FÉRIAS NA DISNEY

Amador Ribeiro Neto

A poesia de Férias na Disney (Patuá, 2020) de cara quebra as pernas do leitor. Mesmo daquele já prevenido desde Alarido (2015), o nada convencional livro de estreia de Bruno Molinero, poeta que veio pra desafinar o coro, o solo, o duo, o escambau da poesia contemporânea brasileira.

Quando da publicação de Alarido, escrevi: Em Bruno Molinero a palavra colhida do jornalismo é reciclada por imagens e montagens estruturais que desconstroem a percepção viciada do leitor e inauguram um novo momento. Cada poema está no limite do prosaico. A poesia narrativa de Bruno Molinero é neo-épica, sem deixar de ser lírica. Ele estreia com marca própria. Que venha o novo livro”.

Seis anos se passaram para que Férias na Disney fosse lançado. Demorou, mas valeu a espera.

Se o livro inicial apostava mais no aspecto formal, com os poemas estruturados como depoimentos em primeira pessoas, versos curtos, ritmos acelerado, este vai num  híbrido de poesia e prosa, centrado no comportamento da classe média paulistana.

Em ambos, a música é um ponto alto, tornando o texto até cantável, como se fosse um rap. Um rap de áspera crueza, humor mordaz e aguda ironia. Moral: O riso resultante é um envergonhado “caramba, mas é isso mesmo, poeta?”. Para logo depois gerar a indagação “e agora?” como na antinomia drummondiana.

Mas se na poesia do poeta mineiro o riso é corrosivo, na poesia Bruno Molinero o riso é demolidor. Seu alvo é a sociedade paulistana, brasileira, de um presidente que face a duas centenas de mil mortos pela COVID 19 ironiza “e daí?”. A indagação que indignou o país é agora um verso e passa a ser história literária da poesia contemporânea deste país.

Se na idade média a “verdade” era teológica, hoje ela é política, social, econômica. Assim, o poeta não se exime de usar a poesia como elemento de comunicação e utopia por um mundo melhor. Uma poesia que não aceita ser é líquida. Antes, firma-se como matéria concreta, feita de signos materiais ideológicos, produzindo elementos para consciência de classe.

No entanto, Bruno Molinero sabe que não vale a pena fazer da poesia um panfleto, nem discurso didático. Para ele, em primeiro plano está a linguagem. Por isso diferencia jornalismo de linguagem poética. Poesia é linguagem, todavia, carregada de significado, como bem claro deixou Pound em seu ABC da Literatura, um livro mais citado que lido.

Quanto ao engajamento da obra de arte, o poeta de Férias na Disney tem claro: “A arte militante tem uma chave de leitura só, deve ser lida daquela maneira para chegar ao significado que o autor quer. Eu queria que existisse no meu livro uma chave mais ampla de leituras”.

Por isso mesmo, em Férias na Disney, carrega sua linguagem de significado em alta voltagem. A classe média, que frequenta a Disney, é destrinchada nas profundas entranhas. Não em sentido econômico, mas como um  “estado de espírito”, aquela que viaja pelas telenovelas, programas de auditório, reality show, big encenações religiosas, etc., veste-se e consome exageradamente, que perdeu a delicadeza do bom convívio social, que vota movido pelo ódio de classe, que  menospreza a cultura, que promove aglomerações na pandemia, etc. – esse o público-alvo retratado pelo livro.

Ao poeta não escapam os fenômenos psicológicos e sociais desta classe. Os poemas surpreendem, ora pelo corte curto da lâmina dos versos, ora pela discursividade sem cerimônia do texto. Tudo na mais corrente coloquialidade.

E aqui, na contramão da poesia marginal, a coloquialidade tem funcionalidade e serventia. É uma apropriação da linguagem cotidiana em que a forma e o conteúdo comentam-se reciprocamente gerando maior taxa de informação.

O poema “anúncio”, um misto de colagem de publicidade jornalística com clímax aos moldes dos contos à la Poe, com o rasgo da ironia mais gritante, é um exemplo:

aluga-se

quarto

pra casal

homem

e mulher

sem vícios

mobiliado

com cama

criado-mudo

bíblia e um

trinta e oito

carregado

na gaveta

Não bastasse a bíblia e o trinta e oito repousarem juntos na gaveta do criado-mudo, ele ainda está carregado. Ou seja: mudo fica o leitor, sentindo-se imobilizado – ou mais um móvel no ambiente do anúncio. Nova ironia: lembre-se que um dos sentidos de anunciar é prenunciar.

Mas se há algum prenúncio neste livro, ele advém da observação, anotação e revelação dos fatos. Férias na Disney é um livro pitoresco, no sentido de pictórico. É um livro do olhar, da visão. Não é um grande mergulho no mundo interno das pessoas, suas angústias, dúvidas, hesitações.

Mesmo no poema “gatilho”, em que relata um suicídio, tudo é asséptico. Até o final trágico é revelado, e resolvido, num verso e numa palavra. Depois de tomar veneno de rato, o marido

abraçou aquela que foi

sua companheira por vinte anos

na tristeza na doença na morte

que os separe

amém

e enfiou pela primeira vez

o dedo no próprio

cu

A caracterização da interioridade das pessoas dá-se mais pela descrição de suas circunstâncias exteriores. Raramente os sentimentos são apresentados per si.

No geral, há um radar narrativo colhendo imagens na Disney, ruas, praia, cafeteria, frente à pizzaria, avião, praça de alimentação e lugares não nomeados – mas com ações bem definidas. O que acaba ampliando o alcance metafórico do poema.

O retrato do país, hoje, é traçado em cinco palavras no poema “você não acredita”:

o meu dentista

também entrega

pizza

Concisão, ironia e rigor determinantes de uma inversão de valores. Visto como uma mancha gráfica, o poema desenha uma bandeja com a pizza embaixo. O incômodo visual é isomórfico ao incômodo semântico. Cabe ao leitor agir como coautor do poema e, consequentemente, do mundo, resolvendo o incômodo: utopia da poesia.

Poemas que se abrem com cena ou diálogo em andamento são outro procedimento de que se vale o poeta. Isso pega o leitor de jeito e o enreda no poema sem maiores firulas. “açougue” é assim:

não

não

o que ensinei naquele vídeo

foi a desossar leitão inteiro

só  isso

como posso ter culpa do que

aquela molecada aprontou?

rejeito

nego

recuso

afinal

todo mundo gosta de assistir

barriga de bicho sendo aberta

Para depois continuar num delicado jogo de /f/ e /a/ e /i/

quando faca afiada de lâmina fina

corta superficialmente as costelas

tiradas osso a osso a osso a osso

é como se eu pegasse as cédulas

desviadas de nossas mil estatais

e escancarasse o sistema podre

berrando

vagabundos

canalhas

o  porco escovado ao vivo

com suas miudezas flácidas

a coluna vertebral já extraída

garras ósseas feito crustáceos

dedos em menstruação suína

zurro

suado

mexido

quando foi a última vez que

você saiu de casa sem medo?

hein?

quando?

faz tempo?

E segue o poema para mais adiante anunciar:

Mas nunca nunca podia pensar

Que essa molecada tão jovem

Faria  uma barbaridade dessas

Jesus

Tão menininhos tão menininhos

Meus sentimentos à família

Lamento

Mas e daí?

Sua linguagem coloquial, direta e clara às vezes pode nem parecer poética. Mas o ritmo, marcado pela forma como o poeta corta os versos, imprime a musicalidade a que todo poema aspira ter. Sem contar o uso de assonâncias (sequência de vogais abertas, fechadas ou nasalizadas com determinado propósito) ou de aliterações (consoantes, com a mesma finalidade) deixam ver claramente que o poema possui rico substrato musical.

Embora os “recursos literários tradicionais” parecem não estar nos projetos deste livro. O poeta, até nisso, decidiu inovar. A poeticidade está em novos procedimentos, como estamos vendo.

Ainda que Bruno Molinero não se considere poeta, embora seja um estudioso da linguagem poética, sua poesia está aqui para desmenti-lo. Em mais um depoimento a Walter Porto, como nos citados anteriormente, declara: “Suponha que além de trabalhar em jornal eu goste de fazer cadeiras. Por mais que no meu tempo livre eu estude isso, faça cadeiras e as pessoas até elogiem as minhas cadeiras, a pergunta é se isso me faz um marceneiro. Eu acho que não. Poeta é o Manuel Bandeira”.

A estrutura das premissas é verdadeira, mas elas, em si, são falsas. Ao invés de um silogismo temos um sofisma. Tanto que a própria conclusão não é um “logo”, mas um “acho”. Risos.

Portanto, podemos afirmar, diante do lido e demonstrado, que com Férias na Disney, Bruno Molinero firma-se como um dos mais expressivos poetas da nova geração da poesia brasileira contemporânea.

Publicado no CORREIO DAS ARTES, suplemento literário do jornal A União de João Pessoa-PB, de 28 de março de 2021, p. 27-29, na coluna Festas Semióticas, do autor.

Gil Jorge

Amador Ribeiro Neto

O livro se chama “Mínimas” e foi publicado em 2019 pelo Selo Demônio Negro, de São Paulo. Todavia, a tipologia das letras da capa permite que se leia “Minhas Mínimas”. Este jogo tipográfico é o mote visual de Gilberto José Jorge, ou Gil Jorge, como ele assina, nascido em Santo André-SP, em 1960. Da caligrafia gestual à tipomorfia digital, trabalha a poesia visual com filigranas luminosas.

Poeta, editor e promotor de eventos culturais. Boa parte dos poemas que realizou desde os anos 80 se situa na vertente de uma caligrafia gestual e tipográfica. Foi co-organizador da mostra Poesia Evidência, em 1984, na PUCSP; coeditor da revista de caligrafias impressa em serigrafia pela Entretempo, AGRRAFICA, em 1987; coeditor do álbum Atlas, com mais de 80 participantes, entre cineastas, artistas plásticos, poetas, músicos etc. Participou com vários poemas ao longo das edições da revista Artéria, editada por Omar Khouri e Paulo Miranda. Vive em Paraty (RJ).

Poesia visual não é, apenas, desenhar um objeto com as palavras que o significam. Por exemplo: formar a palavra paz com palavras que conformem sua imagem. Isso é caligrama, a forma mais elementar de poesia visual. Elementar porque óbvia, didática. E a poesia foge disso. Poesia é desvio do uso do idioma (Jean Cohen), é ambiguidade (Jakobson), etc.

Nem é apenas desenhar, ou desenhar com letras ou com símbolos gráficos. Isso pode ser arte gráfica ou artes plásticas.

Pedro Xisto criou um poema que aparentemente é mero geometrismo. Uma obra de arte plástica abstrata. No entanto, é um poema concreto. Trata-se do memorável poema “Zen” (1966).

Nele, as letras Z E N foram unidas por um traço dando origem a um retângulo que as camufla e, à primeira vista, deixa transparecer apenas as figuras geométricas: triângulos e retângulos. Este é um caso em que a palavra e o desenho se conformam em perfeita harmonia, para usar um dos termos caros ao pensamento zen.

Por fim, poesia visual envolve palavra e tipologia, no jogo de forma e sentido, na espacialização do branco da página.

Engano supor que a poesia visual seja invenção da modernidade.  Bem lá atrás, três séculos antes de Cristo, Símias de Rodes já escrevia “O ovo”, o primeiro poema visual de que temos registro.

A Poesia Concreta é visual ao seu tempo de implantação do movimento. Com o passar dos anos, foi deixando, em parte, o lado visual e se fixando em outros de seus outros princípios. A produção atual de Augusto de Campos é de poesia visual, mas não é concreta,  já que o poeta deixou de praticar, segundo declarações dele mesmo, este tipo de poesia há anos.

Gil Jorge revela-se influenciado por Apollinaire (divulgador dos caligramas nas vanguardas europeias), Edgard Braga, Augusto dos Campos, Arnaldo Antunes, Walter Silveira, Tadeu Jungle. Mas sem dúvida encontramos em sua poesia também a presença de Joan Brossa Pedro Xisto, Wladimir Dias Pino.

Em Gil Jorge, enquanto  a tipografia é explorada, ela vem carregada de sentido em alta voltagem. Os poemas expressam com ironia, desencanto, humor, erotismo, afronta, um modo de ver o mundo que nos remete a um Gregório de Matos.

“planos / após anos após anos após anos após anos / planos” ou “planos / anos após sapos anos após sapos anos após sapos anos / planos” do poema “engolindo sapos” vem grafado numa tipologia em que uma linha corta e une as letras numa continuidade cotidiana. Ler é vasculhar, descobrir e ver sentidos. Daí a importância da exploração do olhar perscrutador nos poemas de Gil Jorge.

O  poema “Ego”: “o ego é igual  a um ser elevado ao quadrado”, é um verso irônico cujo desenho conduz a um afunilamento que engole todo o ego, todo o ser elevado ao quadrado, todo o poema.

Ao visualizar o poema, mais do que lê-lo, percebe-se que mais do que irônico, ele é sarcástico. A tipografia toda em maiúscula e em branco num fundo negro realça a importância do que diz. Mas as palavras “quebradas” nas sílabas para que caibam no quadrado já iconizam a ironia da necessidade de se adequar à forma (status) para satisfazer à necessidade (aparência).

Visto à distância, o poema lembra um poço e seu fundo e a similaridade com a narrativa de Narciso inevitavelmente vem à tona: de tanto envaidecer-se, afoga-se. Aqui, o ego, igual a um ser elevado ao quadrado, acaba afunilado.

Os dois lados do poema – o ego e o ser ao quadrado – são comentados nas duas páginas que o compõem: a do título é branca com o nome do poema em negro e da poema, como vimos, é ao contrário. Frente e verso, vida e morte, eros e psiquê. E como se não bastasse, o quadrado está apoiado sobre um de seus ângulos e não sobre uma de suas bases, como é de praxe, o que imprime sensação de movimento e vertigem de profundidade.

Gil Jorge trabalha a caligrafia gestual como elemento constitutivo estrutural de sua poesia visual. No caso do poema “Nós” salta aos olhos, de imediato, que ele explora a ambiguidade do termo: 1. Substantivo plural:  entrelaçamentos; empecilhos; problemas; 2. Pronome pessoal: primeira pessoa do plural. Por isso a caligrafia desenha entrelaçamentos que remetem a abraços, cópulas amorosas mas também a atritos, choques, divergências. A escolha pala verticalidade da caligrafia sugere um aspecto cinematográfico das imagens e, consequentemente, sugerir mais cenas em cada bloco.Descrição: E:\Meus documentos\2. IMAGEMS\- -  1. INTERNET\- - Literatura\- - - - - - -Literatura 2020\3. gil jorge. nós.jpg

Gil Jorge trabalha a caligrafia gestual como elemento constitutivo estrutural de sua poesia visual. No caso do poema “Nós” salta aos olhos, de imediato, que ele explora a ambiguidade do termo: 1. Substantivo plural:  entrelaçamentos; empecilhos; problemas; 2. Pronome pessoal: primeira pessoa do plural. Por isso a caligrafia desenha entrelaçamentos que remetem a abraços, cópulas amorosas mas também a atritos, choques, divergências. A escolha pala verticalidade da caligrafia sugere um aspecto cinematográfico das imagens e, consequentemente, sugerir mais cenas em cada bloco.

Nós

Em “Mínimas”, poesia visual, não há prevalência da forma. Isso é curioso, raro e rico. Forma e semântica caminham juntas, inter-relacionaldas, entrelaçadas. Diria mais: amalgamadas. Por isso é um livro para se “vler” (ver-ler ao mesmo tempo), na terminologia de Décio Pignatari. 

Publicado no Correio das Artes de 07 de fevereiro de 2021, na coluna Festas Semióticas, deste autor, p. 24-25-26.

Peixes
Oração
Existir
Gil Jorge

Cacaso pagou caro por se ater à poesia marginal, da qual foi maior mentor

Amador Ribeiro Neto

Antônio Carlos de Brito, o Cacaso, um dos nomes mais importantes da década de 1970. Da Geração mimeógrafo, que imprimia seus próprios poemas ou se mobilizava em pequenas editoras. E que deu origem à Poesia Marginal: oralidade em primeiro plano, espontaneidade de linguagem, postura crítica diante do momento político do país, discurso quase sem ambiguidades. Exceto trocadilhos piadísticos, de fácil deglutição.

Cacaso era professor, poeta, crítico, desenhista, letrista da MPB. Bem informado, levou para a universidade a discussão sobre esta nova poesia que surgia no Rio. Abriu discussão contra o Estruturalismo, a linha teórica do momento e insurgiu-se contra a Poesia Concreta, depois de ter-se mostrado simpático a ela.

No poema “estilos de época” detonou: “Havia / os irmãos Concretos / H. e A. consanguíneos / e por afinidade D. P., / um trio bem informado: / dado é a palavra dado / E foi assim que a poesia / deu lugar à tautologia / (e ao elogio à coisa dada) / em sutil lance de dados: / se o triângulo é concreto / já sabemos: tem 3 lados”.

O interesse pela poesia marginal tem levado o mercado editorial a relançar poetas desta época como Chacal, Ana Cristina César, Francisco Alvim, Nicolas Behr, etc. Bem como a investir em novos poetas que têm seguido esta linha: Bruna Beber, Ana Martins Marques, Angélica Freitas, dentre outros.

Poesia Completa/Cacaso, da Companhia das Letras, além de reunir sua obra poética já pulicada, traz inéditos colhidos entre anotações de 23 cadernos do poeta, escritos entre 1977 a 1987, ano de sua morte aos 44 anos de infarto. Traz ainda sessenta das quase trezentas letras de canções em parcerias com Tom Jobim, Edu Lobo, Djavan, Toquinho, João Donato, João Bosco, Zé Renato, Francis Hime, entre outros.

Na seção fortuna crítica Roberto Schwarz descreve o poeta fisicamente associando-o à “estampa rigorosamente 68”. Heloisa Buarque de Hollanda comenta toda a produção de Cacaso e conclui que sua poesia tinha uma postura mais “cultural que literária”. Francisco Alvim destaca a ironia e a perfídia como formas de corrosão da epifania de sua poesia. Vilma Arêas tece crônica de memória pessoal. Mariano Marovatto estabelece a biografia essencial do poeta em poucas páginas.

O elo imediato entre vida e poesia levaram Cacaso a radicalizar a linguagem a ponto de eliminar, ao máximo, a ambiguidade. Contrariando as metáforas e metalinguagens que recheiam o livro de estreia (1967), de viés cabralino, drummondiano e eliotiano, agora o poeta escreve no poema que dá nome ao novo livro (Na corda bamba, 1978): “Poesia / Eu não te escrevo / Eu te / Vivo // E viva nós!”. A poesia deixa de ser representação e passa a ser a própria vida.  Sem dúvida, um paradoxo: a negação da poesia se dá enquanto a se redige a própria poesia.  

Poesia é representação, é linguagem. O problema reaparece quando o poeta busca no imediatismo a identificação vida-arte. Esta “pressa” leva-o a escrever uma série de poemas de resultado duvidoso.

É o caso de “orgulho”: “descreça / e apareça”. Ou “boêmia”: “Acho que hoje já é / Amanhã”. Ou “genealogia”: “A gente é o pai da gente”. Ou “amizade”: “O sexo não tem sexo”. Ou “oferta”: “A amizade não / tem preço”. Ou: “falando sério”: “Outro amor? Não caio mais”. Ou: “ré menor”: “fazendo versinho / querendo carinho”.

No entanto, tais recursos não encontramos nas letras das canções. “Dinheiro em penca” (com Jobim), “Dentro de mim mora um anjo” (com Sueli Costa), “Lero-lero” (com Edu Lobo), “Morena de endoidecer” (Djavan), entre outras, são belas letras que resultaram em antológicas canções.

Procedimentos do livro de estreia serão retomados em poemas do último livro publicado em vida, como “já já” e “tiau Roberval” e encontrados em poemas inéditos resgatados por esta antologia.

Cacaso era um bom poeta. Por submeter-se às normas da poesia marginal, da qual foi o principal mentor, pagou um alto preço.

Obra: Poesia completa/Cacaso – 1ª ed.

Autor: Cacaso

Editora: Companhia das Letras, S. Paulo, 2020

2 estrelas

Publicado na Folha de S.  Paulo/Ilustrada de 09/02/2021

Olhar agudo e mão leve de arrudA tecem poemas com música e significado

Gregório de Matos celebrando a unidade, apregoa num soneto: “o todo sem a parte não é todo / a parte sem o todo não é parte”. Século 16, o mundo busca a unidade em Deus, ou em alguma coisa. Mas quer ser uno.

O poeta arrudA, em lançamento recente, assume a fragmentação de nossos tempos e canta-a “à parte / toda essa apatia / à parte / em toda parte essa tal / de tecnologia / à parte / esse desgaste natural / de ambas as partes / nem sempre tão igual / à parte / um e outro desastre (…)”.

E segue falando de nossos desastres ecológicos, econômicos e pessoais num mundo sem eixo, sem norte, à parte, mas em toda parte, fragmentado.

Fragmentos de uma canção impossível é obra pensada desde sua estrutura interna até o projeto gráfico. Constituída por 50 poemas, sete partes, cada uma delas com sete poemas e um de abertura.

Na literatura, como nas artes, o número sete, cabalístico, sempre é impregnado de significações, bem como o um. A ideia de infinito e de unidade, respectivamente, permearão os poemas e o projeto gráfico. Ambas em conflito. Fragmentárias.

Os poemas se inter-relacionam num movimento elíptico interno em que cada qual possui um centro móvel que se comunica com os centros dos demais. À distância, as elipses iconizam vários planetas em movimento dentro de uma órbita.

Desta feita, a leitura dos poemas se torna intercambiável e os temas interpenetráveis. Como se depreende do fragmento citado, a musicalidade não é mero recurso metafórico do título –  ela habita o corpo do poema como uma camada de significação e beleza.

Capa, projeto gráfico, ilustrações internas assinadas por Gabriel Marcondes Egestos são um todo único que ora se fragmenta para abrir cada parte do livro, ora se une para compor a capa. O prefácio analítico e esclarecedor é assinado por Lucia Rosa, criadora e coordenadora do Coletivo Dulcineia Catadora, onde o poeta publicou 23 poemas de arrudA.

Os 50 poemas não têm títulos. São numerados de um a sete dentro de cada parte. Mas podem ser lidos independentemente: “nunca / estivemos / tão / próximos / dos nossos / ossos / nunca / chegamos / tão perto / dos nossos / desertos / nunca / fomos / tão íntimos / dos nossos / instintos / quando / te olho / aqui de dentro / nunca / fomos // tão infinitos”.

Quase sempre são uma longa estrofe seguida por uma pausa, uma segunda estrofe composta por um único verso que ocorre depois de leve suspensão rítmica.

Linguagem sintética, versos curtos, lirismo com rigor, rica apropriação de imagens do cotidiano, espontaneidade colhida com precisão e simplicidade. Tudo revelado como novidade do primeiro contato.

Assim é o olhar agudo e a mão leve, certeira de arrudA ao recolher planetas, estrelas, hibiscos, luas, sóis, girassóis, rios, calêndulas, ruínas, satélites, crustáceos, pássaros, planetas, terremotos, tecnologias, ossos.  Assim é a semântica do poeta: elementos da natureza, da cultura e do tempo. Fragmentados e inter-relacionados numa teia que ele tece com suave música e significados.

Seus versos podem ser lidos até o final da linha ou segundo o enjambement, que é o recurso literário em que um verso continua no seguinte pelo ritmo, sintaxe e sentido. Como arrudA despreza a pontuação, o uso do enjambement é um convite ao leitor para que a danças das elipses das sete partes do livro reverberem múltiplas significações. E a poesia espalhe-se numa galáxia de novas sensações e novos sentidos.

Num mundo fragmentado tudo se reorganiza plasticamente para o leitor no momento da leitura da poesia. Torna-se uno.

Publicado na FOLHA DE SÃO PAULO/Ilustrada 20.01.2021

Autor: arrudA

Título: fragmentos de uma canção impossível

Editora: Patuá, 2020

Cotação: 5 estrelas

Hinos matemáticos

Amador Ribeiro Neto

 

Marco Lucchesi (Rio de Janeiro, 1963) é professor da UFRJ, poeta, romancista, ensaísta, tradutor, crítico literário, memorialista, missivista, roteirista, organizador de antologias, organizador de obras, editor de revistas literárias, membro da ABL. Foi contemplado com vários prêmios nacionais e internacionais. Tem livros traduzidos para o árabe, romeno, persa, russo, turco, polonês, híndi, sueco, húngaro, urdu, bangla e, claro, inglês, francês, alemão, espanhol e italiano. Publicou, os seguintes livros de poesia: Bizâncio (1997), De passione (2000), Alma Vênus (2000), Poemas reunidos (2001), Sphera (2003), Meridiano celeste & bestiário (2006), Clio (2014). Hinos matemáticos (Rio de Janeiro: Dragão, 2015) é sua mais recente publicação.

A poesia de Marco Lucchesi é de um lirismo arrebatador. Poucos conseguem, como ele, aliar erudição e leveza, ciência e sentimento, matemática e amor. Assim é, e não poderia ser diferente, em se tratando do poeta que é, Hinos Matemáticos, um livro que desafia o leitor com fórmulas matemáticas poucamente esclarecedoras. Mas com formas poéticas abundantemente tocantes.

Uma poesia que nos rememora a velha lição valéryana: poesia e matemática são duas abas do mesmo chapéu. Mas Lucchesi vai além da simples equação aritmética. Interessa-lhe a musicalidade contida na matemática. Aquela mesma música a que toda poesia aspira ser. O “espólio inabordável entre 0 e 1”,  como enuncia o poema “Busca do ouro”.

As imagens sucedem-se numa espiral que toca os mesmos pontos. E neste apoio conhecido, impulsionam-se pra novos volteios.

 

E as formas que não cessam

de crescer

 

Delírios fugazes

Líquidos lampejos

 

dizem os versos finais de “Solilóquio fractal”. O espaço em aberto. Expandindo-se. E isomórfico a ele, a poesia. Formas, delírios, lampejos: o leitor percorre galáxias em movimentos e banha-se num erotismo riscado a arpejos de luz e gozo.

O poema que abre o livro incandesce caminhos do devir. Cito “Canteiros”, na íntegra:

 

Um fósforo desata momentâneo

os fios de uma noite sem estrelas

 

No céu azul de Samos

voam ímpares.

E os pares sobrenadam

nas águas do Ilissos

 

O jardim

o conjunto de canteiros

E a floresta sombria e ilimitada

 

Como domar a astúcia do infinito?

 

O fósforo não acende, não ilumina: desata os fios de uma noite escura. Os raios do fósforo são os fios que, ao invés de clarear, ampliam a dimensão do escuro. Entre estes versos e os finais há a ilha grega de Samos, seu rio Ilissos, os canteiros do jardim, a floresta “sombria e ilimitada”. A ilha: locus de suspensão da vida. O rio antigo, hoje canalizado e subterrâneo: a dimensão espacial do lado de lá. Para além dos olhos. No entanto, tão próxima aos pés.

Depois do poeta construir a imagem sideral na progressão de “jardim”, “conjunto de canteiros” e, por fim, “a floresta”. Como se não bastasse a vastidão em si, é uma floresta “sombria e ilimitada”. Quer seja: o desconhecido dentro do desconhecido dentro do desconhecido.

Por fim, o verso que encerra o poema projeta este espaço como indomável em seus ardis, argúcia e sagacidade.

Estamos diante de um poeta que soma a matemática à vastidão do espaço – e configura-a na mais delicada poesia. Em filigranas do sublime.

Esse é o movimento presente em todos os poemas. Próximos e distantes. Perto e desconhecidos. A matemática e a palavra. Duas fontes de força bruta. O homem busca entendê-las para cantá-las. O poeta mergulha na estética da matemática para, nela, situar e localizar sua poesia. Daí o título do livro: Hinos matemáticos.

O poema “Primeira prova” orquestra a busca desta música precisa:

 

Orquídeas

resplandecem

no quintal

A geometria

de fogo

de suas pétalas

e a forma

do silêncio

em que se apoiam

Trago

o coração perdido

e os olhos tersos

da breve epifania

Toda flor

desponta

no seio do silêncio

e ao seio

do silêncio

acorre e se dissolve

Lembro

de Hardy

indo ao

fundo

silêncio

dos gregos

Teoremas

         cheios

   do frescor da beleza

          de quando foram descobertos

Dois mil anos

e sequer

uma ruga

em seu puro semblante

(Euclides

e a infinidade

dos números primos

Pitágoras

e a raiz quadrada

irracional de dois)

Os desenhos

                  do matemático

     e do poeta devem

                                         ser belos

Flores

teoremas

desmaiam

em súbitos

jardins

sob                              crepúsculos

fugazes

A beleza é a primeira prova

                   da matemática

 

 

Como consta das Notas que acompanham o volume, os versos em itálico são extraídos de Em defesa de um matemático, de G. Hardy.  No Posfácio intitulado “A espiral e o sonho dos meninos”, o poeta explica que “a ideia de beleza na matemática, que se encontra em diversos autores, como Hardy ou Poincaré, causou em mim grande impacto. Como se me deparasse com uma verdade perdida, um substrato arqueológico que me parecia estranhamente familiar e decisivo”.

Um vetor de leitura possível para este livro é seguir as orientações do poeta nas imprescindíveis Notas e no esclarecedor Posfácio. Todavia, isto não impede que uma outra leitura se faça na contramão destas orientações. É aquela leitura em que o eu lírico desenreda-se do estrato matemático dos poemas e mergulha nas epifanias das imagens em alumbramentos de sons e sentidos. Outros sons. Outras imagens. Outros sentidos. Para além da matemática. Para dentro da poesia em si.

Esta navegação, que se norteia pelo hino, pelo canto, pela enunciação dos significados por vir, é a do encantamento que a música produz nos ouvidos e nas sensibilidades. A entrega da beleza em estado de graça. Sem preço algum. Sem merecimento algum. Entrega da poesia em revelações inusuais. Revelações de pura entrega e vasto gozo.

Então, mergulhado nestas galáxias de imagens (sonoras, visuais e semânticas), o leitor chega ao cerne da matemática sem a necessidade dos teoremas e das teorias. É quando o poema “Lendo Hadamard” ganha as ganas do leitor tomado pela beleza lírica dos poemas de Marco Lucchesi. Cito-o na íntegra:

 

Perdem-se os primos {venerandos números}

quando num bosque em plena madrugada

sob a lira cintilante de Orfeu

põem-se a bailar mais bravos e dispersos

 

O imaginário

{nuvem     bosque      pensamento}

é o atalho cristalino da matemática

 

 

A poesia vence. Entendemos o poeta quando diz: “o vínculo entre a beleza e a matemática há de trazer novos ventos para as matemáticas no Brasil, rompendo uma cláusula de barreira cultural. O direito dos meninos e das meninas de sonharem nos campos do pensamento matemático”.

Somos todos meninos e meninas. O sonho da poesia é nosso mundo.  Obrigados ao poeta pela sua imensa poesia. Galáxia entre galáxias que nos leva a imensuráveis espaços – de caos, de exatidão, do fractal, do geométrico infinito. Espaço sideral de enternecedor lirismo.

“Risque esta palavra” não frusta, apesar de não ser bem realizado

Amador Ribeiro Neto

“Encerramos afinal nossa aventura / eu e tu”, e “a poesia – parece estar de volta…. / é mesmo ela”,  versos finais de Risque esta palavra, o mais recente livro de Ana Martins Marques.  Parecem versos de um tratado, uma tese, uma comprovação. Trata-se de um livro de poemas.

Dirigido  a “meu amigo”, o chamado  cria um vínculo com o leitor que se  volta ao título do volume e então percebe que o verbo riscar, além de significar apagar, pode ter o sentido de realçar. Risque, em vez de deletar, pode ser lido como grifar, destacar. O nome do livro como uma possível exaltação da linguagem da poesia.

De fato há este projeto. Um fio estrutural e temático busca dar unidade ao livro. Se não chega a ser bem realizado, não frustra. Tal como nos versos, “assim como a Boêmia / também Minas faz fronteira com o mar”, Risque esta palavra é mar imaginário cercado por montanhas. Mas leva a viagens intercontinentais.  Seguramente é o livro da maturidade de Ana Martins Marques.

Os anteriores vieram marcados por cacoetes e modismos que filiavam-na a grupos, mas não distinguiam seu lugar. Uma poesia diluída, desleixada, de descrição ou enumeração de significados e coloquialidade esvaziados.

Some-se a isso a diluição  drummondiana e os clichês que a poesia marginal insistiu em valorizar tolamente. Porém, entre um ou outro poema, havia versos que apontavam para algo novo. Todavia os prêmios vinham e afogavam o que poderia ser um começo de experimentação.

Risque esta palavra surge seis anos depois de sua última publicação. No título o imperativo afirmativo pode encerrar uma negação. À semelhança da narrativa machadiana em D. Casmurro pede-se ao leitor negligenciar o que está escrito. Recomeçar. Inútil: já fora incorporado pela leitura.

O ludismo de “mostrar e ignorar o visto” incorpora signos passados que interessam ao presente. E é assim que o livro cresce com um projeto que se estende do título ao último verso: a linguagem como corpo do tempo e da poesia.

“Finados” resolve-se em poucos versos, ritmo frenético e a fugacidade da vida mais a vizinhança da morte. Coloca o leitor dentro do poema levando-o a vestir as camisas deixadas nos armários e a habitar as “casas coloridas” e “alegres sem motivo”.

Em “Fazer as malas é tarefa impossível” a desconhecida alteridade de si próprio marca o tom dos versos: “quem está de partida / arruma a mala / de um desconhecido”. A reflexão pessoal e a linguagem são duas viagens dentro do poema.

Corpo, tempo, impermanência, palavra, água, memória, morte, a figura masculina, mar, são alguns dos elementos que fazem a trama poética de Ana Martins Marques. Todos interligados: “cada corpo confina com o que lhe falta”, como num verso de “Minas à beira-mar”.

 “Noções de linguística”, a terceira parte, é bem sucedida linguagem falando da própria linguagem. Os poemas “Língua” e “é uma alegria haver línguas” pensam e vivenciam a língua dentro da linguagem e na linguagem do corpo do eu lírico. Quebram o estado de dicionário e inauguram o estado de poesia. Por isso prestam-se  para serem lidos em silêncio, em voz baixa, alta, reproduzidos por impresso, em imagem, som, dança, etc.

Quer seja, dois poemas que pedem ir livro afora: “No princípio / toda língua é estrangeira // acerca-se do seu corpo como de uma cidade / até tomá-lo / fazê-lo chamar-se a si mesmo pelos nomes / que ela lhe dá: / pé perna barriga dentes”. Ou então: “É uma alegria haver línguas / que não entendo // nelas é sempre infância:/ mar mãe manhã”.

Em Prosa (I) e (II) a ironia, que antes salteava os poemas, agora desenha mancha gráfica de grande efeito e deleite. O que um dia fora arremedo de prosa poética é agora amadurecido poema em prosa de prazerosa intertextualidade e acentuada musicalidade.

“Parar de fumar”, a parte que encerra o volume, desenha um único poema na estrutura e no tema. Está estruturado visual e ritmicamente de tal forma que o leitor chega ao fim quase sem se dar conta, tomado pela beleza da linguagem. Então constata que a última poesia ata-se à primeira.

Cotação: 3 estrelas Livro: Risque esta palavra (poesia) Editora: Companhia das Letras Ano: 2021, 118p  

Publicado na Folha de São Paulo (Ilustrada) em 30 de agosto de 2021

Arnaldo Antunes: Algo Antigo

Amador Ribeiro Neto

Em Algo antigo, livro de Arnaldo Antunes lançado pela Companhia das Letras, no mês passado, há poemas tradicionais, visuais das mais variadas vertentes, fotografias. Pra deixar claro que o poeta tá engajado com os novos tempos de isolamento, com a avassaladora presença da midia e da política no nosso cotidiano.

Mas, claro, o passado também está presente. Afinal, não há presente sem história. Por isso, os afoitos e apressadinhos adeptos do “carpe diem” não se iludam: “o melhor lugar do mundo é aqui e agora” porque ele está impregnado de história.

Arnaldo Antunes sabe bem disso e é por aí que, sendo poeta antenado, nomeia seu livro de Algo antigo, ou melhor,  al(anti)go, pois tudo carrega algo de antigo, de passado, de história. E como ele mesmo diz em um poema feito pra cantar, “a coisa mais moderna que existe nessa vida é envelhecer”. Gente é pra viver muito, não pra morrer de COVID 19. É ter passado longo pra compartilhar.

Em outras palavras, é a dialética do novo-velho, novelo, ou “novelho” – como já poetizou o genial noventão Augusto de Campos em um poema da década de cinquenta. Poema que o próprio Arnaldo já tematizou em forma e fundo em vários poemas que produziu. Pois: é o que já é.

E viva a vida, a poesia e quem a lê (ainda e sempre).

Algo antigo estava terminado e seria lançado antes da pandemia. Mas daí veio o vírus, o lançamento foi adiado na esperança de que logo as coisas normalizassem. Como todos sabemos e sentimos, no corpo e na alma, dentro de nós, ao nosso redor, no país e no mundo, a Coisa ainda está aqui.

Arnaldo aproveitou e reviu poemas, re-organizou o livro. Constatou que vários poemas tematizavam o isolamento. Coincidência. Premonição. Sincronicidade. Dê-se o nome que se queira. A arte tem dessas coisas. E outras mais. O que vale é que os poemas tocam nossas mentes, nossos corações com a beleza que já conhecemos de seus livros e canções.

O poema “lápide” diz da passagem do presente em cinco versos rápidos:

aqui jaz

o presente

eterno porque eterna

mente

fugaz

Desde 2015, quando lançou Agora aqui ninguém precisa de si, 1º lugar no Jabuti – que tivemos a feliz oportunidade de comentar aqui no Correio das Artes – ele não publicara um novo livro. Vem seis anos depois com a palavra, bruta matéria concreta de sua poética. Como sempre, mesmo vale-se de grafismos, diagramações, diversidades de fontes gráficas, poemas em prosa, caligrafismos, fotos. E mais: tercetos, dísticos, quadras, sextilhas, poemas concretos, etc., dentre outras formas, que ficam a cargo da descoberta e maravilhamento do leitor.

“algo antigo / onda do mar de Vigo / hexassílabo, fio de tele / fone, fome / de perigo” veio pra provocar, instigar, coçar a onça com vara curta, brincar de roda, de self, de zap, de vapt, de vupt. Um livro que é um tiro, um tapa, um afago e um beijo.

Reflexão e divertimento. Tudo ao mesmo tempo.

inimigo

da rotina

que prossegue

Não é um livro para indiferentes. São poemas inquietantes. Provocativos. De uma beleza que desinstala o leitor de sua cômoda posição de observador e o coloca como agitador de novas soluções estéticas, sociais, éticas. Sem panfletarismo nem didatismo. Com pleno domínio da linguagem, da forma da palavra, da dimensão semântica, sonora e visual da palavra. Um poeta do rigor da expressão poética.

Para o Brasil com mais de 400 mil mortos, pela COVID 19, até o momento, e outro monturo de “cadáver adiado que procria”, no célebre verso de Fernando Pessoa, o poema “o homem não existe” cai como uma luva:

o homem não existe

não quer

sair

de si

nem

de si

st

ir

de (não)

ser

pra nas

cer

Arnaldo tira da forma o que a forma dá: informação filosófica, concentração significativa em alto grau. Com as três estrofes o poema, à primeira vista, constrói a figura do inquietante questionamento shakespeariano: ser/não ser. No entanto, a duplicidade da negativa na língua portuguesa é explorada como ênfase da assertividade. Não há a opção do homem existir em hipótese alguma. Ele está condenado por si e por sua circunstância histórica a não existir. É um cadáver adiado. Desistiu de ser pela inércia de sua conduta egoica, narcísica, individualista. Não quer evoluir, transformar o mundo e transformar-se. Está apático.

A grandeza do poema está em condensar todo este vasto painel de informações em tão poucas palavras. Na forma como ao desconstruir este homem zero à esquerda, desconstrói a sintaxe, os vocábulos e a própria musicalidade dos versos. Visualmente, o poema é um estilhaçamento que representa a própria condição do homem arrebentado por sua “inexistência” concreta.

Condensação semântica, visua(musicali)dade: teu nome sempre foi Arnaldo Antunes.

Do primeiro livro, há quase quarente anos, Ou e, em 1983, AA já apontava para e/ou isso e/ou aquilo, num movimento que recicla a antítese barroca num movimento dialético do neobarroco. Barroco que, queiramos ou não, está marcadamente presente nas entranhas da cultura brasileira de todas as épocas. Um fator dominante, podemos dizer. Uma dominante rizomática, que se espalha explícita ou subliminar.

Em Arnaldo Antunes ela se faz presente como herança caetânica, compositor que a assume com clareza, reciclando-a ao seu modo: “mas barroco como eu”.

Assim como Arnaldo, quase todos, na cultura brasileira, têm o Barroco embasando ou adubando sua produção.  De Oswald a Augusto de Campos, de Tarsila a  Beatriz Milhazes, de Antunes Filho a Mario Bortolloto, de Ana Botafogo a Débora Colker, de Glauber Rocha a Hilton Lacerda, de Donga a Johnny Hooker, de Pierre Vergez a Sebastião Salgado, etc., vai um Brasil neobarroco escancarado ou encoberto. Mas sempre (neo)barroco. Arnaldo e sua poesia aqui. Barroco reciclado presente. Sempre. E ou.

Seus poemas caligráficos, por exemplo, trazem para a página impressa a emoção do texto manuscrito e a configuração mecanizada do texto impresso. Ambos os recursos pulsam na página num movimento de reconhecimento, aproximação e, concomitantemente, trazem a presença do outro – a imprensa. Que chega ao leitor sendo percebida  como menos fria, menos distante – menos chaga, mais cheia de lua e estrelas.

É que agora a letra impressa vem transmutada pela “emoção da presença da letra do poeta” e não apenas pela “presença de um eu-lírico impresso em letras de imprensa”. Não é somente uma voz distante que fala, mas uma mão presente que escreve. Um corpo que se aproxima e se entrega em oferecimento na dádiva do poema que é, por si, dádiva e presente. Tempo presente. Ei-lo.

Presente enquanto aquilo que em ofertório se dá aos olhos, ao corpo. Aquilo que existe no momento atual. Que existe no instante da enunciação.

Mas também presente como enquanto mimo, regalo, colo, coisa para fazer-se lembrado/a e prolongar a beleza-maravilha daquele instante-já. 

O poema “nem sei pensei” é essa hesitação barroca de não saber, pensar, não pensar, saber, tudo desenhado, iconizado, melhor dizendo, nos movimentos do vaivém do coração e da mente, que ora balançam-se rápidos, ora suaves.

Com sextilhas e redondilhas maiores, ou seja, poema de seis estrofes com versos de sete sílabas, mais tônicas predominantes nas segundas, quintas e sétimas sílabas, num tecido tênue e elaborado, de finas filigranas, o poemas “e já que não há amor” é moldado fio a fio:

e já que não há amor

também já que não há mais dor

agora nem mel nem sal

escorre ou seca no céu

cessa sua meia-noite

cessa sua noite inteira

cessa-se o fio  da foice

do dia que lhe dá beira

cessa sua morte certa

cessa seu tempo justo

cessa-se o todo e a parte

o ar em torno do arbusto

agora não há miragem

pôr dentro ou fora da imagem

agora até mesmo a hora

de partir já foi-se embora

da cova volta à alcova

do útero volta ao berço

o filho volta à avó

o fim ao seu descomeço

só resta de si si mesmo

só resta do mundo o mundo

da  poça um poço sem fundo

da água a sede ao avesso

Apaixonado pela cultura popular, dela se valendo em seus poemas e canções.  Os timbres e as multiplicidade de instrumentos dos arranjos e os embalos rítmicos  ele aproveita nas composições. A estrofação, as rimas e os temas são recursos da poesia de cordel, do desafio e do repente que ecoam em seus poemas.

Fã de carteirinha do Tropicalismo, professa, fiel ao movimento, a inexistência de fronteiras entre erudito e popular. Poesia concreta, poesia de cordel, poesia digital são “um dia, um dado, um dedo”, pra lembrar um célebre verso da cultura popular. Este é Arnaldo, roqueiro e poeta de vanguarda, que bebe tanto no popular como no mais refinado repertório semiótico das artes.

Algo antigo se encerra com o poema que o intitula, cujos versos finais dizem: “algo / que já era / (embora / vivo) / para (agora) / ser/ um livro”. Livro que é novo elo novo  novelo e que se relança ao recomeço.

A coluna de hoje é dedicada à minha querida amiga, e também colunista do Correio das Artes, Analice Pereira, que ama a poesia e a poesia da canção de Arnaldo Antunes.

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Publicado no Correio das Artes, maio 2021, ano 71, nº 3, p.19-21. Suplemento literário encartado no jornal A União, João Pessoa-PB, domingo, 30 de maio de 2021.

As pretinhas são o melhor que há

Amador Ribeiro Neto

Ele tem 35 anos. É paulistano da Zona Norte de São Paulo. Nasceu “em uma casa bem pobrezinha. Sua imaginação foi sua melhor amiga e o fez visitar mundos incríveis, transformando-o em astronauta, desenhista, guerreiro, pirata, rei, pintor, samurai e muitas outras coisas”.

Isso quem diz é ele mesmo, Leandro Roque de Oliveira, pai de duas meninas, uma com nove e outra com dois anos de idade.  Devido às suas facilidades em rimar, seus amigos começaram a dizer que Leandro matava os inimigos nas batalhas de improvisações. Daí surgiu seu nome artístico, uma fusão de “MC” e “homicida”: Emicida.

Uma das maiores revelações do hip hop brasileiro da década de 2000. Um rapper, compositor e cantor que rapidamente ganhou o reconhecimento público e da crítica. Na levada de sua criatividade, logo preencheu de sentido as iniciais de seu nome artístico: Enquanto Minha Imaginação Compuser Insanidades Domino a Arte.

De “Triunfo”, sua primeira aparição na mídia, até “AmarElo”, seu mais recente trabalho, Emicida tem colecionado não somente elogios, como tem diversificado sua linha de trabalho. A partir da canção “Amora”, feita para sua primeira filha, escreveu seu primeiro livro infanto-juvenil, homônimo, publicado este ano pela Companhia das Letrinhas, com ilustrações de Aldo Fabrini.

Com o isolamento social advindo da Covid 19, Emicida começou a produzir queijo e hoje não somente abastece o mercado local, como já atende a pedidos de mais longo alcance. No meio disso criou uma grife de moda e tem já o projeto de uma revista de HQ, já que desenha e conhece as HQ como poucos.

Para um garoto que viu amiguinhas de escola sendo estupradas e mortas, amiguinhos assassinados, que passou fome e vagou pelas ruas enquanto a mãe trabalhava como empregada doméstica, já que o pai, alcoólatra falecera quando tinha seis anos de idade, ele foi distante. O título de uma mixtape, de 2009, é significativo: “Pra quem já mordeu um cachorro por comida, até que eu cheguei longe”.

O bom humor e o mais sublime lirismo sempre estiveram presentes na obra de Emicida. Mesmo quando a ordem era denunciar as mais caóticas, inviáveis e desumanas situações sociais. Sabe pôr o dedo na ferida sem a agressividade que só distancia e assusta o público. O viés de denúncia de sua obra faz refletir e intenta a mudança.

Brincando, até repórter ele foi. No programa “Manos e minas”, da TV Cultura, e no “Sangue B”, da MTV, pegou o microfone e reportou. Sem jamais deixar a música e a poesia, tá ligado? Tanto é que em 2015 seu nome chegou ao Grammy Latino na categoria de Melhor Álbum de Música Urbana.

Atualmente está todas as segundas, ao vivo, na telinha da TV, no programa “Papo de segunda”, do GNT. Opina sobre temas do momento, com bom humor, simpatia característica e aguda consciência social. Sua inteligência e facilidade de verbalização destacam-se a cada programa.

Lançar um livro infanto-juvenil não surpreende. Em especial para quem tem como projeto o princípio didático de cidadania plena: “Precisamos encontrar palavras inspiradoras, positivas e convidativas que façam com que as crianças tirem conclusões por elas mesmas”.

E é isso que ele põe em prática, com desempenho e competência admiráveis, em seu livro “Amoras”. A frase de abertura é um verso poético que salta em beleza e fica pedindo que o leitor se detenha um pouco mais. Que curta, que entre em si. Que pare o tempo por um momento. Que se desvincule dos compromissos com a realidade. E que se permita voltar a ser a criança que traz adormecida em si.

Se o leitor aceitar este convite, já é um presentão que se dá.  

O livro inicia-se assim:

“Não há melhor palco

para um pensamento que dança

do que o lado de dentro

da cabeça das crianças”.

E a narrativa corre na leveza da poesia e no encanto da relação de um pai com sua filha. Ambos estão sob uma amoreira e ele lhe explica que “as pretinhas são o melhor que há. Então a alegria acende os olhos da menina”. E o mais não digo porque não traio narrador de histórias – e muito menos a poesia.

Mas a verdade é que Emicida conta a história de uma menina e seu pai, numa conversa aprazível, leve, maneira, recheada de elementos da cultura. Há os religiosos: o budismo, islamismo e culminam nas religiões africanas. Há os histórico-sociais: Zumbi dos Palmares, Martin Luther King. Há… etc. e etc.

As ilustrações de Aldo Fabrini são o outro lado do livro. Têm autonomia e criam um novo modo de ler a história. Assim, sem se distanciar do eixo da narrativa central, apresentam uma complementação e não um mero espelhamento do que o autor diz. Assim, não pode ser desvinculada do texto escrito sob pena de empobrecimento do livro. Da capa à quarta capa, ilustração e texto formam uma unidade que agrada, diverte, faz pensar e sentir belezas.

  Ainda falando das crianças, Emicida disse num depoimento: “Se a gente conseguir criar um campinho de força em volta delas para que elas tenham suas convicções de igualdade preservadas, conseguimos pontuar que quem ataca qualquer diferença que duas pessoas tenham, essa pessoa é que está errada”.

“Amoras” é um livro afetuoso e poético sobre o universo cultural negro. A identidade das crianças negras é seu ponto chave. Pensado e escrito com a mais sublime delicadeza. Aquela que só a alguns poetas é dado ter. Emicida em “Amoras” é um desses.

(Este texto é dedicado a Laís Vitória Gonçalves Ferreira, 10 anos).

Alberto B

Isolamento social, ventilação e apineia

Amador Ribeiro Neto

Quando o poeta Alberto Bresciani escreveu e publicou Fundamentos de ventilação e apneia (S. Paulo, editora Patuá, 2019), ainda não se falava em coronavírus. Porém não deixa de ser indicial que a literatura mais uma vez antecipe a realidade. Senão, consideremos o que uma das estrofes do poema “Metabolismo” pontua:

Pode ser que um vírus se espalhe,

Uma brand new de gripe

Todo acaso pode ser letal

 Me lembro que o saudoso Bóris Schnaidernann, em uma de suas aulas, nos dizia que o cinema existe na literatura antes de ser inventado pelos irmãos Lumière, com os planos de câmera, iluminação, fade out e fade in, etc. Iúri Lótman, pai da Semiótica Russa, na mesma direção, não hesita em afirmar que as artes antecipam as tecnologias.

Bem, falávamos da poesia de Alberto Bresciani, e é o que importa aqui. Seu livro, desde o título é um feliz achado em qualquer época. Nesta nossa, de isolamento social e afins, ganha especial realce. Friso: sua poesia não é destinada apenas a este momento, a esta circunstância: ela transpõe o agora porque é: 1. linguagem poética transtemporal e 2. imersão na condição humana. Ou como diria Pound: linguagem carregada de significado.

O livro de Bresciani possui duas partes/dois pulmões: 1. Ventilação espontânea e 2. Apneia. Ambas são coloquiais mas têm, no entanto, distintas dicções poéticas. E tal procedimento oxigena o livro. Lembro-me que comentando Incompleto movimento, livro de estreia do poeta (2011), escrevi: “A poesia de Alberto Bresciani tem um dos pés na busca do coloquial e outro na tradição clássica. Ora acerta, ora não. Ele parece almejar uma descontração da linguagem, mas tolhe-a com construções que lembram a poesia canônica bem comportada. Aquela poesia que nos remete aos neoclássicos, aos parnasianos e até – parece paradoxo – aos simbolistas”.

No livro seguinte, Sem passagem para Barcelona (2015), ele faz uma transição entre o primeiro e o agora lançado. Pois Fundamento de ventilação e apneia vale-se da mais fina linguagem coloquial e poética sem nenhum cacoete literário. Lê-se o livro com desembaraço e leveza tais como se estivéssemos numa sessão de cinema assistindo a um bom filme. E, se faço a comparação com cinema, ela não é gratuita. Desde o livro de estreia, o mundo imagético é uma das dominantes da poesia brescianiana.

Na primeira parte, o tratamento literário, para valer-me aqui de uma expressão cara a Cortázar, tinge-se de tal naturalidade que lemos os poemas em um ritmo que chega a dispensar seus títulos. A poesia flui em música e imagens. A narratividade é de tal forma fluida em ritmo e melodia, que o tema se faz música e dança para o leitor.

Mas há o outro lado da moeda. O medo do inevitável, a crueldade da evolução dos acontecimentos e a inexorabilidade da sequência dos fatos apavorantes ganham igualmente os sentimentos e a cumplicidade de quem lê. A forma poética imanta.  Há desespero e regozijo, febre e gozo, temor e alívio. Pode o leitor vivenciar a catarse, ou o distanciamento brechtiano. Depende de seu grau de consciência/vivência poética. De toda forma – com ou sem trocadilho –, a arte pulsa e impulsiona-se enquanto provocação. Regozijo ou flagelo, cabe a cada um.

Versos como

          E então um tombo da cama para a vala

             de corpos passados nos desperta,

             assusta e empurra e estamos de pé

são um cutucão no leitor apático, ou ao menos, desligado. O que ele fará com este desenredar-se, só a ele lhe cabe. À poesia, a sequência de vogais fechadas (poucas) e abertas nos versos acima, bem como as consoantes línguo-dentais e bilabiais entre surdas e sonoras, desenham o tombo e o abrir-se para o despertar do novo mo(vi)mento.

No poema a seguir, a urgência do aproveitamento de cada instante faz-se na brutalidade de atos desesperados de felicidade.  O poema que leva o nome de um multicolorido peixinho moçambicano de apenas 6 cm, “Nothobranchius Rachovii”, traz a convocação sob forma concisa, leve e breve:

Façamos como killifishes africanos

: que explodem as cores mais violentas,

Cuspamos agora todo som, ódio, fúria


Sabemos que tudo se vai à brevidade

de um único ano e nossas vidas nunca

terão a chance de beber outra chuva

A segunda parte, igualmente narrativa, ao abdicar da terceira pessoa e da fluência rítmica, opta por abrir mão de alguma indagação e mistério. E por trabalhar certa cadeia de sons com mais cadência. 

Agora as emoções nascem de um eu que fala, via de regra, diretamente ao leitor. Mas como aquele é também alguém interessado, parte do problema, a empatia se estabelece com rapidez. Embora com menor taxa de adesão. A dicção da voz poética, ainda que em alta, tem menor amplitude que na primeira parte.

Esta parte, ao ser aberta com uma epígrafe dúbia – “Que a vida não tinha cura, / o tempo me ensinou, e mais tarde” – orienta-se com seguidos movimentos de oxigenação e sufoco, ventilação e apineia. A epígrafe desenha os movimentos que esta seção terá. Poemas como “Escape” e “Corvos” desenham o percurso da vida que se afirma e se nega, avança e retrai, pois a vida não é unidirecional.  Antes: é complexa, bastante complexa – e os tempos, côncavos e convexos.

Escape

Tanto rumor nos ossos e ainda

Esperamos a válvula, alavanca

Que desarme, alavanca

Que desarme artefatos fatais,

Espalhados pelos companheiros

De causa, doces irmãos, pais

Erga-se o velame, abra-se o ar,

Venha outra voz, convencimento

De que vale ainda respirar

Neste mundo ou em outro plano

Imaterial, se mais houver além

De nervos vocacionados ao fim

Retorne o tempo gasto no nada

E reconheçamos nossos quartos,

Feridos e mortos, os fantasmas,

Por mais que relutem em abandonar

A cena de sangue que nos retrata

Acreditar pode ser o estopim da queda.

Corvos

Não via os corvos,

mas eram corvos,

prendendo o tempo

E eu criava pombos

Quando você saiu,

as sombras

tinham penas negras

e ficaram pela casa,

pela garganta,

as suas penas

Ontem entendi

e acendi a luz.

Eis uma das belezas de Fundamentos de ventilação e apneia, de Alberto Bresciani: colocar a palavra em primeiro plano, privilegiar o lugar da linguagem poética e, concomitantemente, anexar elementos essenciais da vida pessoal e social. De hoje? De hoje e de sempre. Pois sua poesia não é didática e sequer datada. A atemporalidade é sua marca histórica. Ela é aliada do leitor que busca ver beleza.

Ver beleza é afundar os dedos no peito até alcançar o coração com as mãos quentes e acolher-lhe os pulsares: os todos-inteiros e os quase-quereres.  As migalhas trituradas e as dores de imensos vermelhidões sangrando coágulos. A beleza da entrega e da recusa. Do amor e da indiferença. Do temor e da licenciosidade. Do mar e do semáforo fechado. Esta é a oferenda, o ofertório, o dom, a dádiva do mundo de poesia que Bresciani nos brinda com ventilação e brisa.

Beleza para todos os tempos, num livro maduro, elaborado, sólido – e, acima de tudo, muito bonito.

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Publicado no Correio das Artes, suplemento literário do Jornal A União, maio, 2020. Ano LXXI – Nº3, p. 38-40. Encartado na edição do jornal de 31 de maio de 2020.

Mostruário mundo: a poesia de Letícia Palmeira

Amador Ribeiro Neto

Letícia Pereira nasceu em São Paulo, em fevereiro de 1976. Mudou-se para João Pessoa em meados dos anos 80, cidade em que reside atualmente, e passou a escrever livros e diários de forma incessante. Além de publicar livros nos gêneros conto, crônica, novela e romance, a autora organizou e participou de diversas coletâneas e antologias.

Em 2019, com a publicação do livro “ Mostruário persa”, invadiu, à sua maneira, o vasto universo da poesia.

Escrever é o princípio, diz autora, sempre que é questionada sobre literatura em entrevistas.

”Mostruário persa” é delicado e encantador artefato desde o projeto gráfico. Daqueles livros pequenos, mas não tão pequenos a ponto de se colocar no bolso.  Nem do tamanho normal, a ponto de não caber confortavelmente na mão.

É de um vermelho pitanga na capa e possui um orifício de fechadura naquele ponto exato em que a fechadura se instalaria se a capa fosse uma porta. No orifício vê-se desenhado, a bico de pena, apenas o contorno de quatro objetos, cada um de uma cor, e circundando o olho mágico da fechadura, quatro arabescos que dançam destacando os nomes da autora e do livro. No centro de tudo, e embaixo, a vela, o ícone da editora Penalux, foi parar dentro de um candeeiro. Perfeito A imagem da capa é da Luyse Costa. Luyse é uma das grandes capistas do mercado editorial hoje.

Depois de vista e lida a capa, a Apresentação, assinada pela própria poeta, encerra-se com um convite: “Entre e encontre seu artefato”.

O leitor entra, desliza e deslinda-se em beleza. Encontra seu artefato logo de cara, e logo o perde porque encontra outro mais belo. E o perde também porque há outro, sucessivamente, mais belo. E, como numa espiral ascendente, perde, acha, etc. e etc., espiral afora.

No entanto, o leitor não somente está dentro de uma espiral, mas também dentro de um caleidoscópio que se move. Move-se e reflete. Reflete e refrata as partes.  As partes e o todo, tal como a poesia procede, age, atua. FAZ. A “poiésis” da poesia.

Tudo se move, reflete, refrata, dentro de um caleidoscópio, dentro de uma espiral… Transcinematográfico. Holocinematográfico.

Assim, “Mostruário persa” dá-se como um livro de poesia sobre a linguagem da poesia.

Mas também pode ser o contrário disso, nada disso, se estamos acostumados com poesia em verso, com poesia em imagem, com poesia visual, com poesia verbo-voco-visual, com poema em prosa, com proesia, com proema, com prosa porosa, com poesia rimada, com poesia de verso branco, com miniconto,….

Da mesma forma, se estamos acostumados com metalinguagem, como o poema referindo-se ao próprio poema, o poema enquanto objeto do próprio poema, e conceitos afins, talvez seja interessante repensemos também este conceito. Antes de mais nada, porque estamos repensando o conceito de poema, de poesia, a partir deste livro de Letícia Palmeira.

Em tempo: não nos propomos, e seria quixotesco fazê-lo, repensar tais conceitos aqui e neste exíguo espaço. E espaço de leveza (risos). Apenas toques.

O interessante é que Letícia Palmeira, com “Mostruário persa”, livro de poesia, coloca em cena tais questões. E aí reside seu mérito e seu nó górdio.

Nó górdio porque – e aqui recorro ao termo ‘texto’ a fim de não ser contaminado por nenhum outro já carregado ideologicamente – seu texto não se encaixa, “a priori”, nem em poesia em prosa e muito menos em miniconto.

O que se lê de poesia em prosa é, via de regra, prosa vazada por esfarrapadas características da linguagem poética. O resultado acaba sendo, na melhor das hipóteses, um poema ainda fortemente prosaico ou uma prosa carregada nas tintas da poesia. Em suma: um produto final marcado pela indistinção: não diz ao que veio. De Baudelaire, que inaugurou o estilo, aos mais duvidosos dos cadernos culturais digitais de hoje, como bem nota o poeta e ensaísta Paulo Toledo, é um “imbróglio” só.

Letícia Palmeira passa ao largo disso.

Seu mérito mora em fugir dos minicontos que buscam registrar em  micronarrativas, lapsos poéticos: o estranhamento, a ambiguidade, o andamento melódico, a construção icônica, etc. Resultado: querem unir a objetividade da prosa com a ambiguidade da poesia. Raríssimas vezes o hibridismo funciona. Na maior parte dos casos e causos, o produto é um ornitorrinco verbal.

Em “Mostruário persa”, o texto é uma narrativa, possui eu-lírico, e em várias passagens pode ser classificado como neorromântico. No entanto, não é piegas, não foge à realidade, não é saudosista, não é sentimental, não é onírico, nem edênico. Talvez seu romantismo repouse no elogio e na invocação que faz da inspiração, quando se levanta contra o uso puro, simples e frio da técnica. E no andamento imagético e rítmico de algumas passagens que remetem o leitor ao estilo clariceano, um estilo com tiradas neorromânticas.

No poema 3, intitulado “Dialética”, o leitor vai se dar conta de que a ironia é fino, elegante e sofisticado recurso da poeta.

A ironia, por si, companheira das dissimulações e prima das astúcias, está presente neste poema, desde o título e a epígrafe, que cito: “Escrever é liberdade de expressão / Liberdade vigiada / Mas não deixa de ser palavra / E palavra diz quase tudo / Ou quase nada”.

Na sequência, o poema enumera algumas características do escritor: o escritor quadrado, “da narrativa ensaiada e equilibrada com rede de proteção”. É o tecnicista, que não ousa nunca e, ao contrário, aplica os manuais de “bem escrever”, disciplinadamente. Outro tipo: o escritor plantonista instantâneo: capta a palavra que lhe vem à mente e não a trabalha. É o produto bruto, fruto puro de um “insight”. O terceiro tipo é o escritor ambivalente, aquele que adora um trocadilho barato. Não percebe que o trocadilho da literatura é de outra verticalidade. O quarto tipo é o escritor saliente. “Caminhando, fingindo displicência, cresce feito erva daninha. Esse tipo é aparente e enche a boca de dente e má-criação, invadindo a arte cheio de vaidade com seu clamor por ser aplaudido”.

E depois de citar os quatro tipos – curioso como ela não fica com os já canonizados “três tipos, três modalidades, três funções, três etapas, etc.” e nem completa os redondos “cinco”. Prefere morrer nos “quatro”, talvez para ironizar a “tradição”. E então conclui com uma frase bombástica que lhe rende um único parágrafo:

“O mundo está cheio de nós”.

Bem entendido: nós enquanto pronome pessoal (e aí o eu lírico se incluiria, ironicamente) e nós enquanto substantivo (funcionando metaforicamente) – outra ironia, que envolveria escritores e leitores.

Finalmente, depois de breves considerações, conclui seu poema com essas tiradas: “Eu, por defesa, jamais me denominaria escritor. Não é meu ofício. Tudo o que faço é ´por distração, pois sou prolixo, genioso eu-lírico, e escrevo apenas pra esboçar sorriso frente à plateia de prontidão”.

Poesia da mais fina cepa. Metalinguagem, linguagem e significado. Tudo somado em alta voltagem. Tem o que dizer, tem a forma de dizer, tem o modo de se comentar.

Enfim, o leitor lê, se diverte, se instrui, sabe mais, tem mais.

Sente que o que lê tem mais sabor, dá mais prazer.

Literatura é isso aqui.

Entre neste mostruário e vá escolhendo seu artefato. Agora foi o poema 3. Entre mais.

O poema 5, intitulado “Artesã” é um rol de promessas feitas a si próprio pelo eu-lírico. E a cada atividade exercida, o leitor vai vendo nascer à sua frente um eu metamorfoseante e bem curioso. Religioso, conservador, piegas, infantil, doce, humilde, ingênuo, etc., até que se depara, por exemplo, com um empenho assim: “vou expandir minha contínua hipérbole de ser”.

E algo soa estranho. Fora do lugar. Fora da ordem. Fora do pensamento. Fora do trivial. “A hipérbole de ser”:  o que significa? Se “ser” já é uma grande questão existencial, para não dizer filosófica, que dizer da “hipérbole de ser”? E abrindo mais o verso: “minha contínua hipérbole de ser”. Há, então, um projeto continuado da hipérbole de ser? E abrindo todo o verso todo: “vou expandir minha contínua hipérbole de ser”. Esta promessa de explosão galáctica de ser, lança o eu lírico para além do que enunciado, já que a reverberação sonora (com licença, leitores, mas não é complicado e é rapidinho….) eu dizia, a reverberação sonora da bilabial de /p/ e /b/ em “ex/P/andir” e “hi/P/ér/B/ole” associada às toantes (= vogal tônica) em /i/ de “expand/I/r”, “m/I/nha”, “cont/Í/nua” lançam o objeto-desejo para esferas nunca dantes sonhadas, para espaços siderais ainda mais infinitamente infindos.

Escute o som mudo das bilabiais /P/ e /B/ associadas às vogais tônicas agudas /I/ no espaço sideral.

Agora pense no ganho de ambiguidade de sentido das palavras associado à musicalidade, a imagética poéticas.

Pronto. Eis a força da poesia, seu tempo, lugar, espaço, aço e flor.

Eis o diferencial da poesia de Letícia Palmeira e seu “Mostruário persa”.

Há tantos artefatos neste mostruário que ele já é armazém, venda, empório, vendinha, casa sertaneja, mercado, entreposto, alojamento, casa, museu. Morada da palavra. Morada da palavra. Morada do ser. Morada da poesia.

Ficar de olho no olho mágico da porta, no portal da capa do livro é um eu e eus nos acudam, deus nos livre-livro nos seduz e por isso portas se descortinam abertas. Signos se alçam no ar de cada arabesco, feito em sol, em sonho, em si. A realidade pede mais. A poesia, matéria viva, em beleza estende a mão. Na mão um livro pulsa. A poesia toda pulsa. No meu peito, no meu coração, na minha mente. No peito e no coração siderais, espaços infinitos afora. Ninguém segura a belezura da poesia sem dono deste mundo redondo sem fronteira.

Irresistivelmente gostosa

Amador Ribeiro Neto

Rosana Piccolo é poeta paulistana inquieta, provocativa e inovadora.

Nunca havia lido um livro seu, até que me caiu nas mãos “Bocas de lobo” (Patuá), num desses envios gentis do Eduardo Lacerda. De cara ela escancara o mundo dos usuários crack, os vaga-lumes vagando, no cenário de devastação urbana de uma tristíssima São Paulo, cidade tomada como tema do livro. E me ganhou de cheio.

Rosana Piccolo (São Paulo, 1955), é formada em Filosofia pela USP e em Jornalismo pela Cásper Líbero. Além de “Bocas de lobo” (2015), publicou “Ruelas profanas”(1999), “Meio-fio” (2003), “Sopro de vitrines” (2010), “Refrão da fuligem” (2013) e “O pão” (2018). Todos de poesia. “Alla prima” (2019, Patuá) é seu mais recente livro.

Depois de lido o livro recebido, saí atrás dos demais. Por isso digo: Rosana Piccolo é poeta de uma obra de leitura imprescindível, apaixonante, inquietantemente gostosa e arrebatadora.

Ela não se cansa de reinventar-se. E de nos cutucar em nossos sentimentos e criações.

Criações de arte, de poesia, de vida.

“Alla prima” é uma antologia do que a própria poeta considera o mais representativo de usa produção. Além de poemas inéditos. Tudo reunido indistintamente. Misturado. Quem não conhece a obra de Rosana não distingue o inédito do publicado. Não faz mal. Critério único: qualidade poética.

Poesia em sincronia. Poesia em sintonia. Poesia em harmonia.

O resto que se exploda.

Rosana Piccolo quer mais galáxias e estrelas em redes infinitas de gozos sígnicos. Corpos em cópulas.

Num primeiro momento, como no primeiro sexo, o leitor pode perder o chão. Não por desorientação. Mas por encanto imenso. A perda do referencial por imersão total nele. A perda de si por adentrar-se absoluto no outro. E o alter. É a poesia.

Esta entrega, por um instante, é o “inestante”.

Dura um quanto imensurável.

Tempo. Tempo. Tempo. Um senhor tão bonito quanto a cara do Bernardo, meu filho.

Eu vivencio esta belezura pura pureza.

Puro azul celeste celestial.

Você vive esta belezura pura pureza.

Puro azul celeste celestial.

Sem saber.  Sem sabermos. Imersos nela.

Total. É a poesia da Rosana Piccolo. A seda azul do papel que envolve a maçã.

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“Cerimônia do chá”

Em uma dessas vitrines, dubiamente iluminadas

pela hora mágica, pode ser visto o tatame.

O braseiro rivaliza o pôr do sol. Fumega o incenso,

fumega sem fim. A caligrafia da chuva já foi removida.

Rente à parede, nasce o ikebana da nova estação.

Possível ver os convidados, três ou quatro.

E o gestual do anfitrião – lá fora assoviam sacis,

arrepio no crânio das cerejeiras. O vaso, a cumbuca,

utensílios de nome poético foram retirados do recinto,

de entrada tão pequena que o samurai aí se agacha,

espadas do lado de fora.

O chá é vulcão adormecido: por um tremor derrama

o perigo, e queima, e dói, e não é? Há também a estampa

dos quimonos, cuja flor é tão perfeita que a natureza

não soube imitar.

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A poesia de Rosana Piccolo tem a força mágica de lançar o leitor no vaivém intergaláctico das mais inusitadas combinações de: 1) sentidos; 2 sensações); 3) músicas; 4) formas; 5) ideias; 6) gozos; 7) complete você mesmo… 

O leitor estanca para, passo seguinte, emergir-se em alumbramento.

Este auto-encontro entre o que sente perceber e o que percebe ser, desenha uma dinâmica que, ah!, susta-lhe a respiração – ora em fôlego curto, ora sem fôlego algum.

Magia medra o devaneio. Mas também a certeza.

Quem sabe o que é poesia, quem penetra seus mistérios e materialidades, seus meandros e geometrias, quem penetra suas reentrâncias e saliências, convive com sua essência, sua rarefação e concreção, seu gole de absinto e porção de alfenim. 

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“Diário do dia”

O dia chega aos trancos, nas presas da serra elétrica.

Com negra gordura vela o semáforo, britadeiras

latejam no chão difícil. Detém-se no arranha-céu.

E empilha suas dentaduras de prata.

Chega estridente. E vocifera, e machuca a manhã

de tímpanos frágeis. Na chaminé desabafa,

mistura gel e fumaça – penacho de pressa

nos cafés expressos.

O dia saliva nas filas. No comedouro do meio-dia

e meia, onde a carne esfria; e se requenta

em banho-maria.

E desaba. E pisoteia letreiros, esquinas desencantadas.

E se enrodilha nas placas como fio embaraçado. E se

estica, e se esgarça

meu coração aos soluços.

Enfim o rapto da noite – ascende em bicicletas

e pombos recolhidos – na praça dos meu lagos,

onde enterro o céu no chão.

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Às galáxias destas sensações e maravilhamentos vêm somar-se a estupefação e o encanto dos que são tomados pelo amor.

1. Amor à linguagem da poesia, antes de tudo.

2. Amor à vida, acima de tudo.

A coreografia dos signos em dança desenha, passo a passo, passo sim, passo não, o compasso & o descompasso das: (a) ideias; (b) sons; (c) imagens.

à tudo em close à tudo em uníssono à tudo em foco à tudo uno & múltiplo & plural.

PORQUE em Rosana Piccolo, cada poema é sempre lido como o primeiro, o inicial, o único. Mesmo que já lido, é como se pela primeira vez, tal seu grau de inventividade. Mesmo que você o conheça, lê-lo é partir do grau zero da leitura. E isso o faz obra prima, isso o faz ser como o primeiro, daí o título desta antologia que já nasce admirável.

Lê-se Rosana Piccolo e sente-se inspirado. Com vontade de fazer poesia – se você já é poeta ou com vontade de ser. Ou se você está lendo o Correio das Artes, isto já é um sinal de que você lê livros com muitas coisas escritas, considera a arte e os artistas importantes e etc. e tantas coisas óbvias mais…

Voltando. O leitor sente-se inspirado ao ler Rosana Piccolo, tal como desejava o querido Valéry, para quem o poeta não tinha de se sentir inspirado. Isso não dizia muito para fazer boa poesia. Sentir é pouco. É preciso dominar a arte da linguagem da palavra para fazer poesia. Se sentir bastasse, os bares estarias lotados de excelentes poetas. E não é bem assim. Mas esta é conversa para outro CEP 20.000.

Rosana Piccolo faz poesia à flor da pele & à flor da mente. O intelecto premiado pela sensibilidade de formas que informam e seduzem. Ideias em parceria com os sentimentos. Inventividade e emoção. Por isso vale a repetir, leitor: eis uma poesia inovadora e irresistivelmente gostosa de ser lida – melhor: irresistivelmente gostosa de ser devorada.

Publicado em CORREIO DAS ARTES de janeiro de 2020, Ano LXX, Nº 11. Suplemento Literário do Jornal A União. João Pessoa-PB, p. 23-24.