Adriana Calcanhotto, antologista de poesia brasileira

Amador Ribeiro Neto

 

Adriana Calcanhotto é um dos nomes mais expressivos da música popular brasileira contemporânea. Isso não se discute. Basta considerar a riqueza de suas melodias e harmonias, a diversidade de suas interpretações e, acima de tudo, a excelência de sua poesia. Ou, para os mais convencionais, a excelência da poesia de suas letras de música – distinção que considero desnecessária, preconceituosa e anacrônica, à luz da recente teoria da poesia. Mas isso é assunto para outro momento. Hoje quero tratar aqui da Adriana Calcanhotto antologista de livros de poesia.

Ela já organizou três. O primeiro, Antologia ilustrada da poesia brasileira; para crianças de qualquer idade, foi lançado pela editora Leya Casa da Palavra, do Rio, em 2013. No ano seguinte saiu a segunda edição, ampliada, pela Edições de Janeiro, também carioca. O livro faz um mergulho na história da poesia brasileira, de Gonçalves Dias a Gregório Duvivier. O resultado é, no mínimo constrangedor. Da obviedade à pasmaceira, num ramerrão de admirações tolas. Há exceções. É claro. Mas a regra é que conta aqui. O que salva, na verdade, é a qualidade das ilustrações, feitas pela antologista. Que grande ilustradora ela é. Sem dúvida.

Em 2014 publica Haicai do Brasil (Rio: Edições de Janeiro, 2014). Como anotamos em algum lugar, “as ilustrações de Adriana, centradas em poucas pinceladas, lembram ideogramas dialogando com o traço de Amílcar de Castro. Um belo trabalho. Os haicais selecionados pecam, ao menos por dois motivos: 1. muitos deles já compõem o livro Haicais (S. Paulo: Companhia das Letras, 2009), organizado por Rodolfo Witzig Gutilla; 2. a seleção de Adriana Calcanhoto elege haicaístas e haicais duvidosos”.

Agora Adriana Calcanhotto acaba de lançar É agora ou nunca; antologia incompleta da poesia contemporânea brasileira (S. Paulo: Companhia das Letras, 2017). Já no subtítulo vem-nos um desconforto: “antologia incompleta”. Pressupõe-se que haja uma antologia completa. Há? Creio que nem nos sonhos de Borges. Mas isso é o de menos. Ao menos, por hora.

É agora ou nunca reúne 41 poetas que nasceram entre 1970 e 1990. Ou seja, a novíssima geração da poesia brasileira. O propósito é louvável. Sempre o é quando o projeto tem em conta a divulgação desta poesia ainda insurgente. Adriana afirma na apresentação que esta antologia “é um agrupamento de  poemas armados por uma leitora de poesia diletante, não acadêmica ou crítica”. Esta explicação restritiva não a isenta da responsabilidade que publicação de um livro de poesia, com este perfil, traz. O fato de  ser uma antologia pessoal apenas redunda o que todos sabemos: ainda que embasada num repertório teórico definido e consistente, toda escolha acaba sendo, em última análise, pessoal. E o fato de ser pessoal não a desobriga de ser crítica. Afinal, toda antologia é pessoal e incompleta. Mas não precisa ser pessoal e incompetente.

O volume abre com um poema de Ana Martins Marques, aquela que já publicou três livros sofríveis de poesia (como também já demonstramos nestas páginas), que se intitula “Poemas reunidos” e que começa assim: “Sempre gostei dos livros /chamados  poemas reunidos” e termina com um de Laura Liuzzi, outra poeta apreciadora da linguagem prosaico-banal, que diz: “Chega-se, enfim, à última página / embora deixe claro: não se chega / ao fim (…)”. Bem, se Calcanhotto quis fazer uma introdução e fecho metalinguísticos, escolheu muito mal os poemas e as poetas. E se o leitor é daqueles que gosta de ter uma noção do livro, lendo o poema que o abre e o que o encerra, já tem um  claro sinal de que está diante de uma antologia capenga.

Vamos por parte.

É curioso notar que 83% dos poetas são das regiões Sul e Sudeste, 17% da região Nordeste e nenhum das regiões Norte e Centro-Oeste. O Rio de Janeiro concentra 50% dos poetas selecionados. Puxa, o coletivo CEP 20.000 tem feito escola. São alunos eficientes em usar a linguagem desleixada e reles. Aplicam bem a lição aprendida em tsunamis de mesmices sentimentaloides.

Ok, a escolha é pessoal, está avisado. E é incompleta. Também está avisado. Mas concentrada no Sul e Sudeste? Antes: no Rio? Por quê? Quem explica? Ao que nos consta, um antologista tem a obrigação de conhecer a poesia produzida em todas as regiões de nosso país. Não há nada de valor fora do eixo Sul-Sudeste mais um risco de Nordeste? Ok, se produz mais no Sul e Sudeste? Quem garante isso? O Rio é o atual celeiro da poesia brasileira? Desde quando? Quem garante? Nossa Paraíba, por exemplo, tem revelado um rico quadro de jovens poetas. Quem nega? Cadê sua presença na antologia? Ok, é parcial. É incompleta. É incompetente.

Dos quarenta e um poetas apresentados, destacam-se oito entre bons e muito bons. Oito dentre quarenta e um é uma média bem baixa. Em todo caso, vamos a eles: Simone de Andrade Neves, com seu estilo seco, batendo forte em imagens duras e cortantes de “Latente” diz:

 

Boda do prato

praia da ilha

 

Há devir

na ínsula

à deriva

 

Poesia que maravilha e faz pensar.

Leo Gonçalves é feliz ao trabalhar as reiterações da oralidade em “Língua de Aruanda”, mas é no terceto sem título que acerta em cheio,

 

nada mais

será como

dante

 

operando uma síntese entre poesia e música popular. Sem noves horas.

Camila Nicário é parcimoniosa deste a inexistência de título para seus dois poemas. Num deles diz:

 

Como continuar a ser a mesma pessoa

depois de ter conhecido a Fontana di Trevi?

Você me dirá o quanto eu sou tola

e que o conta-gotas dos dias

nos transforma permanentemente…

Eu estaria, com gosto, de acordo

se não fosse a  pequena moeda

que, do fundo da água,

cintila redonda meus cinco centavos

de desejos impronunciáveis.

 

O desfecho redimensiona o preço, a crença, o propósito do eu lírico. Desconstrói o esperado, como a fonte reverbera a imagem da moeda sob as águas.

Paulo César de Carvalho é dono de um estilo singular, já marcado em cada um de seus livros: aquele que funde puzzles de sentido com reverberações sonoras em versos minimais. Sua poesia é musicalidade em alta voltagem de significado. Cito um fragmento do longo “minha mala”:

 

levo

na minha

mala

minha

mandala

minha viola

nana

na

victor jara

janis

callas

tame impala

 

nela levo

ella

avalovara

sinatra

sidarta

baraka

drácula

odara

 

comigo vai

martinho da vila

paulinho da viola

violeta parra

cartola

cachaça

maria alcina

alzira

maria fumaça

 

levo marina lima

marília medaglia

amélia

amália

martinália

e se ela

quiser ir

eu levo

anália

 

(…)

tô indo

embora

meu bem

pra maracangalha

ou pra pasárgada

e passe bem

larga

a mala

ela

é minha

mas eu

não sou

de ninguém

disfarça

e chora

eu já vou

minha cara

olha  o trem

 

A facilidade que o poeta encontra no jogo de som puxa som, associado a uma gama rica de significados, lhe dá, literal e figuradamente, uma dicção única em nossa poesia contemporânea.

Donny Correia talvez seja o autor do poema mais bem realizado da antologia. “Kancer (solilóquio)” é um longo e conciso poema. Longo no número de versos. Conciso na exatidão das imagens. Nenhuma delas não poderia estar fora do poema. Todas têm função e força em sua poesia. Cito os versos iniciais: “Quando me convenci / de que eu era imortal / veio o Doutor e disse:  – É câncer…”. E quando se espera que o eu lírico discorra sobre o câncer, ele de fato o faz, mas apenas como pretexto para o pacto que estabelecerá com a doença:

 

Eu serei seu alimento

e você, o meu  motor

 serei seu combustível

e você meu velocímetro

serei seu servo

e você meu amante

autoritário.

Algoz atento,

rói

mais lento

minhas carnes de dentro.

 

Rimos juntos

do tempo.

A você juro fidelidade

 

 

E o final do poema:

 

Passe um ano ou passem

cem, amigo, imundo amigo meu,

rói

mais lento

as carnes sujas de dentro

Que as de fora, vou à farra,

E roo eu

 

Virulência de uma linguagem impactante na escolha dos vocábulos, tanto sonora quanto semanticamente. Força na estruturação do poema, em estrofes que adensam o tema numa forma que mimetiza a dor, sem nomeá-la.

Bruno Molinero é autor, até o momento, de um só livro (Alarido, editora  Patuá, 2015), mas já traz sua marca para a poesia contemporânea:  a narrativa do jornalismo policial convertida em possante vivacidade poética. Talvez seja nosso Rubem Fonseca da poesia. Não podemos dizer como serão seus livros futuros. Com este, e com os poemas desta antologia, vê-se que é um poeta que sabe manipular o clichê da crônica policial reciclando-o como quer a poesia. Cito fragmentos de  “carolina, 15, queimou”:

 

pegaram tudo

(…)

nenhum livro

(…)

queimou tudo

(…)

ninguém ouviu

queimou tudo

(…)

homem vestindo roupão de sogra

ferro retorcido

cinza onde  era vermelho

marrom onde era azul

árvore sem folha

camiseta sem cabeça

(…)

queimou tudo

menos

uma página  de drummond

e um vaso com planta

palito  de sorvete fincado  na terra

que seguiram verdes

 no amontoado de telhas e tijolos

quebrados

 

 

Omar Salomão possui uma linguagem que dialoga com o modo de fazer versos de Paulo César de Carvalho. Nisto ambos são muito bons: em sacar, no ar, a manha das imagens marotas, tecidas em jogos de sons e sentidos:

 

você vai ver

ainda vai notar

 vou escrever algo pra você

sem perceber

assobiar

 

besteiras

tolices

andanças

 

fazer você lembrar

tornar você lembrança

delírios desafinar

dançar nossa distância

 

vou escrever você

vou escrever  você vai ver

sem perceber

assobiar

 

 

Há uma vertente clara na antologia É agora como nunca: a dos poetas bem intencionados e suas ótimas referências poéticas. O diabo é que ficam fazendo a lição dos mestres, não vão além, repisam a repetição: são os diluidores de Drummond, Bandeira e Cabral.

Júlia de Sousa é drummondiana em excesso. Até o poeta itabirano se assustaria:

 

Deitado na cama

Olhos no teto mudo

 Não temo o silêncio

Não temo o escuro

Mas a bomba, mãe

A bomba

 

Sequência de imagens, sintaxe e ritmo: tudo clonado. É bonito? É. Mas Drummond já fez. Não vale.

Ana Guadalupe é outra que faz um bom poema. Mas ébrio da poesia do mesmo grande Drummond:

 

em santa catarina fui infeliz na maioria dos dias

cultivei bichos de pé e outros parasitas

os animais de casa tiveram pulgas

e é claro que morreram jovens

 

e por aí segue tropeçando nas pedras do caminho do mestre. Também não vale.

Thomaz Ramalho, além de bandeiriano, poderia ter suprimido o último terceto de seu poema, panfletário e desnecessário. O poema se inicia na cola do Bandeira. Até aí, tudo bem. Ele parodia “Poética” do mestre, adaptado aos dias de hoje. O diabo é que, depois de uma boa introdução, o poema patina na redundância da redundância da redundância e reduz a taxa de informação a quase zero. Cito o bom  início:

 

depois do acordo ortográfico

instituir

o desacordo fonético

um decreto

impedindo

que todos os sotaques

se tornem

novela das oito

 

É engraçadinho. Arranha Bandeira. O que vem depois, per se, desgraça tudo. Projeto falido.

Thiago E é autor de bons poemas em Cabeça de sol em cima do trem, seu livro de 2013. Mas aqui ele comete dois erros. No primeiro poema, sem título, faz prosa em cima do clichê bobo de início do mundo, criação, etc. … Tema e linguagem surrados. Não  funciona. A seguir, o poema “o mar e o pano” é um exercício cabralino bem realizado. Feito o exercício ele poderia partir para seu próprio poema. Não parte. Pena.

Estrela Ruiz Leminski continua insistindo em afirmar nada sobre nada. Seu livro Poesia é não (2010) só tem de bom o título. E, mesmo assim, chupado de um trocadilho com livro de Augusto de Campos. Ela pisa e repisa o que já observamos certa feita: “Há pressa na poeta em publicar seus poemas. Pressa aqui não se refere à linha do tempo, à diacronia. Refere-se à euforia, à efusiva rapidez na conclusão dos poemas”. Pois é: agora nos damos conta: não é pressa – é inaptidão para a poesia. Como ela mesma diz:

 

tem alguém aqui que se perdeu

sombra

assombração

lembrança

presença

sou eu

 

. É ela quem diz. Eu repito. Não discuto: assino.

Uma dominante no livro de Calcanhotto é a presença de poemas feitos a partir das facilidades do que ficou conhecido como Poesia Marginal. E que insisto em dizer que não é poesia, já que são textos que, até o momento, só receberam louvação antropológica, sociológica, política. Ou seja: documentos de época. Coisa sem validade estética. E é a falta de rigor com a linguagem, a displicência com a oralidade, a irresponsabilidade com o coloquial que marcam a dita Poesia Marginal. E que faz escola em É agora como nunca.

De Ana Martins Marques a Alice Sant’Anna, passando por Gregório Duvivier, Ismar Tirelli Neto, Fabrício Corsaletti, Victor Heringer, Bruna Beber, e chegando a Angélica Freitas, encontramos o mesmo molde de fazer poesia – com pequenas variações.  A base é a mesma: relaxo com a linguagem, que se confunde com busca da naturalidade. Natural é Bandeira, Mário, Drummond. Essa moçada é inconsequente. Nada do que faz move o leitor minimamente. Nem se ele disser: estou em férias e quero sossego. Pois aí é que os poemas nos pegam: não dão sossego. São muito ruins.

Pra não dizerem que falo sem citar, cito. Começo com “Âmbar”, de Alice Sant’ Anna:

 

comprou brincos de âmbar

porque alguém disse

que se juntasse a cor da  pele

com a dos olhos e dos cabelos

a soma seria âmbar

no telefone  sorri muito

mexe a cabeça  para que os brincos

pendurados batam no fio

assim ela lembra que está de brincos

 

 

Basta desse pinga-pinga de nada sobre nada em linguagem vazia. Não há poema, não há tema, não há nada. Só o vazio a encher de mais confusão esta antologia.

Gregório de Duvivier, ótimo cronista e excelente roteirista e ator do Porta dos Fundos, deveria deixar a poesia de lado. Pra que escrever, por exemplo, isso que ele nomeou “Gênese II”:

 

no princípio era o verbo

uma vaga voz sem dono

vagando pela via láctea

 

 depois veio o sujeito

e junto com ele todos

os erros de concordância

 

Erro de concordância é considerar esse troço um poema. Não é. Mas para quem duvida, há coisas bem piores (parece impossível? não é), em seu livro Ligue os pontos: poemas de amor e big bang, que já tivemos oportunidade de comentar aqui também.

Bruna Beber vai no mesmo ritmo chinfrim:

 

felicidade é o que tem dentro

das bolinhas de papel

 

e se arremesso

lá vai ela

 

pela porta na careca

do inspetor

 

O duro não é somente constatar a picaretice da linguagem, mas a imbecilidade temática que a acompanha. Parece que nada à enésima potência é a palavra de ordem destes poetas.

Angélica Freitas não consegue terminar um poema, como  anuncia  em  “treze de outubro”:

 

quando eu morava na augusta, escrevia  poemas sobre a augusta

 

a augusta não me deixava dormir

 

(escrever um poema em que se durma na augusta

e sobretudo, escrever um poema sobre dormir

 

 sem você). esta é a primavera  fajuta da delicadeza

(não consigo terminar este poema)

 

Puxa, que novidade, poetisa! Você não consegue terminar o poema? Se ao menos o leitor pudesse identificar onde está o poema, quem sabe a ajudasse nesta árdua e coletiva tarefa, não? Quem sabe, poetisa, não estejamos sabendo identificar o estranhamento poético que desautomatiza percepções e singulariza procedimentos. Ou o desvio que seu poema produz. Ele talvez seja verdadeiramente inesperado e inovador. Lição de casa: vamos relê-lo, relê-lo, relê-lo,  verso e reverso, frente e avesso, até que a epifania (ou o insight) aconteçam. Aguarde novas notícias nossas. Por hora, seguimos reafirmando tudo que dissemos quando comentamos os seus Um útero é do tamanho de um punho e o outro, igualmente batido com segredos de liquidificador – o Rilke shake.

Ismar Tirelli Neto é detentor de grave perturbação existencial.  Por isso escreve “Ansiedades quanto a uma academia”. E se você pensa que é a vida intelectual da universidade que o perturba, leia isso:

 

inscrevo-me no plano trimestral

atividades aquáticas:

duas sessões de hidroginástica

e uma de natação

durante (o que se obvia) três meses

 

Esta é a íntegra da primeira estrofe do poema. Dou-me ao luxo de eximir-me de digitar as demais. O leitor que me perdoe se o frustro. Estou apenas compartilhando minha frustração. Onde se pensa que há poema há esteiras.

Fabrício Corsaletti prova que a poesia não é sua praia, tanto nas quadras como nos versos livres. Leia-se, a título de comprovação, o poema “Vizinha”: “é uma senhora simpática / sem netos / sem cachorro / sem queixas contra / o horário da retirada do lixo / a data de dedetização / não conversa sobre o tempo / no elevador / não reclama do trânsito / anda a pé / é claustrofóbica / às vezes sobe de escada”. Pois é: melhor mudarmos de companhia. E de andar.

E assim chegamos a Marília Garcia, que produz um  longuíssimo poema intitulado “ztaratztaratsztaratztaratztaratztaratsztaratztaratz”. O título remete ao genial  Zuca Sardan, que ela cita no poema. Não, sem antes, explicar a gênese de tanta lorota cuspida verborragicamente: “escrevi  este texto de uma  só vez / no domingo dia 18 de agosto  de 2013”. Pois bem, isto não é uma explicação pós-poema. São “versos” do “poema”. Acreditem. Eu até agora estou pasmo. E, como se não bastasse, cito o final do dito poema:

 

depois de escrever este texto

a alice me contou

que era aniversário do zuca de 80 anos nesse mesmo dia 18

dedico o texto a ele incorporando suas margens

e as bordas tipográficas ao texto e ao título

 

Pobre Zuca, não merecia esta afronta, este desagravo. Pobre de nós leitores, que sentimos duplamente: por Zuca Sardan, e por nós próprios.

E deixemos a palavra com a organizadora: “convido o leitor, a leitora, para o meu livro de férias, desejando bom mergulho”. Pois é. As águas são rasas demais. O mergulho pode nos fraturar o pescoço. Melhor passar batido. Deixa pra lá. Valeu, Adriana Calcanhoto: continuamos aguardando seu próximo disco.

 

 

 

Brevemente

Caros leitores da Augusta Poesia:

 

Antes de mais nada, feliz 2017 para todos.

Quero agradecer por todas as manifestações em prol da volta desta coluna. Tais palavras muito me animaram a retomá-la. Espero em breve fazê-lo.

Como sempre, continuo contando com  a leitura e os comentários de vocês. São eles essenciais ao aprimoramento das opiniões deste colunista, e ao vivo debate das ideias sobre a poesia brasileira contemporânea.

Abraços.

Amador

 

Algumas palavras

Amador Ribeiro Neto

Meus queridos leitores de Augusta Poesia:

 

Havia planejado retomar a coluna após o carnaval. Na saída para as férias, disse-lhes isso aqui.

Mas, como diz Caetano, “a vida é real e de viés”. Pois bem: no curso de Letras da UFPB, onde sou professor há quase três décadas, assumi, neste semestre, além das disciplinas costumeiras, outras duas novas. Que, reconheço, fogem ao meu repertório usual. Tal fato tem-me exigido um vasto tempo para a (re)leitura de obras ficcionais e o estudo da bibliografia teórica.

Por isso, e apenas por isto, volto a publicar a coluna no próximo semestre.

Seria irresponsabilidade comigo, com meus alunos, e com vocês, meus leitores, querer sustentar as duas atividades: a coluna e as aulas. Estou convicto de que não faria bem uma coisa nem outra.

Continuarei lendo livros de poesia recém lançados, sem dúvida. Isto sempre fiz. Mas, neste semestre, sem a exigência de publicar comentários críticos sobre eles.

Agradeço a todos que, nestes dois anos de Augusta Poesia, têm sido leitores assíduos e generosos, animando-me a tocar o barco.

Agradeço também àqueles que, durante minhas férias, manifestaram saudades da coluna, (risos). Asseguro-lhes que um semestre passa rapidinho. E logo estaremos de volta.

Então, até o próximo semestre.

Abraços.

Amador

 

BALDE DE ÁGUA SUJA

Amador Ribeiro Neto

 

Mauricio Duarte (S. Paulo, 1981) é jornalista e poeta. Estreou em 2007 com “Rumor nenhum”, livro que já anunciava para o poeta observador e crítico que se configura no segundo título. Seu alvo: o cotidiano mais trivial. Seu produto: uma poesia de inusitada linguagem, que volve e revolve a língua coloquial, reinventando-a sem a necessidade de neologismos ou sintaxes invertidas. Tudo é simples. Seu diferencial está na apreensão do simples. No corte sagaz e sarcástico sobre cenas urbanas – ou sentimentos pessoais. Neste quesito ele está galáxias longe do rol enrolado e vazio de poetas que nada sacam de nada. E nada escrevem. A não ser, é claro, repetições entojadas da panaceia. E da pasmaceira.

“Balde de água suja” (S. Paulo: Patuá, 2015), recém lançado, desde o título aponta para o recorte irônico e sarcástico que Mauricio Duarte opera na vida e na arte. O poeta não apenas chuta o balde: ele espalha água suja na cara bem comportada da poesia de hoje.

Pra começo de conversa, o uso displicente e indisciplinado que o poeta faz da metalinguagem choca pela irreverência com que desconstrói um procedimento endeusado e adorado pelos poetas de plantão. Como se poesia fosse metalinguagem. Não é. Pode vir a ser. Mas para este devir, muita água suja e muitos baldes vão rolar.

Consideremos “Conselho”, um dos poemas iniciais do livro: “nem sempre um sorriso / significa alegria ou júbilo // todo cuidado é pouco / no que se refere ao risco / do convite que ele oferta // seja prudente / desconfie / a lição é antiga mas / não perde a validade // e trinta e dois dentes / escancarados podem / disfarçar uma mentira / ou um ato desesperado”. Ao final, o toque beckettiano do homem desumanizado e sem sentido. Que revitaliza e recicla a mesmice dos versos anteriores: diálogo com a poesia neomarginal de hoje. O poeta adentra esta poesia para, depois, implodi-la. Eficácia nota dez. Ou seja, aquilo que hoje se leva a sério na poesia mauricinha, o poeta já detona desde a contravenção do título. Não dá moleza pra poesia de autoajuda não.

Vamos ao poema que abre o livro, “Primeiro poema do segundo livro”, já que ele é a senha para se ler bem este poeta: “não se preocupe comigo; / pode até não parecer / mas está tudo bem / isto aqui? não é nada / – estou só juntando / palavras ao acaso // essa falta de jeito é / porque faz um bom tempo / que nem sequer tento // não é que esteja sem saída / mas também não tenho / mais a vida inteira / para me debruçar / sobre a ternura / de todos os fracassos / nesse jogo tão doce e tão perdido / de procurar por uma nesga / um cacareco, que seja, de beleza”. O lado machadiano de Mauricio Duarte trama e trança, como Capitu e Bentinho, um texto de subtextos e intertextos. E, claro, a fonte desta paródia é a ironia fina e fria. Que sabe valer-se da vivacidade coloquial como um “expert” malandro. A segunda estrofe tipifica exemplarmente este apoderar-se da língua diária sem feri-la. E reaviva-lhe a beleza rítmico-semântico-sintática. Coisa de poeta que ama, e preserva, a língua do povo. Como nos ensinou T. S. Eliot.

Mauricio Duarte capta a dor em “A morte da virgem”, mimetizando em palavras as pinceladas de volume e luz da pintura: “da dor pouco sabemos / além do que Caravaggio / nos permite conhecer // além do que ele nos deixa ver / no jogo de pouca luz que nos / conduz como zumbis ao cadáver // espectadores inertes / seremos sempre parte / das sombras”. A diluição do homem, feito espectro de si, e de seus sentimentos, joga luz sobre quão ínfima é a vida diante da representação da arte. O homem é a virgem morta. Homem atual. Homem pós-moderno. Feito de imagens e reproduções. O poeta vai ao cerne da dor. Fratura exposta na tríade das estrofes do poema. Dói.

Dor e cidade são irmãs siamesas. Em “Lendo Pavese” o poeta começa observando: “não há colinas em meus versos / nem em meu horizonte”, e conclui: “o pouco que entendo é deste desterro / que ruge na cidade, de sua gente sem fim / destes sinais de uma nova era / e da solidão alheia ao progresso”. O poeta se espelha no grande escritor italiano, ao tomar vida e arte como matéria de reflexão do universo. Universo convencionalmente chamado de humano.

“Balde de água suja” possui unidade admirável. Cada poema ela-se com os seguintes e anteriores, na contracorrente das expectativas. Por isso mesmo cativa e prende o leitor. Um livro raro, feito num projeto gráfico pertinente com a materialidade desta poesia. E com forte impacto visual. Que se estende da capa ao miolo da obra. Ponto para Leonardo Mathias. Que soube ler Mauricio Duarte. E vertê-lo para o leitor. Por fim, desde já, aguardamos o “Primeiro poema do terceiro livro”. Tintim de gin, poeta.

Em tempo: A partir de hoje entro em férias. Boas festas a todos. Feliz 2016. Nossa coluna “Augusta Poesia” volta depois do carnaval. Abraços. Amador.

 

Publicado pelo jornal CONTRAPONTO, João Pessoa-PB. Caderno B, coluna Augusta Poesia, dia 23.12.2015, p. B-7

GARIMPO

Amador Ribeiro Neto

 

Líria Porto (Araguari-MG, 1945), poeta, publicou Borboleta desfolhada (2009), De lua (2009), ambos em Portugal, e Asa de passarinho (2014), que comentamos nesta coluna há pouco mais de um ano. Garimpo (Belo Horizonte: Ed. Lê, 2014) é seu mais recente livro e foi finalista do Jabuti 2014.

A lírica de Líria Porto tem lugar de destaque na nossa poesia contemporânea por aliar concisão, leveza, imagens inusitadas extraídas do mais reles cotidiano. E, acima de tudo, por conferir um tratamento especialíssimo ao trocadilho, que recebe os zelos de som, sentido e imagem em elaborado minério poético.

Ela consegue o que poucos atingiram quando propuseram-se a fazer lirismo com jogos de palavras. Seus trocadilhos têm a rara beleza de uma mistura de certo Bandeira com certo Leminski. Não sendo um nem outro. E estando milhas e milhas distante das gracinhas e facilidades que empesteiam nossa poesia hoje. Líria Porto, penso, ocupa um lugar único nesta serra tão almejada, quanto mal escalada. Sua dicção poética é rigorosamente construída com a emoção mais pensada. Um lirismo arquitetado por mãos e coração que conhecem bem o caminho ambíguo e oblíquo da poesia.

Líria Porto é sensibilidade sem resvalar para a pieguice. Sem querer fazer humorzinho. Sua poesia é pura emoção e festa da palavra. E de palavras.

Por isso mesmo, o título de sua mais recente publicação já traz em si o meticuloso empenho de garimpar, numa metalinguagem que se infiltra em cada poema. O resultado? Poemas puro ouro de mina. Poemas diamantes. Poesia precisa. Obra de rara ourivesaria.

A poesia de Líria Porto pede para ser lida com tempo e atenção. Ela veio para bussolar poetas e leitores. Ninguém sai o mesmo de suas páginas.

Vejamos o poema “Borrão”: “a caneta do poeta / fica assim aos borbotões / como se fora um acesso / de raiva tosse ou vômito / quando uma rima indiscreta / movida pelo complexo / ataca de jeito incômodo / e contrapõe-se”. O poema todo é vazado por rimas toantes. Aquelas que o Cabral usava com a desculpa de não serem minimamente sonoras. Pois aqui ela é o ruído que cava verso a verso. Ora em forma da vogal tônica “o”. Ora como a vogal tônica “e”. Vai perfurando o poema, encharcando-o, manchando seu corpo a golpes de sons secos. Soco na boca do estômago, o poema é um touro. Borrado no chão da arena. Mas permanecendo touro-poema.

Consideremos “Retorno”: “inspiração quando volta / é quase descobrimento / traz navio caravela canoa / e barcos de papel // (às enxurradas)”. A descoberta de que a inspiração é um ‘quase’, vem corroborada pela rarefação dos substantivos do paradigma ‘navegação’: navio > caravela > canoa > barcos de papel. E, ao final, a inspiração rola, isomórfica à iconicidade das águas, aqui representadas pelo uso dos parênteses. Poeta que é poeta sabe desconstruir para, em seguida, edificar. O leitor sai edificado da poesia de Líria Porto.

E o poema inicial, homônimo ao título do livro, diz: “esta procura tem um nome insanidade / passei da idade de tentar fazer sonetos / eu só consigo descrever cinzas e pretos / acho que o verso não alcança claridade // pelas gavetas prateleiras escondidos  / ainda agarro pelo rabo alguns cometas / quero as estrelas não encontro as suas tetas / sinto a fissura dos pequenos desvalidos // a minha escrita sempre foi penosa esgrima / desde menina que não tenho paradeiro / eu aço sapo com bodoque o dia inteiro / nesta esperança de catar melhores rimas // vasculho as glebas / os grotões e quem diria / bateio o sol chego a pensar / que a noite é dia”. Lavar o sol na bateia, tomando a noite pelo dia, tem a magistral força do verso maiakovskiano: “a tarde ardia com cem sóis”.

Líria Porto revolve os meandros da criação. E revigora a tão surrada metalinguagem. Em sua poesia, o fazer poesia é prática reveladora de um mundo que não há. E que passa a ter existência graças ao seu poder de criar mundos no mundo. O poeta é aquele que sabe “o saber e o sabor” da palavra lavrar. Líria Porto garimpa. Com um diferencial: tudo que toca vira ouro. Ela é, e sabe ser, Midas das minas e minerações da linguagem poética. Nós, leitores revolvidos por suas páginas, agradecemos.

 

Publicado pelo jornal CONTRAPONTO, João Pessoa-PB. Caderno B, coluna Augusta Poesia, dia 18.12.2015, p. B-7

LUX

Amador Ribeiro Neto

 

Amanda Vital (Ipatinga-MG, 1995) cursa Letras na Universidade Federal da Paraíba e reside em João Pessoa desde 2014. É integrante do “Aedos de Declamação”, grupo que anima saraus e lançamentos de livros, além de fazer suas próprias apresentações. “Lux” (Penalux, 2015) é seu livro de estreia, que nos chega apresentado por 3 importantes poetas: Lau Siqueira, Marcelo Adifa e Sérgio de Castro Pinto. Este último, no posfácio, depois de tecer elogios, é o único a apontar algum um senão na poesia de Amanda Vital. Com o que concordamos integralmente.

Certo sim que quem escreve orelhas, quarta capa, prefácio e posfácio, dificilmente tem como manifestar sua avaliação objetiva. Afinal, escreve-se, ali, para apresentar o livro e ganhar o leitor. E não para enxotá-lo. Desta forma, é louvável e admirável que o poeta de “A flor do gol”, depois de afirmar que os poemas de Amanda “estão longe de serem etiquetados, de serem meros pastiches de Cabral ou de qualquer outro poeta”, pondere com propriedade: “Amanda deve evitar um certo Leminski que confunde concentração com mera brevidade”.

É certo que Amanda Vital leva jeito pra poesia. É tão certo como afirmar que sua poesia é imatura, precipitada, irregular. Mas, ao lermos “Lux”, percebemos que há algo no livro que merece um retrabalho. Que necessita de um tempo de maturação. Sua poesia é de alguém que vê o mundo com olhos de adolescente maravilhada. E que não se detém no rigor da linguagem poética.

Amanda Vital busca a condensação lírica, como bem apontou o posfaciador. Seus poemas são curtos, mas não são concisos. Estão espraiados em grandes embustes verbais. Ela adora o trocadilho pelo trocadilho. Esse é um grande engano que acomete os que se propõem a fazer poesia. O trocadilho só tem funcionalidade quando faz coabitarem, no mesmo signo, som, imagem e sentido. E isto, como já nos disse Jakobson, é a confluência do eixo paradigmático sobre o sintagmático. Ou, mais: dizer o usual, mas revelando o conhecido como se fora captado pela primeira vez. Como nos ensina Chklóvski. Poesia tem de revelar este mundo. E, ao revelar, criar outro. Não pode estar colada na mesmice institucionalizada. Já disseram Octavio Paz e Jean Cohen.

Amanda Vital revela potencial para lidar com a palavra. Falta-lhe incorporar o sentimento de mundo ao mundo da linguagem.

Abrir um livro de poemas com “sonhar, acreditar, alcançar. / nessa exata sequência, / os sonhadores sonham dores / mas conquistam esperanças. // – e aqueles que não sonham? /  – da vida se desprendem, / se perdem, / não se transformam” é jogar um balde de água gelada na receptividade do leitor. Isto soa a diluição de Gonzaguinha com Raul Seixas. Ou seja: a poesia mora bem longe daqui.

Quanto aos trocadilhos pouco felizes temos: “fósforo apagado / não acende mais // é assim / uma longa amizade / quando se desfaz”. O clichê convertido em sabedoria de comentarista televisivo. Fica difícil encontrar poesia aí. Vejamos este: “óculos escuros / fazem pouco caso / do sol”. A obviedade é um dos maiores engodos para quem quer fazer poesia. O óbvio nega, por princípio, a ambiguidade. E esta, sabemos, é o norte da poesia.

Um poema bem leminskiano, e igualmente fruto da rarefação do poeta curitibano é “sou de lua – / dependo do barulho / da minha rua”. Aí Amanda Vital quase acerta. Só erra porque clona a lição do mestre. Nestes casos, sempre o original é melhor.

A poetisa deveria seguir o que ela própria diz em “o relógio da vida / não tem alarme / nem faz alarde // mas na escrita / há o tempo / da eternidade”. Poesia pede dilatação do tempo. Tanto para ser lida como para ser produzida. O que se percebe é que Amanda Vital tem sensibilidade para o trabalho com a palavra. O que lhe faltou foi tempo para aperfeiçoar suas sacadas sobre a vida, o mundo, a literatura. Mas não há como negar que ela encerra bem o livro com “não dá pra notar / que ando sempre / virada ao avesso // sou sem costura, / sem etiqueta, / sem fim nem começo”. A inversão das expectativas, em versos que se espelham, em ritmo cadenciado, jogando com de 4 e 5 sílabas, projeta a imagem do reverso e do verso, numa construção feliz.

Talvez ela devesse ter começado o livro por este poema. E seguido nesta linha. Fica a sugestão. E a espera pela nova publicação.

 

 

Publicado pelo jornal CONTRAPONTO, João Pessoa-PB. Caderno B, coluna Augusta Poesia, dia 11.12.2015, p. B-7

DOELO

Amador Ribeiro Neto

 

Marcos Fabrício Lopes da Silva (Brasília, 1979) é formado em Jornalismo pelo Centro Universitário de Brasília, mestre e doutor em Literatura Brasileira pela UFMG, professor universitário na Faculdade J.K., em Brasília. Define-se como “poeta afro-brasileiro”.  Publicou Dezlokado em 2010. Doelo (Belo Horizonte: Rede Catitu Cultural, 2014) é sua segunda publicação.

O título do livro, e isto está visível na grafia bicolor, é soma de do+elo. Ou seja: o que resulta da união. Para Nicolas Behr, que assina a orelha, “doelo une, duelo pune”. Um trocadilho bem ao gosto e ao nível de ambos os poetas. Mas o poeta-pai prossegue: “Marcos Fabrício é mais que um poeta, é um grande sacador. E gozador. Fala sério, rindo”. E conclui enfático: “Com suas sacadas rápidas e ligeiras, o poeta não atira para todos os lados: só o lado da poesia. E acerta”.

Não me entusiasmei com as palavras de Nicolas Behr porque conheço sua poesia. E já resenhei um livro dele nesta coluna, o Meio seio (2012),  em texto intitulado “Poesia do engano”. Mas, quis dar um crédito ao leitor Behr. Quem sabe seria superior ao poeta. Não foi. Engano meu.

Reparto com o leitor minha frustração. A dita poesia de Marcos Fabrício Lopes da Silva é um rol de frases feitas e trocadilhos previsíveis – na melhor das hipóteses. No geral, são brincadeirinhas que nem no Facebook caberiam. E olha que o Face tem sido a morada dos trocadilhos mais infames. Até poetas de peso têm escorregado. Parece que todos querem exibir um lado cômico. Como se a comicidade fosse um atributo que se ache na esquina.

Bem, começo citando poemas que têm títulos. São poucos. “Fé”: “olhar para cima / com a certeza de que o céu / não cairá sobre a tua cabeça”. Este é um arremedo mal feito de Leminski com Skank. Outro: “Pra não dar bandeira”: “ordem para os cem reais / progresso para os sem reais”. Este fica sem comentários.

Agora vamos aos poemas sem título. A maioria. “urubuservar / enxergar o buraco que há / na moldura do olhar”. Outro, bem original; “plim-plim / não diz tim-tim por tim-tim / porque só quer saber de dim dim”. Outra grande sacada sobre a televisão; “no aquário da tv / apresentador / com olhar de peixe morto”. Agora um que faz o elo entre Álvaro de Campos e Stephen Hawking: “o papo reto acontece / quando o silêncio faz a curva”. E, claro, tem zen na parada também.

Mas há outra série de poemas, a que parece feita para pousar em agendas infanto-juvenis. É uma série longa. A mais abrangente do livro. Cito alguns. São poemas feitos ao mais prático estilo autoajuda. Vejamos: “dance conforme a música / que você escolhe”. Outro, no mesmo compasso: “quem se atreve / sempre alcança”. Aqui, não sei por que motivo, mas me deslembrei de uma canção buarqueana.

Sigamos. Em tempos de crise econômica, ou auto estima baixa, eis o consolo:  “ter de pedir é o maior preço / que se pode pagar / por alguma coisa”. Agora um bem verdadeiro e altruístico: “se procuras a grandeza / não encontrarás a verdade // se procuras a verdade / encontrarás a verdade e a grandeza”.

Creio que não procuro a verdade nem a grandeza na poesia. Antes: meu defeito é procurar poesia na poesia. Aquela que desinstala o leitor. Provoca-o a ver novidade no que fora simplesmente usual. A que reinventa este mundo pela linguagem. E não aquela que se esbalda no blá-blá-blá insosso, inodoro e insípido. Publicando livros e enchendo de “vãs palavras muitas páginas / e de mais confusão as prateleiras”, como canta Caetano.

Bem, eu devia ter percebido logo de cara. Afinal, o poema que abre o livro anuncia: “minha vida é um livro / que precisa de leitor / aberto”. É eu sou um leitor fechado. Cheio de amarras. Ranzinza. Entrei no livro errado.