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Algumas palavras

Amador Ribeiro Neto

Meus queridos leitores de Augusta Poesia:

 

Havia planejado retomar a coluna após o carnaval. Na saída para as férias, disse-lhes isso aqui.

Mas, como diz Caetano, “a vida é real e de viés”. Pois bem: no curso de Letras da UFPB, onde sou professor há quase três décadas, assumi, neste semestre, além das disciplinas costumeiras, outras duas novas. Que, reconheço, fogem ao meu repertório usual. Tal fato tem-me exigido um vasto tempo para a (re)leitura de obras ficcionais e o estudo da bibliografia teórica.

Por isso, e apenas por isto, volto a publicar a coluna no próximo semestre.

Seria irresponsabilidade comigo, com meus alunos, e com vocês, meus leitores, querer sustentar as duas atividades: a coluna e as aulas. Estou convicto de que não faria bem uma coisa nem outra.

Continuarei lendo livros de poesia recém lançados, sem dúvida. Isto sempre fiz. Mas, neste semestre, sem a exigência de publicar comentários críticos sobre eles.

Agradeço a todos que, nestes dois anos de Augusta Poesia, têm sido leitores assíduos e generosos, animando-me a tocar o barco.

Agradeço também àqueles que, durante minhas férias, manifestaram saudades da coluna, (risos). Asseguro-lhes que um semestre passa rapidinho. E logo estaremos de volta.

Então, até o próximo semestre.

Abraços.

Amador

 

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BALDE DE ÁGUA SUJA

Amador Ribeiro Neto

 

Mauricio Duarte (S. Paulo, 1981) é jornalista e poeta. Estreou em 2007 com “Rumor nenhum”, livro que já anunciava para o poeta observador e crítico que se configura no segundo título. Seu alvo: o cotidiano mais trivial. Seu produto: uma poesia de inusitada linguagem, que volve e revolve a língua coloquial, reinventando-a sem a necessidade de neologismos ou sintaxes invertidas. Tudo é simples. Seu diferencial está na apreensão do simples. No corte sagaz e sarcástico sobre cenas urbanas – ou sentimentos pessoais. Neste quesito ele está galáxias longe do rol enrolado e vazio de poetas que nada sacam de nada. E nada escrevem. A não ser, é claro, repetições entojadas da panaceia. E da pasmaceira.

“Balde de água suja” (S. Paulo: Patuá, 2015), recém lançado, desde o título aponta para o recorte irônico e sarcástico que Mauricio Duarte opera na vida e na arte. O poeta não apenas chuta o balde: ele espalha água suja na cara bem comportada da poesia de hoje.

Pra começo de conversa, o uso displicente e indisciplinado que o poeta faz da metalinguagem choca pela irreverência com que desconstrói um procedimento endeusado e adorado pelos poetas de plantão. Como se poesia fosse metalinguagem. Não é. Pode vir a ser. Mas para este devir, muita água suja e muitos baldes vão rolar.

Consideremos “Conselho”, um dos poemas iniciais do livro: “nem sempre um sorriso / significa alegria ou júbilo // todo cuidado é pouco / no que se refere ao risco / do convite que ele oferta // seja prudente / desconfie / a lição é antiga mas / não perde a validade // e trinta e dois dentes / escancarados podem / disfarçar uma mentira / ou um ato desesperado”. Ao final, o toque beckettiano do homem desumanizado e sem sentido. Que revitaliza e recicla a mesmice dos versos anteriores: diálogo com a poesia neomarginal de hoje. O poeta adentra esta poesia para, depois, implodi-la. Eficácia nota dez. Ou seja, aquilo que hoje se leva a sério na poesia mauricinha, o poeta já detona desde a contravenção do título. Não dá moleza pra poesia de autoajuda não.

Vamos ao poema que abre o livro, “Primeiro poema do segundo livro”, já que ele é a senha para se ler bem este poeta: “não se preocupe comigo; / pode até não parecer / mas está tudo bem / isto aqui? não é nada / – estou só juntando / palavras ao acaso // essa falta de jeito é / porque faz um bom tempo / que nem sequer tento // não é que esteja sem saída / mas também não tenho / mais a vida inteira / para me debruçar / sobre a ternura / de todos os fracassos / nesse jogo tão doce e tão perdido / de procurar por uma nesga / um cacareco, que seja, de beleza”. O lado machadiano de Mauricio Duarte trama e trança, como Capitu e Bentinho, um texto de subtextos e intertextos. E, claro, a fonte desta paródia é a ironia fina e fria. Que sabe valer-se da vivacidade coloquial como um “expert” malandro. A segunda estrofe tipifica exemplarmente este apoderar-se da língua diária sem feri-la. E reaviva-lhe a beleza rítmico-semântico-sintática. Coisa de poeta que ama, e preserva, a língua do povo. Como nos ensinou T. S. Eliot.

Mauricio Duarte capta a dor em “A morte da virgem”, mimetizando em palavras as pinceladas de volume e luz da pintura: “da dor pouco sabemos / além do que Caravaggio / nos permite conhecer // além do que ele nos deixa ver / no jogo de pouca luz que nos / conduz como zumbis ao cadáver // espectadores inertes / seremos sempre parte / das sombras”. A diluição do homem, feito espectro de si, e de seus sentimentos, joga luz sobre quão ínfima é a vida diante da representação da arte. O homem é a virgem morta. Homem atual. Homem pós-moderno. Feito de imagens e reproduções. O poeta vai ao cerne da dor. Fratura exposta na tríade das estrofes do poema. Dói.

Dor e cidade são irmãs siamesas. Em “Lendo Pavese” o poeta começa observando: “não há colinas em meus versos / nem em meu horizonte”, e conclui: “o pouco que entendo é deste desterro / que ruge na cidade, de sua gente sem fim / destes sinais de uma nova era / e da solidão alheia ao progresso”. O poeta se espelha no grande escritor italiano, ao tomar vida e arte como matéria de reflexão do universo. Universo convencionalmente chamado de humano.

“Balde de água suja” possui unidade admirável. Cada poema ela-se com os seguintes e anteriores, na contracorrente das expectativas. Por isso mesmo cativa e prende o leitor. Um livro raro, feito num projeto gráfico pertinente com a materialidade desta poesia. E com forte impacto visual. Que se estende da capa ao miolo da obra. Ponto para Leonardo Mathias. Que soube ler Mauricio Duarte. E vertê-lo para o leitor. Por fim, desde já, aguardamos o “Primeiro poema do terceiro livro”. Tintim de gin, poeta.

Em tempo: A partir de hoje entro em férias. Boas festas a todos. Feliz 2016. Nossa coluna “Augusta Poesia” volta depois do carnaval. Abraços. Amador.

 

Publicado pelo jornal CONTRAPONTO, João Pessoa-PB. Caderno B, coluna Augusta Poesia, dia 23.12.2015, p. B-7

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GARIMPO

Amador Ribeiro Neto

 

Líria Porto (Araguari-MG, 1945), poeta, publicou Borboleta desfolhada (2009), De lua (2009), ambos em Portugal, e Asa de passarinho (2014), que comentamos nesta coluna há pouco mais de um ano. Garimpo (Belo Horizonte: Ed. Lê, 2014) é seu mais recente livro e foi finalista do Jabuti 2014.

A lírica de Líria Porto tem lugar de destaque na nossa poesia contemporânea por aliar concisão, leveza, imagens inusitadas extraídas do mais reles cotidiano. E, acima de tudo, por conferir um tratamento especialíssimo ao trocadilho, que recebe os zelos de som, sentido e imagem em elaborado minério poético.

Ela consegue o que poucos atingiram quando propuseram-se a fazer lirismo com jogos de palavras. Seus trocadilhos têm a rara beleza de uma mistura de certo Bandeira com certo Leminski. Não sendo um nem outro. E estando milhas e milhas distante das gracinhas e facilidades que empesteiam nossa poesia hoje. Líria Porto, penso, ocupa um lugar único nesta serra tão almejada, quanto mal escalada. Sua dicção poética é rigorosamente construída com a emoção mais pensada. Um lirismo arquitetado por mãos e coração que conhecem bem o caminho ambíguo e oblíquo da poesia.

Líria Porto é sensibilidade sem resvalar para a pieguice. Sem querer fazer humorzinho. Sua poesia é pura emoção e festa da palavra. E de palavras.

Por isso mesmo, o título de sua mais recente publicação já traz em si o meticuloso empenho de garimpar, numa metalinguagem que se infiltra em cada poema. O resultado? Poemas puro ouro de mina. Poemas diamantes. Poesia precisa. Obra de rara ourivesaria.

A poesia de Líria Porto pede para ser lida com tempo e atenção. Ela veio para bussolar poetas e leitores. Ninguém sai o mesmo de suas páginas.

Vejamos o poema “Borrão”: “a caneta do poeta / fica assim aos borbotões / como se fora um acesso / de raiva tosse ou vômito / quando uma rima indiscreta / movida pelo complexo / ataca de jeito incômodo / e contrapõe-se”. O poema todo é vazado por rimas toantes. Aquelas que o Cabral usava com a desculpa de não serem minimamente sonoras. Pois aqui ela é o ruído que cava verso a verso. Ora em forma da vogal tônica “o”. Ora como a vogal tônica “e”. Vai perfurando o poema, encharcando-o, manchando seu corpo a golpes de sons secos. Soco na boca do estômago, o poema é um touro. Borrado no chão da arena. Mas permanecendo touro-poema.

Consideremos “Retorno”: “inspiração quando volta / é quase descobrimento / traz navio caravela canoa / e barcos de papel // (às enxurradas)”. A descoberta de que a inspiração é um ‘quase’, vem corroborada pela rarefação dos substantivos do paradigma ‘navegação’: navio > caravela > canoa > barcos de papel. E, ao final, a inspiração rola, isomórfica à iconicidade das águas, aqui representadas pelo uso dos parênteses. Poeta que é poeta sabe desconstruir para, em seguida, edificar. O leitor sai edificado da poesia de Líria Porto.

E o poema inicial, homônimo ao título do livro, diz: “esta procura tem um nome insanidade / passei da idade de tentar fazer sonetos / eu só consigo descrever cinzas e pretos / acho que o verso não alcança claridade // pelas gavetas prateleiras escondidos  / ainda agarro pelo rabo alguns cometas / quero as estrelas não encontro as suas tetas / sinto a fissura dos pequenos desvalidos // a minha escrita sempre foi penosa esgrima / desde menina que não tenho paradeiro / eu aço sapo com bodoque o dia inteiro / nesta esperança de catar melhores rimas // vasculho as glebas / os grotões e quem diria / bateio o sol chego a pensar / que a noite é dia”. Lavar o sol na bateia, tomando a noite pelo dia, tem a magistral força do verso maiakovskiano: “a tarde ardia com cem sóis”.

Líria Porto revolve os meandros da criação. E revigora a tão surrada metalinguagem. Em sua poesia, o fazer poesia é prática reveladora de um mundo que não há. E que passa a ter existência graças ao seu poder de criar mundos no mundo. O poeta é aquele que sabe “o saber e o sabor” da palavra lavrar. Líria Porto garimpa. Com um diferencial: tudo que toca vira ouro. Ela é, e sabe ser, Midas das minas e minerações da linguagem poética. Nós, leitores revolvidos por suas páginas, agradecemos.

 

Publicado pelo jornal CONTRAPONTO, João Pessoa-PB. Caderno B, coluna Augusta Poesia, dia 18.12.2015, p. B-7

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LUX

Amador Ribeiro Neto

 

Amanda Vital (Ipatinga-MG, 1995) cursa Letras na Universidade Federal da Paraíba e reside em João Pessoa desde 2014. É integrante do “Aedos de Declamação”, grupo que anima saraus e lançamentos de livros, além de fazer suas próprias apresentações. “Lux” (Penalux, 2015) é seu livro de estreia, que nos chega apresentado por 3 importantes poetas: Lau Siqueira, Marcelo Adifa e Sérgio de Castro Pinto. Este último, no posfácio, depois de tecer elogios, é o único a apontar algum um senão na poesia de Amanda Vital. Com o que concordamos integralmente.

Certo sim que quem escreve orelhas, quarta capa, prefácio e posfácio, dificilmente tem como manifestar sua avaliação objetiva. Afinal, escreve-se, ali, para apresentar o livro e ganhar o leitor. E não para enxotá-lo. Desta forma, é louvável e admirável que o poeta de “A flor do gol”, depois de afirmar que os poemas de Amanda “estão longe de serem etiquetados, de serem meros pastiches de Cabral ou de qualquer outro poeta”, pondere com propriedade: “Amanda deve evitar um certo Leminski que confunde concentração com mera brevidade”.

É certo que Amanda Vital leva jeito pra poesia. É tão certo como afirmar que sua poesia é imatura, precipitada, irregular. Mas, ao lermos “Lux”, percebemos que há algo no livro que merece um retrabalho. Que necessita de um tempo de maturação. Sua poesia é de alguém que vê o mundo com olhos de adolescente maravilhada. E que não se detém no rigor da linguagem poética.

Amanda Vital busca a condensação lírica, como bem apontou o posfaciador. Seus poemas são curtos, mas não são concisos. Estão espraiados em grandes embustes verbais. Ela adora o trocadilho pelo trocadilho. Esse é um grande engano que acomete os que se propõem a fazer poesia. O trocadilho só tem funcionalidade quando faz coabitarem, no mesmo signo, som, imagem e sentido. E isto, como já nos disse Jakobson, é a confluência do eixo paradigmático sobre o sintagmático. Ou, mais: dizer o usual, mas revelando o conhecido como se fora captado pela primeira vez. Como nos ensina Chklóvski. Poesia tem de revelar este mundo. E, ao revelar, criar outro. Não pode estar colada na mesmice institucionalizada. Já disseram Octavio Paz e Jean Cohen.

Amanda Vital revela potencial para lidar com a palavra. Falta-lhe incorporar o sentimento de mundo ao mundo da linguagem.

Abrir um livro de poemas com “sonhar, acreditar, alcançar. / nessa exata sequência, / os sonhadores sonham dores / mas conquistam esperanças. // – e aqueles que não sonham? /  – da vida se desprendem, / se perdem, / não se transformam” é jogar um balde de água gelada na receptividade do leitor. Isto soa a diluição de Gonzaguinha com Raul Seixas. Ou seja: a poesia mora bem longe daqui.

Quanto aos trocadilhos pouco felizes temos: “fósforo apagado / não acende mais // é assim / uma longa amizade / quando se desfaz”. O clichê convertido em sabedoria de comentarista televisivo. Fica difícil encontrar poesia aí. Vejamos este: “óculos escuros / fazem pouco caso / do sol”. A obviedade é um dos maiores engodos para quem quer fazer poesia. O óbvio nega, por princípio, a ambiguidade. E esta, sabemos, é o norte da poesia.

Um poema bem leminskiano, e igualmente fruto da rarefação do poeta curitibano é “sou de lua – / dependo do barulho / da minha rua”. Aí Amanda Vital quase acerta. Só erra porque clona a lição do mestre. Nestes casos, sempre o original é melhor.

A poetisa deveria seguir o que ela própria diz em “o relógio da vida / não tem alarme / nem faz alarde // mas na escrita / há o tempo / da eternidade”. Poesia pede dilatação do tempo. Tanto para ser lida como para ser produzida. O que se percebe é que Amanda Vital tem sensibilidade para o trabalho com a palavra. O que lhe faltou foi tempo para aperfeiçoar suas sacadas sobre a vida, o mundo, a literatura. Mas não há como negar que ela encerra bem o livro com “não dá pra notar / que ando sempre / virada ao avesso // sou sem costura, / sem etiqueta, / sem fim nem começo”. A inversão das expectativas, em versos que se espelham, em ritmo cadenciado, jogando com de 4 e 5 sílabas, projeta a imagem do reverso e do verso, numa construção feliz.

Talvez ela devesse ter começado o livro por este poema. E seguido nesta linha. Fica a sugestão. E a espera pela nova publicação.

 

 

Publicado pelo jornal CONTRAPONTO, João Pessoa-PB. Caderno B, coluna Augusta Poesia, dia 11.12.2015, p. B-7

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DOELO

Amador Ribeiro Neto

 

Marcos Fabrício Lopes da Silva (Brasília, 1979) é formado em Jornalismo pelo Centro Universitário de Brasília, mestre e doutor em Literatura Brasileira pela UFMG, professor universitário na Faculdade J.K., em Brasília. Define-se como “poeta afro-brasileiro”.  Publicou Dezlokado em 2010. Doelo (Belo Horizonte: Rede Catitu Cultural, 2014) é sua segunda publicação.

O título do livro, e isto está visível na grafia bicolor, é soma de do+elo. Ou seja: o que resulta da união. Para Nicolas Behr, que assina a orelha, “doelo une, duelo pune”. Um trocadilho bem ao gosto e ao nível de ambos os poetas. Mas o poeta-pai prossegue: “Marcos Fabrício é mais que um poeta, é um grande sacador. E gozador. Fala sério, rindo”. E conclui enfático: “Com suas sacadas rápidas e ligeiras, o poeta não atira para todos os lados: só o lado da poesia. E acerta”.

Não me entusiasmei com as palavras de Nicolas Behr porque conheço sua poesia. E já resenhei um livro dele nesta coluna, o Meio seio (2012),  em texto intitulado “Poesia do engano”. Mas, quis dar um crédito ao leitor Behr. Quem sabe seria superior ao poeta. Não foi. Engano meu.

Reparto com o leitor minha frustração. A dita poesia de Marcos Fabrício Lopes da Silva é um rol de frases feitas e trocadilhos previsíveis – na melhor das hipóteses. No geral, são brincadeirinhas que nem no Facebook caberiam. E olha que o Face tem sido a morada dos trocadilhos mais infames. Até poetas de peso têm escorregado. Parece que todos querem exibir um lado cômico. Como se a comicidade fosse um atributo que se ache na esquina.

Bem, começo citando poemas que têm títulos. São poucos. “Fé”: “olhar para cima / com a certeza de que o céu / não cairá sobre a tua cabeça”. Este é um arremedo mal feito de Leminski com Skank. Outro: “Pra não dar bandeira”: “ordem para os cem reais / progresso para os sem reais”. Este fica sem comentários.

Agora vamos aos poemas sem título. A maioria. “urubuservar / enxergar o buraco que há / na moldura do olhar”. Outro, bem original; “plim-plim / não diz tim-tim por tim-tim / porque só quer saber de dim dim”. Outra grande sacada sobre a televisão; “no aquário da tv / apresentador / com olhar de peixe morto”. Agora um que faz o elo entre Álvaro de Campos e Stephen Hawking: “o papo reto acontece / quando o silêncio faz a curva”. E, claro, tem zen na parada também.

Mas há outra série de poemas, a que parece feita para pousar em agendas infanto-juvenis. É uma série longa. A mais abrangente do livro. Cito alguns. São poemas feitos ao mais prático estilo autoajuda. Vejamos: “dance conforme a música / que você escolhe”. Outro, no mesmo compasso: “quem se atreve / sempre alcança”. Aqui, não sei por que motivo, mas me deslembrei de uma canção buarqueana.

Sigamos. Em tempos de crise econômica, ou auto estima baixa, eis o consolo:  “ter de pedir é o maior preço / que se pode pagar / por alguma coisa”. Agora um bem verdadeiro e altruístico: “se procuras a grandeza / não encontrarás a verdade // se procuras a verdade / encontrarás a verdade e a grandeza”.

Creio que não procuro a verdade nem a grandeza na poesia. Antes: meu defeito é procurar poesia na poesia. Aquela que desinstala o leitor. Provoca-o a ver novidade no que fora simplesmente usual. A que reinventa este mundo pela linguagem. E não aquela que se esbalda no blá-blá-blá insosso, inodoro e insípido. Publicando livros e enchendo de “vãs palavras muitas páginas / e de mais confusão as prateleiras”, como canta Caetano.

Bem, eu devia ter percebido logo de cara. Afinal, o poema que abre o livro anuncia: “minha vida é um livro / que precisa de leitor / aberto”. É eu sou um leitor fechado. Cheio de amarras. Ranzinza. Entrei no livro errado.

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AO ABRIGO

Amador Ribeiro Neto

                 Ronald Polito (Juiz de Fora, 1961) é professor, editor, tradutor e poeta. Ao abrigo (Belo Horizonte: Ed. Scriptum, 2015) é lançado nove anos depois de Terminal. Resultado de tamanha maturação: poemas densos e marcados por uma dicção singularíssima. As imagens sobrepõem-se e enrodilham-se num vaivém fios degradés que amalgamam ideias e formas. Tudo sobre um mesmo patamar: o cotidiano besta, ao avesso. E dito com sublime e contumaz homogeneidade. Ao fundo, fina música. Aquela que se imiscui, oblíqua, na interação entre imagem e sentido. Com rigor contundente e, ao mesmo tempo, leve. Marcas d’ água da poesia de Ronald Polito.

Uma poesia feita de cortes imagéticos e interrupções sintático-sonoras. Que trazem ações e sentimentos para o close da tela. Em uníssono. Cito “Alvíssaras”: “Depois do ponto que deixa a última palavra. / Asas, espelhos, remoinhos, encruzilhadas. / O pôr do sol se esgarça. / Uma pétala se espalma. / A lua a pino, opiácea. / Infinito final”.

Não há enjambement: cada verso termina por um ponto final. Os que abrem e fecham o poema são conceituais. Os intermédios, descritivos. Em todos, há montagem cinematográfica. Ora reflexiva, ora prática. Diria mais: eisensteiniana e dialética. Sempre girando em torno da figura do ponto. Que, paradoxalmente, é “infinito final”, tal como o mundo. Tal como os mundos, a poesia e os poemas.

Em tempo: metalinguagem de um sinal de pontuação é requinte da mais fina filigrana. O poeta já havia nos mostrado, em A galinha (2014), que é capaz de surpreender a partir do mínimo e do trivial. Seus poemas, neste livro, são achados que investem na inversão do olhar ordinário. Com humor e beleza. Os animais são um pretexto para fazer linguagem poética e falar do homem semiótico.

Em Ao abrigo podemos dizer que o tempo e a linha do horizonte atuam como recortes de uma peculiar demarcação: uma, que é geográfica, e outra, que é diacrônica. O vocábulo “horizonte”, citado 16 vezes nas 47 páginas de poesia, chama a atenção para as várias acepções que abarca. A saber: desconstrução, destino, acomodação, amplitude, recolhimento. Etc. Só um toque: o poema “Mão dupla” abre com o verso “horizonte-abismo” e fecha-se, espelhado, com “abismo-horizonte”. Que, por extensão, é refletido e refratado em “o fim do fim” e “o fim do começo”, versos inicial e final de “Entre”. Título que é, ao mesmo tempo, verbo (no imperativo) e preposição.

Tal como as figuras recorrentes da pedra, dos pássaros, do caminho e das montanhas, o horizonte desloca o ponto de vista do leitor projetando-o, ora para o mundo pós-moderno de negatividades, ora para – e este é o grande fator diferencial da poesia – o núcleo duro da linguagem. Ronald Polito é um exímio hacedor de mundos.

Alguns de seus poemas dialogam com Augusto de Campos (“Desengano”, “Encantamento”, “Saldo”), Haroldo de Campos/Octavio Paz (“Alvo”), Drummond (“Um deus”), T. S. Eliot (“Entre”), entre outros.
Projetado no design do rigor de linguagem, o livro abre-se com “Orações”. Lá pelo meio surge o “Discurso com orações”. E encerra-se com “Oração”. Tudo na mais fina acepção não religiosa do termo.

O livro, ao tomar a poesia como matéria, elege a materialidade da linguagem como tempo e lugar de sua fisicalidade. Não há devaneios teológicos ou afins. Oração, aqui, é sentença. É verso. É poesia.

O erotismo, presença constante na poesia de Ronald Polito, ressurge, como sempre delicado e sutil, em “Atlas” e no poema sem título, que transcrevo: “em torno da água o copo / dois corpos / o quarto em torno do ar”. O fogo está presente em oposição à água. E como complemento ao ar. Mas sua grande força reside em ser subentendido como motor de Eros da linguagem. Daí o poema se inflama.
O percurso ao revés, na contracorrente da festa vazia, vaza “O que passa”, desde o título uma referência ao transitório e, ao mesmo tempo, ao que acontece (na vertente hispânica, tão ao gosto do poeta): “Sozinho / A caminho. / Nada nas margens. / Nem mesmo miragens. / E tudo é branco, adiante. / Não há nem pássaro que cante. / Para trás ficou todo o burburinho. / Vai em paz no meio do redemoinho”.

O leitor, que estava ao relento, com grande parte da produção de poesia hoje em nosso país, encontra seu porto seguro em Ao abrigo, de Ronald Polito. Vale!

 

Publicado pelo jornal CONTRAPONTO, João Pessoa-PB. Caderno B, coluna Augusta Poesia, dia 27.11.2015, p. B-7.

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PÓ DE LUA

Amador Ribeiro Neto

 

Clarice de Souza Freire (Recife: 1988) tem um blogue chamado “Pó de lua – para diminuir a gravidade das coisas”. Segundo ela mesma diz, “um lugar para escrever desenhando” pois, “com a ausência de peso, as palavras flutuam entre objetos que viram pessoas, pessoas que viram palavras e palavras que viram poesia cheia de delicadeza, mesmo nos lugares – e corações – mais pesados”. O blogue tem mais de 600 mil seguidores.
Pois bem, do blogue nasceu seu livro Pó de lua (Rio: Intrínseca, 2014). O volume possui quase 200 páginas. E a poetisa, que assina o livro como Clarice Freire, escreve tão bem quanto desenha. Infelizmente não é possível, no espaço desta coluna, reproduzir seus textos desenhados. Então, ficamos apenas com o texto escrito. O desenho, a partir da riqueza do texto, o leitor imaginará. E, afirmo com quase toda certeza, não errará nos resultados finais.
O livro possui quatro seções: “A lua minguante”, “A lua nova”, “A lua crescente” e “A lua cheia”. Li todas e não vi distinção entre elas. Cito poemas de cada parte. Quem sabe o leitor me auxilia.

Da primeira: “Despedida / É a cara composta / e a alma / vestida de ida”. “Expectativa / É a cara discreta / e a alma / criativa”. “O tempo / é inflexível / Por isso é tão / Duro / Vê-lo passar”. Para o leitor não imaginar que, sadicamente, escolhi três poemas pebas, aviso que citei os três poemas iniciais do livro.
Vamos à segunda parte: “Tentando segurar água / Entre os dedos / Vi o quanto é inútil / Me agarrar aos meus / (medos)”. Na sequência, o poema seguinte continua aterrorizando com o tema medo: “Se o medo / falasse / diria, medroso, que não amasse? / O medo, medroso, decerto, / Calaria. / Decerto, nada diria. / Afinal, para verbalizar que é real a / – miragem – e falar de amor / é preciso coragem. / O medo, medroso, não fica. / Vive em morre de passagem”. “Para não ser dono de / palavras / escorregadias / Preciso de um / – coração – / antiderrapante”.
Agora, a terceira e penúltima parte: “Estranho / como sua mente / quadrada / acabava sempre andando / em / círculos”. Interessante: neste poema a palavra “quadrada” está escrita dentro de um retângulo e a palavra “círculos” dentro de vários círculos. Por que o quadrado virou retângulo se os círculos continuam círculos? Obviamente a ambiguidade da poesia, uma de suas mais importantes características, explica a ilustração do poema. E enquanto o retângulo é vermelho, os círculos são verdes. No caso, vale usar a psicossemiótica das cores para sacar melhor o poema.
E na parte quatro, a última, temos algo bem atual. O poema que a abre está escrito em consonância com a recente e imprescindível moda dos livros para colorir. Ele diz assim: “Manual prático / de como colorir o céu / em 4 partes: / • Entre numa pequena porção / só sua no Infinito; / • Acenda uma chama bem quente por dentro; / • Se dirija para onde for bonito; / • E se jogue no vento”. Em tempo, se Clarice Freire tivesse usado o sinal • no início e no fim dos versos, eu diria que ela estava imitando o Alberto Lins Caldas. Felizmente, não. O Lins Caldas é um e a Freire é outra.
Mas citemos mais poemas desta parte final do livro. Em outra direção, muito em voga, a que discute as relações de gênero no uso da gramática, a poetisa dá sua contribuição: “ – E feminino de / “balão”, / tem? // – É “bailarina”. / Ela flutua e voa / também”. Por fim, para encerrar esta parte final, um poema autopremonitório: “finalmente / caiu / em si. / E foi em / queda / livre”.
O projeto poético de Clarice Freire, ao intitular o livro como “Pó de lua”, tem uma justificativa: “Uma noite ouvi falar que a lua era bela porque mesmo sendo só de areia deixava refletir a luz de outro e, por isso, nossas noites não são escuras”. Não sei se a astronomia descritiva está sendo usada corretamente. Mas sem dúvida é uma linda explicação no campo da linguagem poética.
Pois é, agora entendo o nexo entre as partes. E não entre cada parte e seus poemas. Os títulos das seções que abrem e fecham o volume remetem ao todo da obra. Quer seja: a poesia é minguante e o leitor, ao final, está cheio. Tudo num crescente, é claro. E a fase nova? Bem, fica por conta da nova poetisa na praça. Graças ao Facebook e aos seguidores da poetisa. Como ela mesma diz, “aprender a usar as palavras foi uma solução para acalmar as inquietações que borbulhavam por dentro desde muito cedo”. Sorte do leitor, a não ser que ele tenha um “coração pesado”.

Bem, aí o caso não é mais de literatura. E não nos interessa aqui.

Publicado pelo jornal CONTRAPONTO, João Pessoa-PB. Caderno B, coluna Augusta Poesia, dia 20.11.2015, p. B-7.