pois é: a poesia de Bandeira, Drummond, de Oswald é difícil. E sua dificuldade reside na própria simplicidade. O simples é difícil. Apropriar-se do coloquial não é repetir chavões. É reciclá-lo numa linguagem rigorosamente elaborada. O resto é nada.

Ao final de Tudo (e mais um pouco) fica quase nada. Ou nada. Chacal precisa ler poesia. Que tal começar por Oswald?

 

Cadela prateada

Amador Ribeiro Neto

 

Líria Porto (Araguari-MG, 1945), poeta, é autora de Borboleta desfolhada (2009), De lua (2009), Asa de passarinho (2014), Garimpo (240). Acaba de lançar Cadela prateada (Guaratinguetá-SP: Penalux, 2016).

Já dissemos, aqui no Augusta Poesia, que sua lírica “tem lugar de destaque na nossa poesia contemporânea por aliar concisão, leveza, imagens inusitadas extraídas do mais reles cotidiano. Sua dicção poética é rigorosamente construída com a emoção mais pensada. Um lirismo arquitetado por mãos e coração que conhecem bem o caminho ambíguo e oblíquo da poesia”.

Com o novo livro ela não somente reforça tais características, como acresce uma nova, bastante difícil em se tratando de livro de poesia: produz um livro monotemático. A empreitada é arriscada, mas a poeta parece gostar de desafiar-se. E o resultado é um volume em que a velha e surrada lua é tomada como mote. Perguntinha inconveniente: como alguém, em pleno século vinte e um, ainda se propõe a falar da lua?

Lua e rosa são dois temas muito explorados em poemas. Difícil encontrar um poeta que não tenha se debruçado sobre eles. A história de nossa poesia é um roseiral enluarado. No entanto, Líria faz um livro todinho com a lua. O resultado é encantador.

Na comemoração do Dia internacional da Mulher, poemas seus foram publicados na revista Mallarmagens. Todos, no caso, tematizando a mulher. Para conferir e curtir essa boa poesia, basta acessar o link http://www.mallarmargens.com/2017/03/08-de-marco-e-todo-dia-na-poesia-de.html

No entanto, o mais bem realizado poema sobre o tema não está neste link. É o poema “Poderosa”, de Cadela prateada. Cito-o na íntegra:

 

a lua surge rainha

põe-se no meio do céu

 

o sol não suportaria

esta mulher sem cabresto

 

que vai e volta sozinha

sem precisar de pretexto

 

Este poema fica lado a lado com o célebre, e igualmente belo, “Com licença poética”, de Adélia Prado, que termina assim: “Vai ser coxo na vida é maldição pra homem / Mulher é desdobrável. Eu sou”.

“Poderosa” recicla “Com licença poética” quatro décadas depois. Adélia se pautou em Drummond. Líria, que também se pauta no poeta mineiro, aposta no deslocamento da lua, no espaço sideral, para construir uma imagem inusitada de independência da mulher.

O que mais encanta no poema, todavia, não é seu lado engagée. É  a arquitetura da linguagem. Em seis versos, alojados em três dísticos, todo o universo. Lua e sol. Céu. Homem e mulher. Mundo. O ritmo dos versos iconiza o movimento das ideias e da rebeldia da lua. A sintaxe clara e direta expõe a força da lua e a determinação da mulher. A semântica recobre um universo de astros empoderados: rainha, sol, sem cabresto, sozinha. Pois é: Líria Porto segue dominando uma das mais apuradas líricas da nossa poesia contemporânea.

A poeta, ao longo do livro, procede a um verdadeiro rastreamento dos sentimentos e sentidos que povoam o universo da pessoa amada. A lua é texto e pretexto para instalar a  poesia dentro do leitor.

Ou como diz o poema que fecha o volume:

 

sou refém da lua cheia

ela entra pelo quarto

conhece-me os beijos

os cheiros guardados

as sombras e crateras

do meu cativeiro

 

sou refém da meia-lua

ela me sabe os pedaços

as tristezas os segredos

invade-me à madrugada

assiste o amor arder

sem endereço

 

sou refém de mim

a lua é pretexto

 

O poema que abre o livro anuncia: “na lua cheia / não tenho regras”, investindo na dubiedade do vocábulo “regras”. Em especial, nas conotações tanto de ‘menstruação’ como de ‘falar muito, parolar’. O eu lírico não tem regras, vive no desvio, na contracorrente, no oblíquo da vida e da linguagem. Por isso seduz (e cativa) o leitor.

Os poemas de Cadela prateada têm uma riqueza tal que vários deles, mesmo considerando as inserções eróticas que os enlaçam, abrem-se a outras leituras, como por exemplo, àquela que se destina ao público infantojuvenil. Me arrisco a dizer que há um outro livro dentro deste. Único. Independente. Com vida própria. Sejam bem-vindos, novos leitores.

Pensando bem,  Asas de passarinho e Garimpo, originariamente dirigidos a este público, têm um alcance muito maior. Uma prova disso está em Garimpo ter sido finalista do Prêmio Jabuti na categoria Poesia – e não Infantojuvenil.

Esta poeta sabe que o caminho da poesia não tem território fixo nem delimitado. Tudo é matéria da (e pra) poesia. A condição única repousa na linguagem. E isso Líria domina como poucos.

 

Adriana Calcanhotto, antologista de poesia brasileira

Amador Ribeiro Neto

 

Adriana Calcanhotto é um dos nomes mais expressivos da música popular brasileira contemporânea. Isso não se discute. Basta considerar a riqueza de suas melodias e harmonias, a diversidade de suas interpretações e, acima de tudo, a excelência de sua poesia. Ou, para os mais convencionais, a excelência da poesia de suas letras de música – distinção que considero desnecessária, preconceituosa e anacrônica, à luz da recente teoria da poesia. Mas isso é assunto para outro momento. Hoje quero tratar aqui da Adriana Calcanhotto antologista de livros de poesia.

Ela já organizou três. O primeiro, Antologia ilustrada da poesia brasileira; para crianças de qualquer idade, foi lançado pela editora Leya Casa da Palavra, do Rio, em 2013. No ano seguinte saiu a segunda edição, ampliada, pela Edições de Janeiro, também carioca. O livro faz um mergulho na história da poesia brasileira, de Gonçalves Dias a Gregório Duvivier. O resultado é, no mínimo constrangedor. Da obviedade à pasmaceira, num ramerrão de admirações tolas. Há exceções. É claro. Mas a regra é que conta aqui. O que salva, na verdade, é a qualidade das ilustrações, feitas pela antologista. Que grande ilustradora ela é. Sem dúvida.

Em 2014 publica Haicai do Brasil (Rio: Edições de Janeiro, 2014). Como anotamos em algum lugar, “as ilustrações de Adriana, centradas em poucas pinceladas, lembram ideogramas dialogando com o traço de Amílcar de Castro. Um belo trabalho. Os haicais selecionados pecam, ao menos por dois motivos: 1. muitos deles já compõem o livro Haicais (S. Paulo: Companhia das Letras, 2009), organizado por Rodolfo Witzig Gutilla; 2. a seleção de Adriana Calcanhoto elege haicaístas e haicais duvidosos”.

Agora Adriana Calcanhotto acaba de lançar É agora como nunca; antologia incompleta da poesia contemporânea brasileira (S. Paulo: Companhia das Letras, 2017). Já no subtítulo vem-nos um desconforto: “antologia incompleta”. Pressupõe-se que haja uma antologia completa. Há? Creio que nem nos sonhos de Borges. Mas isso é o de menos. Ao menos, por hora.

É agora como nunca reúne 41 poetas que nasceram entre 1970 e 1990. Ou seja, a novíssima geração da poesia brasileira. O propósito é louvável. Sempre o é quando o projeto tem em conta a divulgação desta poesia ainda insurgente. Adriana afirma na apresentação que esta antologia “é um agrupamento de  poemas armados por uma leitora de poesia diletante, não acadêmica ou crítica”. Esta explicação restritiva não a isenta da responsabilidade que publicação de um livro de poesia, com este perfil, traz. O fato de  ser uma antologia pessoal apenas redunda o que todos sabemos: ainda que embasada num repertório teórico definido e consistente, toda escolha acaba sendo, em última análise, pessoal. E o fato de ser pessoal não a desobriga de ser crítica. Afinal, toda antologia é pessoal e incompleta. Mas não precisa ser pessoal e incompetente.

O volume abre com um poema de Ana Martins Marques, aquela que já publicou três livros sofríveis de poesia (como também já demonstramos nestas páginas), que se intitula “Poemas reunidos” e que começa assim: “Sempre gostei dos livros /chamados  poemas reunidos” e termina com um de Laura Liuzzi, outra poeta apreciadora da linguagem prosaico-banal, que diz: “Chega-se, enfim, à última página / embora deixe claro: não se chega / ao fim (…)”. Bem, se Calcanhotto quis fazer uma introdução e fecho metalinguísticos, escolheu muito mal os poemas e as poetas. E se o leitor é daqueles que gosta de ter uma noção do livro, lendo o poema que o abre e o que o encerra, já tem um  claro sinal de que está diante de uma antologia capenga.

Vamos por parte.

É curioso notar que 83% dos poetas são das regiões Sul e Sudeste, 17% da região Nordeste e nenhum das regiões Norte e Centro-Oeste. O Rio de Janeiro concentra 50% dos poetas selecionados. Puxa, o coletivo CEP 20.000 tem feito escola. São alunos eficientes em usar a linguagem desleixada e reles. Aplicam bem a lição aprendida em tsunamis de mesmices sentimentaloides.

Ok, a escolha é pessoal, está avisado. E é incompleta. Também está avisado. Mas concentrada no Sul e Sudeste? Antes: no Rio? Por quê? Quem explica? Ao que nos consta, um antologista tem a obrigação de conhecer a poesia produzida em todas as regiões de nosso país. Não há nada de valor fora do eixo Sul-Sudeste mais um risco de Nordeste? Ok, se produz mais no Sul e Sudeste? Quem garante isso? O Rio é o atual celeiro da poesia brasileira? Desde quando? Quem garante? Nossa Paraíba, por exemplo, tem revelado um rico quadro de jovens poetas. Quem nega? Cadê sua presença na antologia? Ok, é parcial. É incompleta. É incompetente.

Dos quarenta e um poetas apresentados, destacam-se oito entre bons e muito bons. Oito dentre quarenta e um é uma média bem baixa. Em todo caso, vamos a eles: Simone de Andrade Neves, com seu estilo seco, batendo forte em imagens duras e cortantes de “Latente” diz:

 

Boda do prato

praia da ilha

 

Há devir

na ínsula

à deriva

 

Poesia que maravilha e faz pensar.

Leo Gonçalves é feliz ao trabalhar as reiterações da oralidade em “Língua de Aruanda”, mas é no terceto sem título que acerta em cheio,

 

nada mais

será como

dante

 

operando uma síntese entre poesia e música popular. Sem noves horas.

Camila Nicário é parcimoniosa deste a inexistência de título para seus dois poemas. Num deles diz:

 

Como continuar a ser a mesma pessoa

depois de ter conhecido a Fontana di Trevi?

Você me dirá o quanto eu sou tola

e que o conta-gotas dos dias

nos transforma permanentemente…

Eu estaria, com gosto, de acordo

se não fosse a  pequena moeda

que, do fundo da água,

cintila redonda meus cinco centavos

de desejos impronunciáveis.

 

O desfecho redimensiona o preço, a crença, o propósito do eu lírico. Desconstrói o esperado, como a fonte reverbera a imagem da moeda sob as águas.

Paulo César de Carvalho é dono de um estilo singular, já marcado em cada um de seus livros: aquele que funde puzzles de sentido com reverberações sonoras em versos minimais. Sua poesia é musicalidade em alta voltagem de significado. Cito um fragmento do longo “minha mala”:

 

levo

na minha

mala

minha

mandala

minha viola

nana

na

victor jara

janis

callas

tame impala

 

nela levo

ella

avalovara

sinatra

sidarta

baraka

drácula

odara

 

comigo vai

martinho da vila

paulinho da viola

violeta parra

cartola

cachaça

maria alcina

alzira

maria fumaça

 

levo marina lima

marília medaglia

amélia

amália

martinália

e se ela

quiser ir

eu levo

anália

 

(…)

tô indo

embora

meu bem

pra maracangalha

ou pra pasárgada

e passe bem

larga

a mala

ela

é minha

mas eu

não sou

de ninguém

disfarça

e chora

eu já vou

minha cara

olha  o trem

 

A facilidade que o poeta encontra no jogo de som puxa som, associado a uma gama rica de significados, lhe dá, literal e figuradamente, uma dicção única em nossa poesia contemporânea.

Donny Correia talvez seja o autor do poema mais bem realizado da antologia. “Kancer (solilóquio)” é um longo e conciso poema. Longo no número de versos. Conciso na exatidão das imagens. Nenhuma delas não poderia estar fora do poema. Todas têm função e força em sua poesia. Cito os versos iniciais: “Quando me convenci / de que eu era imortal / veio o Doutor e disse:  – É câncer…”. E quando se espera que o eu lírico discorra sobre o câncer, ele de fato o faz, mas apenas como pretexto para o pacto que estabelecerá com a doença:

 

Eu serei seu alimento

e você, o meu  motor

 serei seu combustível

e você meu velocímetro

serei seu servo

e você meu amante

autoritário.

Algoz atento,

rói

mais lento

minhas carnes de dentro.

 

Rimos juntos

do tempo.

A você juro fidelidade

 

 

E o final do poema:

 

Passe um ano ou passem

cem, amigo, imundo amigo meu,

rói

mais lento

as carnes sujas de dentro

Que as de fora, vou à farra,

E roo eu

 

Virulência de uma linguagem impactante na escolha dos vocábulos, tanto sonora quanto semanticamente. Força na estruturação do poema, em estrofes que adensam o tema numa forma que mimetiza a dor, sem nomeá-la.

Bruno Molinero é autor, até o momento, de um só livro (Alarido, editora  Patuá, 2015), mas já traz sua marca para a poesia contemporânea:  a narrativa do jornalismo policial convertida em possante vivacidade poética. Talvez seja nosso Rubem Fonseca da poesia. Não podemos dizer como serão seus livros futuros. Com este, e com os poemas desta antologia, vê-se que é um poeta que sabe manipular o clichê da crônica policial reciclando-o como quer a poesia. Cito fragmentos de  “carolina, 15, queimou”:

 

pegaram tudo

(…)

nenhum livro

(…)

queimou tudo

(…)

ninguém ouviu

queimou tudo

(…)

homem vestindo roupão de sogra

ferro retorcido

cinza onde  era vermelho

marrom onde era azul

árvore sem folha

camiseta sem cabeça

(…)

queimou tudo

menos

uma página  de drummond

e um vaso com planta

palito  de sorvete fincado  na terra

que seguiram verdes

 no amontoado de telhas e tijolos

quebrados

 

 

Omar Salomão possui uma linguagem que dialoga com o modo de fazer versos de Paulo César de Carvalho. Nisto ambos são muito bons: em sacar, no ar, a manha das imagens marotas, tecidas em jogos de sons e sentidos:

 

você vai ver

ainda vai notar

 vou escrever algo pra você

sem perceber

assobiar

 

besteiras

tolices

andanças

 

fazer você lembrar

tornar você lembrança

delírios desafinar

dançar nossa distância

 

vou escrever você

vou escrever  você vai ver

sem perceber

assobiar

 

 

Há uma vertente clara na antologia É agora como nunca: a dos poetas bem intencionados e suas ótimas referências poéticas. O diabo é que ficam fazendo a lição dos mestres, não vão além, repisam a repetição: são os diluidores de Drummond, Bandeira e Cabral.

Júlia de Sousa é drummondiana em excesso. Até o poeta itabirano se assustaria:

 

Deitado na cama

Olhos no teto mudo

 Não temo o silêncio

Não temo o escuro

Mas a bomba, mãe

A bomba

 

Sequência de imagens, sintaxe e ritmo: tudo clonado. É bonito? É. Mas Drummond já fez. Não vale.

Ana Guadalupe é outra que faz um bom poema. Mas ébrio da poesia do mesmo grande Drummond:

 

em santa catarina fui infeliz na maioria dos dias

cultivei bichos de pé e outros parasitas

os animais de casa tiveram pulgas

e é claro que morreram jovens

 

e por aí segue tropeçando nas pedras do caminho do mestre. Também não vale.

Thomaz Ramalho, além de bandeiriano, poderia ter suprimido o último terceto de seu poema, panfletário e desnecessário. O poema se inicia na cola do Bandeira. Até aí, tudo bem. Ele parodia “Poética” do mestre, adaptado aos dias de hoje. O diabo é que, depois de uma boa introdução, o poema patina na redundância da redundância da redundância e reduz a taxa de informação a quase zero. Cito o bom  início:

 

depois do acordo ortográfico

instituir

o desacordo fonético

um decreto

impedindo

que todos os sotaques

se tornem

novela das oito

 

É engraçadinho. Arranha Bandeira. O que vem depois, per se, desgraça tudo. Projeto falido.

Thiago E é autor de bons poemas em Cabeça de sol em cima do trem, seu livro de 2013. Mas aqui ele comete dois erros. No primeiro poema, sem título, faz prosa em cima do clichê bobo de início do mundo, criação, etc. … Tema e linguagem surrados. Não  funciona. A seguir, o poema “o mar e o pano” é um exercício cabralino bem realizado. Feito o exercício ele poderia partir para seu próprio poema. Não parte. Pena.

Estrela Ruiz Leminski continua insistindo em afirmar nada sobre nada. Seu livro Poesia é não (2010) só tem de bom o título. E, mesmo assim, chupado de um trocadilho com livro de Augusto de Campos. Ela pisa e repisa o que já observamos certa feita: “Há pressa na poeta em publicar seus poemas. Pressa aqui não se refere à linha do tempo, à diacronia. Refere-se à euforia, à efusiva rapidez na conclusão dos poemas”. Pois é: agora nos damos conta: não é pressa – é inaptidão para a poesia. Como ela mesma diz:

 

tem alguém aqui que se perdeu

sombra

assombração

lembrança

presença

sou eu

 

. É ela quem diz. Eu repito. Não discuto: assino.

Uma dominante no livro de Calcanhotto é a presença de poemas feitos a partir das facilidades do que ficou conhecido como Poesia Marginal. E que insisto em dizer que não é poesia, já que são textos que, até o momento, só receberam louvação antropológica, sociológica, política. Ou seja: documentos de época. Coisa sem validade estética. E é a falta de rigor com a linguagem, a displicência com a oralidade, a irresponsabilidade com o coloquial que marcam a dita Poesia Marginal. E que faz escola em É agora como nunca.

De Ana Martins Marques a Alice Sant’Anna, passando por Gregório Duvivier, Ismar Tirelli Neto, Fabrício Corsaletti, Victor Heringer, Bruna Beber, e chegando a Angélica Freitas, encontramos o mesmo molde de fazer poesia – com pequenas variações.  A base é a mesma: relaxo com a linguagem, que se confunde com busca da naturalidade. Natural é Bandeira, Mário, Drummond. Essa moçada é inconsequente. Nada do que faz move o leitor minimamente. Nem se ele disser: estou em férias e quero sossego. Pois aí é que os poemas nos pegam: não dão sossego. São muito ruins.

Pra não dizerem que falo sem citar, cito. Começo com “Âmbar”, de Alice Sant’ Anna:

 

comprou brincos de âmbar

porque alguém disse

que se juntasse a cor da  pele

com a dos olhos e dos cabelos

a soma seria âmbar

no telefone  sorri muito

mexe a cabeça  para que os brincos

pendurados batam no fio

assim ela lembra que está de brincos

 

 

Basta desse pinga-pinga de nada sobre nada em linguagem vazia. Não há poema, não há tema, não há nada. Só o vazio a encher de mais confusão esta antologia.

Gregório de Duvivier, ótimo cronista e excelente roteirista e ator do Porta dos Fundos, deveria deixar a poesia de lado. Pra que escrever, por exemplo, isso que ele nomeou “Gênese II”:

 

no princípio era o verbo

uma vaga voz sem dono

vagando pela via láctea

 

 depois veio o sujeito

e junto com ele todos

os erros de concordância

 

Erro de concordância é considerar esse troço um poema. Não é. Mas para quem duvida, há coisas bem piores (parece impossível? não é), em seu livro Ligue os pontos: poemas de amor e big bang, que já tivemos oportunidade de comentar aqui também.

Bruna Beber vai no mesmo ritmo chinfrim:

 

felicidade é o que tem dentro

das bolinhas de papel

 

e se arremesso

lá vai ela

 

pela porta na careca

do inspetor

 

O duro não é somente constatar a picaretice da linguagem, mas a imbecilidade temática que a acompanha. Parece que nada à enésima potência é a palavra de ordem destes poetas.

Angélica Freitas não consegue terminar um poema, como  anuncia  em  “treze de outubro”:

 

quando eu morava na augusta, escrevia  poemas sobre a augusta

 

a augusta não me deixava dormir

 

(escrever um poema em que se durma na augusta

e sobretudo, escrever um poema sobre dormir

 

 sem você). esta é a primavera  fajuta da delicadeza

(não consigo terminar este poema)

 

Puxa, que novidade, poetisa! Você não consegue terminar o poema? Se ao menos o leitor pudesse identificar onde está o poema, quem sabe a ajudasse nesta árdua e coletiva tarefa, não? Quem sabe, poetisa, não estejamos sabendo identificar o estranhamento poético que desautomatiza percepções e singulariza procedimentos. Ou o desvio que seu poema produz. Ele talvez seja verdadeiramente inesperado e inovador. Lição de casa: vamos relê-lo, relê-lo, relê-lo,  verso e reverso, frente e avesso, até que a epifania (ou o insight) aconteçam. Aguarde novas notícias nossas. Por hora, seguimos reafirmando tudo que dissemos quando comentamos os seus Um útero é do tamanho de um punho e o outro, igualmente batido com segredos de liquidificador – o Rilke shake.

Ismar Tirelli Neto é detentor de grave perturbação existencial.  Por isso escreve “Ansiedades quanto a uma academia”. E se você pensa que é a vida intelectual da universidade que o perturba, leia isso:

 

inscrevo-me no plano trimestral

atividades aquáticas:

duas sessões de hidroginástica

e uma de natação

durante (o que se obvia) três meses

 

Esta é a íntegra da primeira estrofe do poema. Dou-me ao luxo de eximir-me de digitar as demais. O leitor que me perdoe se o frustro. Estou apenas compartilhando minha frustração. Onde se pensa que há poema há esteiras.

Fabrício Corsaletti prova que a poesia não é sua praia, tanto nas quadras como nos versos livres. Leia-se, a título de comprovação, o poema “Vizinha”: “é uma senhora simpática / sem netos / sem cachorro / sem queixas contra / o horário da retirada do lixo / a data de dedetização / não conversa sobre o tempo / no elevador / não reclama do trânsito / anda a pé / é claustrofóbica / às vezes sobe de escada”. Pois é: melhor mudarmos de companhia. E de andar.

E assim chegamos a Marília Garcia, que produz um  longuíssimo poema intitulado “ztaratztaratsztaratztaratztaratztaratsztaratztaratz”. O título remete ao genial  Zuca Sardan, que ela cita no poema. Não, sem antes, explicar a gênese de tanta lorota cuspida verborragicamente: “escrevi  este texto de uma  só vez / no domingo dia 18 de agosto  de 2013”. Pois bem, isto não é uma explicação pós-poema. São “versos” do “poema”. Acreditem. Eu até agora estou pasmo. E, como se não bastasse, cito o final do dito poema:

 

depois de escrever este texto

a alice me contou

que era aniversário do zuca de 80 anos nesse mesmo dia 18

dedico o texto a ele incorporando suas margens

e as bordas tipográficas ao texto e ao título

 

Pobre Zuca, não merecia esta afronta, este desagravo. Pobre de nós leitores, que sentimos duplamente: por Zuca Sardan, e por nós próprios.

E deixemos a palavra com a organizadora: “convido o leitor, a leitora, para o meu livro de férias, desejando bom mergulho”. Pois é. As águas são rasas demais. O mergulho pode nos fraturar o pescoço. Melhor passar batido. Deixa pra lá. Valeu, Adriana Calcanhoto: continuamos aguardando seu próximo disco.

 

 

 

Brevemente

Caros leitores da Augusta Poesia:

 

Antes de mais nada, feliz 2017 para todos.

Quero agradecer por todas as manifestações em prol da volta desta coluna. Tais palavras muito me animaram a retomá-la. Espero em breve fazê-lo.

Como sempre, continuo contando com  a leitura e os comentários de vocês. São eles essenciais ao aprimoramento das opiniões deste colunista, e ao vivo debate das ideias sobre a poesia brasileira contemporânea.

Abraços.

Amador