Hinos matemáticos

Amador Ribeiro Neto

 

Marco Lucchesi (Rio de Janeiro, 1963) é professor da UFRJ, poeta, romancista, ensaísta, tradutor, crítico literário, memorialista, missivista, roteirista, organizador de antologias, organizador de obras, editor de revistas literárias, membro da ABL. Foi contemplado com vários prêmios nacionais e internacionais. Tem livros traduzidos para o árabe, romeno, persa, russo, turco, polonês, híndi, sueco, húngaro, urdu, bangla e, claro, inglês, francês, alemão, espanhol e italiano. Publicou, os seguintes livros de poesia: Bizâncio (1997), De passione (2000), Alma Vênus (2000), Poemas reunidos (2001), Sphera (2003), Meridiano celeste & bestiário (2006), Clio (2014). Hinos matemáticos (Rio de Janeiro: Dragão, 2015) é sua mais recente publicação.

A poesia de Marco Lucchesi é de um lirismo arrebatador. Poucos conseguem, como ele, aliar erudição e leveza, ciência e sentimento, matemática e amor. Assim é, e não poderia ser diferente, em se tratando do poeta que é, Hinos Matemáticos, um livro que desafia o leitor com fórmulas matemáticas poucamente esclarecedoras. Mas com formas poéticas abundantemente tocantes.

Uma poesia que nos rememora a velha lição valéryana: poesia e matemática são duas abas do mesmo chapéu. Mas Lucchesi vai além da simples equação aritmética. Interessa-lhe a musicalidade contida na matemática. Aquela mesma música a que toda poesia aspira ser. O “espólio inabordável entre 0 e 1”,  como enuncia o poema “Busca do ouro”.

As imagens sucedem-se numa espiral que toca os mesmos pontos. E neste apoio conhecido, impulsionam-se pra novos volteios.

 

E as formas que não cessam

de crescer

 

Delírios fugazes

Líquidos lampejos

 

dizem os versos finais de “Solilóquio fractal”. O espaço em aberto. Expandindo-se. E isomórfico a ele, a poesia. Formas, delírios, lampejos: o leitor percorre galáxias em movimentos e banha-se num erotismo riscado a arpejos de luz e gozo.

O poema que abre o livro incandesce caminhos do devir. Cito “Canteiros”, na íntegra:

 

Um fósforo desata momentâneo

os fios de uma noite sem estrelas

 

No céu azul de Samos

voam ímpares.

E os pares sobrenadam

nas águas do Ilissos

 

O jardim

o conjunto de canteiros

E a floresta sombria e ilimitada

 

Como domar a astúcia do infinito?

 

O fósforo não acende, não ilumina: desata os fios de uma noite escura. Os raios do fósforo são os fios que, ao invés de clarear, ampliam a dimensão do escuro. Entre estes versos e os finais há a ilha grega de Samos, seu rio Ilissos, os canteiros do jardim, a floresta “sombria e ilimitada”. A ilha: locus de suspensão da vida. O rio antigo, hoje canalizado e subterrâneo: a dimensão espacial do lado de lá. Para além dos olhos. No entanto, tão próxima aos pés.

Depois do poeta construir a imagem sideral na progressão de “jardim”, “conjunto de canteiros” e, por fim, “a floresta”. Como se não bastasse a vastidão em si, é uma floresta “sombria e ilimitada”. Quer seja: o desconhecido dentro do desconhecido dentro do desconhecido.

Por fim, o verso que encerra o poema projeta este espaço como indomável em seus ardis, argúcia e sagacidade.

Estamos diante de um poeta que soma a matemática à vastidão do espaço – e configura-a na mais delicada poesia. Em filigranas do sublime.

Esse é o movimento presente em todos os poemas. Próximos e distantes. Perto e desconhecidos. A matemática e a palavra. Duas fontes de força bruta. O homem busca entendê-las para cantá-las. O poeta mergulha na estética da matemática para, nela, situar e localizar sua poesia. Daí o título do livro: Hinos matemáticos.

O poema “Primeira prova” orquestra a busca desta música precisa:

 

Orquídeas

resplandecem

no quintal

A geometria

de fogo

de suas pétalas

e a forma

do silêncio

em que se apoiam

Trago

o coração perdido

e os olhos tersos

da breve epifania

Toda flor

desponta

no seio do silêncio

e ao seio

do silêncio

acorre e se dissolve

Lembro

de Hardy

indo ao

fundo

silêncio

dos gregos

Teoremas

         cheios

   do frescor da beleza

          de quando foram descobertos

Dois mil anos

e sequer

uma ruga

em seu puro semblante

(Euclides

e a infinidade

dos números primos

Pitágoras

e a raiz quadrada

irracional de dois)

Os desenhos

                  do matemático

     e do poeta devem

                                         ser belos

Flores

teoremas

desmaiam

em súbitos

jardins

sob                              crepúsculos

fugazes

A beleza é a primeira prova

                   da matemática

 

 

Como consta das Notas que acompanham o volume, os versos em itálico são extraídos de Em defesa de um matemático, de G. Hardy.  No Posfácio intitulado “A espiral e o sonho dos meninos”, o poeta explica que “a ideia de beleza na matemática, que se encontra em diversos autores, como Hardy ou Poincaré, causou em mim grande impacto. Como se me deparasse com uma verdade perdida, um substrato arqueológico que me parecia estranhamente familiar e decisivo”.

Um vetor de leitura possível para este livro é seguir as orientações do poeta nas imprescindíveis Notas e no esclarecedor Posfácio. Todavia, isto não impede que uma outra leitura se faça na contramão destas orientações. É aquela leitura em que o eu lírico desenreda-se do estrato matemático dos poemas e mergulha nas epifanias das imagens em alumbramentos de sons e sentidos. Outros sons. Outras imagens. Outros sentidos. Para além da matemática. Para dentro da poesia em si.

Esta navegação, que se norteia pelo hino, pelo canto, pela enunciação dos significados por vir, é a do encantamento que a música produz nos ouvidos e nas sensibilidades. A entrega da beleza em estado de graça. Sem preço algum. Sem merecimento algum. Entrega da poesia em revelações inusuais. Revelações de pura entrega e vasto gozo.

Então, mergulhado nestas galáxias de imagens (sonoras, visuais e semânticas), o leitor chega ao cerne da matemática sem a necessidade dos teoremas e das teorias. É quando o poema “Lendo Hadamard” ganha as ganas do leitor tomado pela beleza lírica dos poemas de Marco Lucchesi. Cito-o na íntegra:

 

Perdem-se os primos {venerandos números}

quando num bosque em plena madrugada

sob a lira cintilante de Orfeu

põem-se a bailar mais bravos e dispersos

 

O imaginário

{nuvem     bosque      pensamento}

é o atalho cristalino da matemática

 

 

A poesia vence. Entendemos o poeta quando diz: “o vínculo entre a beleza e a matemática há de trazer novos ventos para as matemáticas no Brasil, rompendo uma cláusula de barreira cultural. O direito dos meninos e das meninas de sonharem nos campos do pensamento matemático”.

Somos todos meninos e meninas. O sonho da poesia é nosso mundo.  Obrigados ao poeta pela sua imensa poesia. Galáxia entre galáxias que nos leva a imensuráveis espaços – de caos, de exatidão, do fractal, do geométrico infinito. Espaço sideral de enternecedor lirismo.

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A máquina de existir, de Fabrício Marques

Amador Ribeiro Neto

 

Fabrício Marques (Manhuaçu-MG, 1965) é mestre em Teoria da Literatura e Doutor em Literatura Comparada pela UFMG. Professor, jornalista e poeta. Autor de Marquises (1992), Samplers (2000), Meu pequeno fim (2002), A fera incompletude (2011). A máquina de existir (S. Paulo: Pedra Papel Tesoura, 2018) é seu mais novo livro de poemas.

O que se destaca, de chofre, ao término da leitura de A máquina de existir, é a gratificante sensação de ter-se lido uma obra que mantém a excelência da qualidade dos poemas de ponta a ponta. E, ao fazer tal afirmação, reitero a observação do saudoso Carlos Felipe Moisés nas orelhas.

Destaco este aspecto porque já é lugar comum afirmar-se que todo livro tem seus altos e baixos. Praticamente impossível fugir desta destinação. Pois a poesia de Fabrício Marques atinge a maturidade. E o leitor é o grande presenteado.

Com poemas longos, bem longos, outros mínimos, um poema em prosa (proesia), e numa variedade temática que vai das memórias familiares ao sexo com a amada, passando pelas tecnologias (seus recursos, sua terminologia), o livro é uma máquina de engendrar sensibilidades inteligentes.

A linguagem dialoga com a literatura (Drummond, em especial, Bandeira, T. S. Eliot, Valéry, Mário Faustino, Affonso Ávila, Leminski), a música popular (Caetano, destacadamente, mas também Gil, Torquato), as artes plásticas (Hélio Oiticica, Volpi), filosofia (Ortega y Gasset, Nietzsche).

Na composição dos poemas a estrutura está, de tal modo bem incorporada às ideias que, praticamente, passa despercebida. Mas, lá estão, em intertextualidade formal, recursos advindos de diferentes artes: cinema, arquitetura, canção, pintura.  Antonioni, Saura, Le Corbusier, Cartola, Tarsila.

A dicção drummondiana, ora às claras, ora oblíqua, talvez seja a dominante do livro. O grande poeta mineiro é invocado no ritmo dos versos, na invocação do universo familiar e, acima de tudo, na percepção corrosiva da vida. Corrosão que, por vezes, traveste-se de ternura, para amenizar seu impacto. Mas resulta, sim, em amplificação da angústia.

O poema “Uma noite” inicia-se esperançoso: “Ela voltará para casa / e eu a reconhecerei de longe”. E conclui-se de forma aterradora: “Por ora, / todos a procuram / num raio de 16 quilômetros”.

“Deslimites” crava a dor da mesma clave: “Vida, / estamos quites: // você ignora / meus palpites”. E conclui: “infinita- / mente // triste”.

Em “Pólen”, a estagnação da natureza estende-se pelos sentimentos do eu-lírico: “A árvore não cresce mais / e o amor também acabou”.

Esta ausência do amor presentifica-se até quando ele existe, mas não encontra sua expressão em palavras. Transcrevo o poema “Apenas três”:

 

 

 

Consta que a língua portuguesa

tem em torno de 400 mil palavras,

e eu preciso de apenas três

justo as que me faltam

as que não consigo dizer.

 

 

 

Em contraponto à decepção/desilusão do existir há os movimentos de uma máquina que engendra sonhos. E aí o amor surge como “o eixo da vida”, nas palavras de outro orelhista, o Tarso de Melo. Depois de enumerar as dificuldades do existir, no poema que dá título ao volume, conclui: “a luz vai brilhar / como um vagalume / que só acende”. Portanto, não apenas haverá uma luz, mas haverá uma luz contínua a mover a máquina da vida. Afinal, depois de citar textualmente Caetano no poema “Mais-valia”, conclui enfático e otimista, referindo-se a famoso poema de Coelho Neto: “eu escolho ser a chuva / que lentamente dissolve, / fibra por fibra, / as geleiras seculares”. Em tempo: poema resgatado por Torquato Neto em celebrada canção edipiana.

Se há um painel semiótico de artes englobadas pela poesia de Fabrício Marques, sem dúvida a poesia cantada da MPB, ao lado da poesia impressa dos livros, é forte marca d’água a tatuar as fendas dos poemas.

Caetano, explícito em “Mais-valia”, reaparece sutil em “os átomos todos”, de “Felizes”, e em “Totem para o homem zapping”: “sou uns / sou uns e outros a seu dispor”, e oblíquo em “fruta gogoia”, música do folclore baiano imortalizada por Gal, em gravação sugerida por Caetano.

Afora tais aspectos estruturais e estruturantes de A máquina de existir, há versos memoráveis que colam na memória do leitor. Destaco dois: 1. “pra quem está no escuro, tanto faz o sotaque da lua”; 2. “amanhã é domingo, floração de incertezas”.

Enfim, Fabrício Marques publica belo e delicado livro de poesia. Sorte nossa, seus leitores. Transcrevo três poemas.

 

 

CAMADAS

 

Há o mar

 

E dentro do mar

há a nuvem,

pronta para partir.

 

Dentro da nuvem

há uma concha.

 

Dentro da concha,

o que eu mais amo,

pura pérola.

 

Lá dentro do amor,

mil variações de amor.

E dentro das diversidades

há a chuva.

 

Há a chuva.

 

Eu caio

e, dentro da queda,

me levanto em pleno azul.

 

Dentro do azul,

o movimento dos barcos

e a solidão da gávea.

 

Longe e perto

a praia imensa

no país do céu exíguo

 

As longas hastes

de seus dedos tocam

a morada do ser

 

A concha descansa

em alto mar

ora em suas margens

ora lá no fundo

 

E no fundo do fundo

do mais dentro

o silêncio

 

E dentro do silêncio

o abismo

que toda palavra contém

 

a onda perfeita

a pura pérola

o mar

 

sempre recomeçado

 

 

 

DESLIMITES

 

Vida,

estamos quites:

 

você ignora

meus palpites

 

eu aceito

teu convite:

 

cultivar

meu apetite

 

de satélite

que insiste

 

lançar-se

sem limite

 

rumo a tudo

que existe

 

no espaço

entre mim e ti,

 

infinita-

mente

 

triste

 

 

 

 

 

ENQUANTO DORMES

 

Enquanto dormes, sem que percebas,

reparo teu sono: teu corpo, meu mundo.

A luz da arandela incide sobre a movimentação

rochosa do granito, o quarto mudo,

 

eu me pergunto: o que se passa? Teus

200 ossos a me convocar em vário ritmo:

a carne é franca. Ossos não mentem,

a carne é franca, a repetir num rito.

 

Ave, palmas breves; ave, flexor do hálux;

salve, pectínio: tua pelve, minha praia.

E no tumulto do sangue, ave, valva;

salve, átrio; e se joguem na pista, na veia, na raia.

 

Enquanto dormes, amo teu esplênio,

o escaleno anterior e o posterior, dando voltas

– o que se passa? As articulações estalam,

um involuntário sorriso: teu riso, mil volts.

 

Muito acontece enquanto dormes:

vértebras e tendões se entendem, sem áporos;

músculos profundos dialogam,

e amo tudo o que se passa sob teus poros,

 

aqueles mesmos que envolvem, lâminas de tecido,

teu corpo, e respiras, entreaberta fresta,

e me convidas para a algazarra de seres vivos

a que serves de abrigo: teu corpo, uma festa.

 

O movimento rápido dos olhos. O movimento

rápido das pernas. Pra que tanta pressa,

meu Deus? Se fatalmente te sei por um

és-não-és, digo, por um triz, tão presa

 

a mim e ao mesmo tempo tão alheia

ao meu lento escrutínio: teu sono, meu garimpo.

E, não só com os olhos, mas com todos

os sentidos, teu corpo desço e grimpo

 

Súbito, me lembro: hoje, mais cedo,

comeste fruta gogoia. A lembrança brusca

do alimento se aventurando por teu corpo,

a começar do véu palatino, em busca

 

de sossego, de um final remanso onde se dissipe

(o que se passa?) em breves rusgas

enquanto dormes, e é estranho, mesmo para mim,

o crescimento imperceptível de rugas

 

e distraio-me por um segundo, mas retorno

a teu corpo, que nunca é o mesmo: meu pódio

acolhendo uma grande família: prócero,

esplênio e ilíaco, amo vocês, sem réstia de ódio.

 

Teu corpo em repouso, a carne é franca

e fracas são as horas em demasias de relógio.

Aqui, neste quarto, sob o comando de lobos

e hemisférios, enquanto dormes elogio

 

teu corpo em repouso, uma senha – não

para confundir as leis que regem teu sonho –

mas para salvar a desusada emoção

com que penetrei fundamente no teu sono

 

pois sei que estás para acordar, e a mim

só resta o arrepio do toque, apenas sobra

o gesto de deitar em teu colo, doce

e úmida província: teu corpo, minha obra,

 

aquela mesma que com mil chamas

permanece alheia a um mundo em que tudo ruísse

e ainda assim vibrássemos em paz,

até que despertasses, e o teu corpo todo risse.

 

 

 

Rebis, de Marco Lucchesi

Amador Ribeiro Neto

 

A poesia de Marco Lucchesi é um dos memoráveis patrimônios de nossa produção artística. Ela vem tatuada na pele da mais fina sensibilidade. As revelações do mundo que opera, e a consequente instauração de uma linguagem própria, são luzes num mar jade sob azul celestial.

Esta poesia mergulha no leitor e sustém-no intensa e profundamente. Feita de parcas palavras e exuberantes ideias, suas imagens visuais e sonoras, transporta o leitor deste mundo para outro mais dentro dele. A seguir, lança-o pra outro mundo – galáxia da estupefação gerada e regida no trabalho com a linguagem.

Não há como ler Marco Lucchesi e não ser tomado/possuído pelas filigranas que tecem e imantam os meandros da ourivesaria da palavra.

Palavra nuclear. Palavra epifania. Palavra: ser, morada e essência desta poesia.

A respiração alteia-se. O corpo responde à grandeza de imagens arquitetadas na fruição do amoroso gesto da leitura.

Fruição, gozo, prazer de ler e sentir-se, paradoxal e concomitantemente, no centro do território e na zona limítrofe – do coração e do cotidiano.

Esta poesia é a suspensão do trivial – ainda que, este, necessário. É o elevamento das funções essenciais da vida ao êxtase do enleio. Maravilhamento.  Iluminação.

A mente projeta-se num tapete voador. O coração amalgama-se à cabeça. O corpo todo é redemoinho de delícias, delírios, decisões.

O leitor sente, emociona-se. E não perde o fio da meada. Continua atento e forte. Livre, leve e solto.

Rebis: leitura que nos alça ao mundo da memória e do imaginário. Da história e do sonho. Pasárgada aqui e lá. Uma poesia que une, reúne, argamassa acaso e organização. Sentimento e raciocínio.

Poesia cujo pulsar instaura-se nos volteios entre arfar e refletir.

Um dos perigos que o poeta corre, lembra-nos T. S. Eliot, é perder-se nas emoções. Não que elas sejam dispensáveis. “Mas”, diz Eliot, “o objetivo do poeta não é descobrir novas emoções, mas utilizar as corriqueiras e, trabalhando-as no elevado nível poético, exprimir sentimentos que não se encontram em absoluto nas emoções como tais”.

Poesia, então, é trabalho com a linguagem. É trabalho de coeficiente poético. Ou seja: a palavra e suas manifestações literárias. A palavra e a revelação, não do novo, mas de algo que se faz novo pelo modo tal como é revelado – na percepção de Chklóvski.

Prossegue o poeta de The waste land: “A poesia não é uma liberação da emoção, mas uma fuga da emoção. Não é a expressão da personalidade, mas uma fuga da personalidade”. E conclui regiamente: “Naturalmente, porém, apenas aqueles que têm personalidade e emoções sabem o que significa escapar dessas coisas”.

Marco Lucchesi, em toda a sua produção poética – e Rebis reafirma isso –, sabe valer-se da mais sublime emoção com o mais rigoroso trabalho com a palavra. Nada escapa ao seu zelo com o melhor da linguagem. Faz uma poesia que toca fundo no leitor porque o que conta é a expressão, o modo, a carpintaria do poema. Trabalho este nascido da relação do poeta com a grande poesia de nosso tempo. E com a poesia canônica.

A poesia de Lucchesi dialoga com o passado por presentificá-lo numa da linguagem literária atemporal.

Retomando Rebis. O título do livro é palavra derivada do latim res bina, que significa duas coisas, matéria dupla ou, simplesmente, duplicidade. Rebis significa igualmente magnum opus – ou seja, grande trabalho, grande obra.

A grande obra, geralmente originária de estágios conflitantes, ou mesmo estágios opostos, atinge, ao final do processo, a harmonização. Seria, para Jacques Monod, guardadas as devidas restrições (e polêmicas), algo como o processo que vai do caos à sistematização da necessidade organizadora.

Outra possível  significação para o termo rebis encontramos na mitologia grega. Hermafrodito, filho de Afrodite e Hermes, nascido homem, rejeita o amor de uma ninfa. Esta, por vingança, invoca os deuses para que a unisse, em um só corpo, a Hermafrodito.

Esta duplicidade, este processo contínuo e ambíguo, que permeia a gênese semântica e mitológica do termo rebis, é tomada, por Lucchesi, como um dos mananciais de seu livro. Algo como afirmar que a linguagem da poesia não se (p)rende a um só corpo, sexo, desejo. Ou seja, é grande obra em aberto. Ou, como preconizou Haroldo de Campos, antecipando Umberto Eco, é obra aberta.

Em resumo, a poesia desenvolve um arco que vai da duplicidade, da ambiguidade, do caos à harmonização. Rebis dá-se como este processo conflituoso e, por fim, harmônico.

Certamente por isso o volume encerra ilustrações e projeto gráfico, assinado por Zenilton Gayoso, que exploram os interstícios dos poemas. Seu primoroso trabalho plástico e gráfico é conversa inteligente com os poemas. Confere ao volume o status dúplice de livro de poesia e livro de artista, concomitantemente. Impressos em papel especial, os volumes, numerados e assinados pelos dois artistas, trazem a capa costurada manualmente e o título espelhado, como se diante de poça d’água, rio ou mar.

Rebis, de Marco Lucchesi, é abrigo da mais fina, sublime e tocante poesia. Livro-casa de um mundo que se entrega ao leitor na calmaria de versos desenhados nos brancos da folha. Versos dançarinos em ritmos e harmonias vários. Versos que se desdobram, desmancham-se e desvendam a beleza do sonho e da vida. Porque Rebis é esvaecimento e materialidade. Contenção e gozo.

 

Imerso na beleza lírica desta poesia, encerro com a transcrição de um poema.

 

 

NÃO HÁ SEGREDO

ALGUM NO CORPO DA

PALAVRA

 

OU ANTES

AO COMBINÁ-LA COM VERBOS

E LICORES

 

AO DISSOLVÊ-LA EM

SERPES

E DRAGÕES

 

AO SUBLIMÁ-LA

EM VIVOS

ATANORES

 

TRANSMUTA-SE A

PALAVRA

NO REBIS MISTERIOSO

 

 

 

 

 

Berimbau de lata, de Tânia Lima

Amador Ribeiro Neto

 

Tânia Lima (São Luís-MA) é poeta e professora de literatura do curso de Letras da UFRN. Publicou Pedra do sol (1996, prêmio SESC-Rio), Bela estrangeira (2001, prêmio Xerox do Brasil), Nus mangues (2003, prêmio “Descoberta da Literatura  Brasileira”, da revista Cult). Faz parte de lutas feministas e antirracistas. Berimbau de lata (Natal: Ed. Sebo Vermelho, 2016) é seu mais recente livro.

A poesia de Tânia é minimalista – ainda que Berimbau de lata traga um longo poema em prosa. Mas mesmo aí a poesia é condensada, numa riqueza de imagens admiráveis e inusitadas. A discursividade também pode ser minimalista, nos lembra Pound: basta centrar-se na condensação das ideias.

Além do minimalismo, o inusitado é uma das faces desta poesia. Inusitado entendido como revelação alumbrada do que, até então, nos era trivial. Assim, a simples concha do mar, que reproduz o som das ondas maravilhando nossos ouvidos de criança, ganha a sedução de outro som, inesperado,  encantador:

 

mar desvirado

concha acústica ecoa

primeiro som do mundo

maracatu de palavras

 

A criação do mundo pelo som tribal dos maracatus, junto ao som primevo das palavras. Octavio Paz nos lembra que a poesia preexiste à prosa. Antes de contar histórias ao redor do fogo o homem já cantava e dançava em musicalidade poética.

O Marco Zero (local de chegada  dos holandeses a Pernambuco) tem mãos que são lidas por uma cigana. Personificar coisas e tomar substantivos como verbos são dois recursos que esta poesia explora com maestria.

No poema “Pra Lia de Itamaracá” os instrumentos musicais transmutam-se em verbos. O resultado é a presença concomitante da ideia de essência do instrumento com a ressonância ágil de sua ação. Não somente a carga da palavra substantiva, mas também o movimento do verbo conjugado.

 

realejo partituras de palavra

retiro som de rabecas

triangulo as flautas de pífanos

misturo ritmos de violino às

bandas de percussão

 

 

Em “Tambor de crioula” temos:

 

Nascem lantejoulas

no sol da zona da mata

caboclo de lança

dedilha para uma tocata

Ogum solfeja pra Iansã

cigana lê as mãos do Marco Zero

Zumbi e Urucungo

chocalha tambor-de-crioula

reco-reco de agogô

alfaia começa BATUCADA

 

A mistura de culturas afro-ameríndias é uma das dominantes deste livro. E o uso das onomatopeias reitera a dimensão rítmica da musicalidade dos poemas. Musicalidade que, aqui, configura-se, prioritariamente africana. E daí rendendo raízes para a cultura nordestina, marca forte do livro.

 

ALFAIAS

Para Naná Vasconcelos

 

!  !

pan-dan-dan-dan-dan

pan-dan-dan-dan-dan

pan-dan-dan-dan-dan

pan-dan-dan-dan-dan

pan-dan-dan-dan-dan

pan-dan-dan-dan-dan

 

As onomatopeias são associadas às inversões espaciais (os conhecidos quiasmos), bem como às anáforas (a repetição de palavras no início, meio ou final do verso). Tais recursos de linguagem imprimem musicalidade tanto pela semântica dos vocábulos, como pela espacialização deles nos versos. A homenagem a Jorge de Lima enfatiza a excelência de qualidade de sua poesia. Assim como pela incorporação que o poeta opera com as culturas afro e nordestina:

 

ESSA NEGA FULÔ

 

rebola os pixains

bum-bum-bum

Qui-ti-bum bum-bum-bum

pandeiro bate-bate

bate-bate tamborzim

tamborzim bate-bate

com(passos) sincopados

maracatu baque solto

atabaque bate-bate

bate-bate zabumba

maracatu baque virado

bum-bum-bum

Qui-ti-bum-bum-bum

maraca(tu)

 

O leitor certamente já se deu conta de como Oswald de Andrade, com sua efervescência antropofágica, faz-se presente em Berimbau de lata.  No poema abaixo, sem título, o irreverente modernista salta no ritmo do maracatu. E bem poderia ser da capoeira:

 

maraca (eu)

Qui-ti-bum Qui-ti-bum Qui-ti-bum

bum-bum-bum !!!

Bum-Bum!!

BUM!

 

Um poema-bomba capsulado em garrafa de coquetel.

 

A cultura popular, como dissemos, norteia a poesia de Tânia Lima. E, em especial, este livro, desde o título – instrumento, música e cultura nordestinas.

 

Catirina

Sobrevoa carnaval

 

Mateus dança

Caboclinhos

 

Reis e Rainhas

Vestem o frevo

 

Caboclo de Lança

Guarda carnaval

 

A Catirina é a personagem feminina movida pela alegria, pela descontração e pelo entusiasmo nos folguedos do Bumba-meu-boi.  Ela é aquela que, grávida, manifesta o desejo de comer uma língua de boi. Pai Francisco, seu marido, precisa cumprir esta missão, ainda que, pobre, não tenha uma só cabeça de gado.

Já Caboclinhos é dança da cultura popular pernambucana, muito comum durante os festejos carnavalescos, em que seus dançarinos fantasiam-se de índios.

O caboclo de lança é uma das figuras mais expressivas do carnaval pernambucano, chegando, por vezes, a ser tomado como ícone destes festejos populares. O caboclo de lança é a principal figura do maracatu rural, também conhecido como maracatu do baque solto.

O poema vale-se desta gama de caracteres populares pernambucanas para, de forma sintética e condensada,  em flashes  cinematográficos, projetar cenas de dança, música, folia, celebração.

Na esteira irreverente da canção “Samba dos animais”, de Jorge Mautner e Nelson Jacobina, bem como no ritmo apaixonante de Jackson do Pandeiro, temos

 

uma galinha

soprano

blues em

mi maior

solfejou: MI-AU !

do outro lado

vira-lata soletrou

UAU….!

 

A recorrência dos neologismos vai na direção do caldeirão das culturas mescladas, miscigenadas, misturadas, reverberadas, renovadas, recicladas. Tudo conflui para um festival de cores, sons,  danças,  saberes e sabores populares.

Tânia Lima toca seu berimbau e bota o leitor feliz da vida. Poesia da resistência feita com maravilhamentos, alumbramentos, descobrimentos. A felicidade tem nome certo: poesia de Tânia Lima.

 

 

 

 

 

 

 

 

A memória é uma espécie de cravo ferrando a estranheza das coisas, de Lau Siqueira

Amador Ribeiro Neto

 

Há muitos anos me ocupo da poesia do Lau Siqueira. E é um ocupar-me, friso, de imensurável deleite. Sua poesia me é companhia em casa, na sala de aula, nos congressos, nas viagens, nas redes sociais, nas férias, nos saraus. Eu a leio porque ela tem algo que me inquieta. E me dá prazer. Me provoca com suas inquietações. Com perguntas – existenciais e estéticas – que, de tão comuns, tão corriqueiras, monopolizam-nos com a força da arte. E da vida.

Lau é um poeta que sabe perguntar. Como sabe. Pergunta, sempre, de forma incomum, estranha, inusitada. Inverte ditados populares. Sacode trocadilhos sonoros em tramas semânticas. Pinça coisas, pessoas, lugares e comportamentos com uma visada de visagens. Mas também de objetividades. E aí mora um dos encantos de sua poesia – não importa se do livro de estreia, se do mais recente.

Bem, este arrodeio todo é pra dizer que a poesia do Lau Siqueira cutuca o leitor com vara curta. Desinstala-o da sua mesmice. Da sua modorra. Do seu cotidiano mal-e-mal. Sacode-o na violência e na doçura de imagens e ideias extraordinárias.

O prazer nasce desta provocação. Afinal, é aqui que a coisa pega. Aqui onde mora o verdadeiro poeta: no lugar em que a palavra poética se apresenta como sangue, carne, osso e tutano. Ou seja: onde a palavra se entrega como matéria bruta das mais intensas vida e linguagem.

Porque a poesia de Lau não se rende aos modismos facilitadores que entendem a poesia como emoção imediata. E descartável. Diluição romântica. Pieguismo. Mimimi. Lau está longe dessa onda de prosaísmos que assola boa parte da produção poética brasileira contemporânea. Ele sabe valer-se do coloquial sem ser banal. Sem resvalar para as imensas galáxias de vazios – considerados como poesia de nossos dias.

Sua poesia não consola. Não passa mão na cabeça do leitor. Não é de autoajuda. E nem manda recados altruístas. Antes: sabe valer-se de conteúdos carregados de significados. Sustança. Sabe que a forma informa. Que a forma é um modo de sublinhar o significado. Que a forma é enxada e perfume nos pampas da palavra.

Se em seus primeiros livros os experimentalismos de linguagem mostram-se às claras, agora, amainados pelo domínio de uma linguagem fluente e doce, entram-nos como que desapercebidos. Esquecemo-nos de que estão ali, sob a arquitetura harmônica e sublime dos andaimes que, em outros tempos, ergueram a mesma poesia – mas com garras expostas. Hoje, assimilados e incorporados, são o feliz resultado de atento trabalho aos sentimentos e ideias que a vida nos traz, a cada dia, ou de tempos em tempos. Afinal, são inumeráveis as errâncias nas andanças, contradanças e pesquisas de um poeta.

No caso, um poeta que nasceu no Rio Grande do Sul e que despontou na Paraíba há décadas. Aqui construiu outra fronteira de sua cidadania político-poética. Uma preciosidade gaúcha que a Paraíba soube cativar. E que hoje vive entre aqui e lá. Entre o agora e o ontem. O presente e a memória. Mão na massa fazendo história.

O poeta Lau Siqueira de hoje é aquele que carrega, escrito em sua camiseta, a memória poética como arma sideral direcionada ao presente. Aprendeu de cor e salteado a lição do poeta: “o presente é tão grande, não nos afastemos”. Detenhamo-nos no aqui e agora. A vida presente. A sua poesia presente.

A memória é uma espécie de cravo ferrando a estranheza das coisas (Porto Alegre: Casa Verde, 2017) extrai seu título dos versos de um poema do próprio livro. A memória não é um cravo ferrando, mas uma espécie de cravo. A singularização da memória a torna personalíssima. E aí, na subjetividade, habita o social. A voz de um é a voz de inúmeros. O uno e o múltiplo na câmara de ecos. Memória do poeta: sublime voz plural.

Outra rápida observação. O título segue: é uma espécie de cravo ferrando a estranheza das coisas – e não das pessoas. A estranheza das coisas é, por exemplo, a estranheza do mundo a ser descoberto. A materialidade da vida. Sua concretude.
Como a descoberta do mundo lispectoriano, por exemplo. E aí, Lau e Clarice, cada qual em seu diapasão, compõe a música da vida-via-linguagem.

No poema “Rua da areia” (p.21), temos:

 

nem dia

nem noite

 

apenas luz

e sombra

 

)            (

 

colibris

e vampiros

 

bebendo a

última taça

 

Na indefinição do tempo (nem dia nem noite, que remete o leitor ao chiaroscuro da pintura renascentista), o contorno fluido das pessoas, mix de doçura e agressão, pluma e chumbo. Afinal, são colibris e vampiros. Simultaneamente. E onde? Na histórica Rua da Areia, em João Pessoa, antigo habitat “chique” da cidade; hoje, zona de deterioração urbana, ponto e referencial de prostituição. A esta atmosfera de indeterminação de formas, luzes e sombras, diluição espaçotemporal, soma-se a sinonímia do vocábulo “areia”: partículas, grânulos, pó. Universo semântico remete o leitor ao rarefeito, efêmero, volúvel, frágil. Ao que se desmancha no ar.

Todavia, o poeta não fala apenas da rua em si, mas do eu enquanto metonímia da vida: geografia instável de assertividade e negação, matéria e não-matéria, corpos e sentimentos. Poesia – em A memória é uma espécie de cravo ferrando a estranheza das coisasteu outro nome é dor, ainda que em argamassa com a alegria. Pluma e chumbo. Sangue e vinho.

Em tempo: os parênteses abrem-se no meio exato do poema, numa estrofe sem palavras, quem sabe para iconizarem um tríduo: pulmões, asas e bordas. Pulmões que sanfonam o vaivém do dia e da noite. Asas que sustentam, na tensão e na leveza, corpos no ar. Bordas da taça: vinho, vida, sexo, amor.

Já que tocamos no centro da cidade, o foco do poema “Porto do Capim” (p. 61) é o centro histórico, contraposto à orla marítima, em perspectiva bela e crítica:

 

a cidade de joão pessoa

nunca olha de frente para o rio sanhauá

 

talvez por vergonha das suas margens

 

a cidade não veste a pele dos que encharcam

os pés nas beiradas do porto do capim

 

onde as cheias aniquilam o pouco

dos que pouco possuem

 

onde os barcos atracam no assoreamento

e no abandono

 

onde um estupro urbanístico é prometido

pelos senhores de engenho das margens

 

os que arrancam as árvores porque

não acreditam nos pássaros

 

a cidade de joão pessoa

esqueceu seu nascedouro

 

virou as costas para onde a verdade

é o reflexo da lua nas águas do rio

 

um lugar onde o esquecimento solidifica

o barro no tempo e a beleza é o alimento

de cada manhã

 

 

O poema, dedicado “para as mulheres que lutam pela preservação do Porto do Capim”, é uma crônica da vida sócio-política da capital paraibana. Partindo das margens do rio Sanhauá, uma construção em leque abre-se para reflexões sobre o uso e (ab)usos da cidade, direitos e privilégios. Sem em momento algum abrir mão do zelo com a linguagem poética, o poeta iça o leitor com contundente questionamento: e o nascedouro, as origens, a história inicial da cidade? Tudo apagado pelo esquecimento? Pelo descaso? Por prioridades que marginalizam ainda mais os excluídos?

Por isso mesmo o título encampa a memória como recorte individual e coletivo, avivando senti(pensa)mentos de todo leitor. Ao abordar histórica e sociologicamente a ocupação da cidade, o poema fornece uma visada dos desmandos políticos que, com raras exceções, negligenciam as necessidades da cidade pobre, daqueles que insistem em dar vida aos sítios onde a cidade nasceu, às margens do rio.

Esta cidade originária é vista como escória para aqueles que têm, como perspectiva urbana, apenas a orla. Assim, o poema é arquitetado como um grito de alerta e denúncia. Sem, em passagem alguma, resvalar para o panfletarismo. Ou para a explanação didática. Com rara beleza de ideias e imagens, numa construção musical admirável, em que as estrofes dísticas se misturam a um terceto e a uma estrofe de um só verso, sublinha o que há de permanência e o que há de desigualdade na cidade  de João  Pessoa,  complexa quanto bela poeticamente.

No campo amoroso, o poema “Agosto” (p. 26), transcrito aqui na íntegra, revela que a dimensão transformadora do eu-lírico não aceita o afrontamento quando o que está em jogo é o amor: “ tu me afrontas / eu te acolho // vivo à flor da pele / não olho por olho”.

Na hora do jogo/embate e da transa/trama amorosos, o afrontamento é rechaçado pela tessitura  de comportamentos opostos que visam à desarticulação da agressividade do outro, convertendo-a em teia de afetos. Para tanto, a sapiencial inversão de um provérbio bíblico tem como finalidade apaziguar, serenar, cativar o outro.

Observemos que o substantivo “olho” pode mudar transmudar-se em verbo: “eu olho”. Melhor, ao “olho por olho” o eu-lírico responde com “eu não olho” por onde? “por olho”. Quer seja, ele não olha pelo olho. Afinal, (1) não lhe interessa a vingança bíblica “olho por olho, dente por dente”, (2)  interessa-lhe olhar não pelo olho, mas, quem sabe, pela pele, pelo corpo, pelo coração, pelos sentimentos.  É com um novo modo de “olhar” que o eu-lírico responde ao confronto. E, no plano formal do poema, a quadra – modo sublime da poesia lírica – é o espaço de que o poeta se vale para revelar sua generosidade. Seu amor.

Seguindo nesta linha de contrastes e confrontos – nada euclidianos –, temos o poema “Sertânica” (p. 30) que ilumina, deslumbra, inspira o coração do eu-lírico: “metade era / soco // outra metade / sopro // e tudo era tanto / pro meu coração / tão pouco”. A poesia enquanto condensação de ideias, imagens, sonoridades – como apregoa Pound. Eis uma das lições minimalistas de Lau Siqueira que leva o leitor a sentir-se de bem com a vida, com a literatura, com as artes. Dentro de um patchwork  da cultura sertânica. É o sertão ganhando o mundo pelas veredas dos sentimentos do poeta.

Muito ainda há a se falar sobre os poemas da primeira parte deste livro. Destaco “Sonhar entre as pétalas do teu corpo” (p. 41), em que o ato de fazer amor é entretecido por imagens e sonoridades em cópula de volúpias, prazeres e alumbramentos. É um poema longo, e aí reside outra particularidade que a poesia de Lau vem tomando nos livros mais recentes. O poeta saber ser minimal e sabe ter fôlego. Em ambos os casos sua poesia é rigorosamente expressão da condensação. Cada palavra é engenharia e engrenagem necessárias à maquinaria do poema. À máquina do mundo poético. À descoberta e revelação do mundo. Lau sabe disso. Por isso faz.

Os tercetos da segunda parte, dedicados a Saulo Mendonça, rendem justa e bela merecida homenagem ao grande poeta haicaísta brasileiro.

Como na maioria dos haicais feitos mundo afora, o universo sideral constela-se nas estrofes de três versos. Em tempo: Lau Siqueira dispensa o rótulo de haicai a seus tercetos. Mas em vários deles, não somente o universo temático desta forma de poesia está presente: também a sua essência poético-oriental a habita.

A clássica figura da lua cheia, tão cara aos haicaístas, aqui aparece como inusitado (ou quem sabe corriqueiro) alvo dentro de uma tranquila (ou insegura) noite: “Subúrbio tranquilo / miro na lua cheia / e atiro”. Aqui as vogais em “i” retinem os tiros. A bem da verdade, a rima toante é uma das constantes na poesia de Lau. Ele sabe extrair som de vocábulos abafados.

O universo sideral prossegue na linguagem ilógica e surreal do amor: “Palavras loucas / línguas conversando / no céu da boca”. Exemplo claro de que língua e boca, palavra e céu são matrizes do amor e da poesia.

À solidão da lua no céu, o eu-lírico acopla a sua, presa ao chão cotidiano: “sensação estranha / a solidão é uma lua / que me acompanha”.

Ainda o espaço sideral. Desta vez, do alto o eu-lírico fornece uma visão melhor do que se passa/passou na terra: “Subirei nas telhas / para ver garrincha / driblando as estrelas”. O contraponto do alto e baixo imprimem um drible às imagens do poema: o vivem entre solo, telhado e céu espelham o jogo em marcações geniais.O futebol ganha um belo terceto. E a rara poesia sobre este esporte passa a contar com um poema antológico.

Por fim, fechando o livro, ao comentar sua produção poética, o Lau presenteia o leitor com um texto em prosa que é uma fieira de maravilhamentos. É quando a poesia adentra a prosa e a torna leve, uma suave, sublime – prosa porosa.

A memória é uma espécie de cravo ferrando a estranheza das coisas é um livro que veio pra ficar na cena da poesia brasileira contemporânea. Bem como na memória e no coração do leitor.

 

 

Ladainha, de Bruna Beber

Amador Ribeiro Neto

Bruna Beber (Duque de Caxias-RJ, 1984), autora de A fila sem fim dos demônios descontentes (2006), Balés (2009), Rapapés & apupos (2010), Rua da padaria (2013 – que comentamos aqui no AP). Ladainha (Record, 2017) é sua mais recente publicação.

Começo com T. S. Eliot, para quem o “sentido histórico” faz com que “um escritor se torne mais agudamente consciente de seu lugar no tempo, de sua própria contemporaneidade. Nenhum poeta, nenhum artista, tem sua significação completa sozinho”. E mais adiante pontua: “Entendo isso como um princípio de estética, não apenas histórica, mas no sentido crítico”.

Pois é. História. Estética. Crítica. Qualidades inerentes a um poeta. Lamentavelmente não encontradas na poesia de Bruna Beber. Ela integra o grupo de poetas que desconhecem a história da poesia. Que ignoram poesia enquanto tradição e atualidade. E que, portanto, nada têm a dizer.

Um grupo que, sem ideias e sem projeto poético definidos, escreve à solta e salteadamente. Que faz reles uso do coloquial e deleta o poético. Mata a poesia pela via de pífio prosaísmo.

Os títulos das três partes de Ladainha já introduzem o leitor às facilidades/ falta de criatividade da poeta: “vidádiva”, “canseios” e “meu deos”.

Há quem queira ver em sua poesia o sinal da fragmentação, da rarefação, da banalização de nosso tempo – também chamado, com garantias teórico-acadêmicas – pós-moderno.

Sem dúvida há a possibilidade de se fazer esta leitura. O problema é que, no caso específico de Bruna Beber, ao se buscar a pertinência entre o texto e a falta de sentido referencial não se é convencido da pertinência (e nem da honestidade) de tais argumentos. E menos ainda de sua aplicabilidade.

Paulo Henriques Britto em Formas do nada (2012), por exemplo, faz grande poesia a partir da negação de sentido das coisas. Consegue operar um isomorfismo entre os poemas e o que eles referenciam. Produz um belo livro. Inquestionavelmente. Mas o poeta é daqueles (raros) que conhecem a linguagem da poesia e sabem como usá-la a fim de produzir uma poesia do anti, do nada, do belo.

Isso falta a Bruna Beber. E falta aos que louvam sua poesia. Nestas horas surge a questão: a quem pensam que iludem aqueles que louvam uma poesia desse naipe? Ao leitor, minimamente informado, não procede o chove-não-molha destes gratuitos elogios.

Ler Bruna Beber, e seus bajuladores, é imergir numa convulsão de clichês, lugares-comuns, estereótipos. Dissimulação e engano de “poesia” e de “crítica”.

Ladainha não é nada mais do que o título antecipa: repetição, cantilena, lengalenga, fastio. Isso mesmo: o livro é um enfeixamento de prosaísmos sem pé nem cabeça. Que em vez ao invés de despertarem o desejo de mais poesia, lançam-no na cova das frases feitas, anotadas em forma de verso.

De volta ao poeta de The waste land: “O fundamental consiste em insistir que o poeta deva desenvolver ou buscar a consciência do passado e que possa continuar a desenvolvê-la ao longo de toda a sua carreira”. Ou seja: o conhecimento da tradição é indispensável para a produção de uma poesia de qualidade hoje. Mas a tradição não pode ser entendida como continuidade da geração anterior, como adesão à sua cartilha, cegamente. “A tradição implica um significado muito mais amplo. Ela não pode ser herdada, e se alguém a deseja, deve conquistá-la através de um grande esforço”. Quer seja: ela envolve estudo, conhecimento, dedicação. E Eliot frisa: esse é o sentido histórico da produção artística, que ele entende como estético.

Tenho escrito aqui no Augusta Poesia que falta a certo grupo de poetas, aqueles que se identificam (consciente ou inconscientemente) com a Poesia Marginal, esta consciência histórico-estética. Prossegue o poeta de Os quatro quartetos: “o mau poeta é habitualmente inconsciente onde deve ser consciente e consciente onde deve ser inconsciente”.

Eis um dos erros de Bruna Beber: sem informação histórica e com um olhar chapado sobre o mundo, patina e não avança. Vejamos alguns poemas de Ladainha.

O poema 97, citado abaixo e na íntegra, apregoa que escrever é associar metáforas a bel-prazer. Descompromissadamente. Lançando ideias ao deus-dará. Certo: a geração frufru de nuvem de algodão adora. Tudo bem, geração. Mas fica a questão: cadê a poesia?

“O poeta utiliza, adapta ou imita o fundo comum de sua época – ou seja, o estilo de seu tempo –, mas transmuta todos esses materiais e realiza uma obra única”, pontua Octavio Paz. Bruna Beber parece não ter a menor ideia do que isso signifique. Exemplo:

 

 

Escrever é irmão

do andar e primo

do voltar, substitua

 

No inverno é bom

 

Escrever com calma

e inventar um cinzeiro flutuante

chegar e sair descalço do poema

 

No verão bombom

 

Escrever sempre

o tempo é uma mula elástica em fuga

e se conselho fosse bom

 

Sair na rua de moletom

 

O poema 79 usa e abusa do uso do recurso da definição – com inventividade zero. Assim como do verso refrão. A musicalidade de manual de poesia resultante da empreitada não traz nenhuma nova taxa de informação ao poema. E a última estrofe é uma pilhéria bem ao gosto do repertório da poeta:

 

Poder é  perigo

e hoje acordei

rindo

 

Dom é tom

e hoje acordei

rindo

 

Querer é criatura

e hoje acordei

rindo

 

Na cara a boca

na pia o prato

sujos de feijão

 

 

Poema 17 é um enxovalhado de verbos no particípio – recurso pobre. E a quadra final arrola  metáforas de gosto deveras duvidoso:

 

 

chamado seguido

alcançado e ladeado

freado, encurralado

enfrentado e açoitado

aproveitado e submetido

 

perdido

dobrado

sucumbido

 

tomado obtido

recebido e levado

envolvido, ocupado

abrangido e bifurcado

expandido e vencido

 

por uma interjeição

de ordem

ao dom:

 

oxalá puindo a roupa

do distúrbio, velando

como música ambiente,

peneira de catar a vida.

 

No livro há dois poemas “concretos”. Ou que almejam sê-lo. Não são. Não conseguem. Mais: revelam o desconhecimento dos princípios da Poesia Concreta.  Acabam sendo debuxos mal lavrados. Revelam, isto sim, o que a poeta sabe de poesia: nada. Ou: qualquer coisa é poesia.  Finalizando, segue o menor deles – visualmente falando:

 

 

só com

só com muito

só com muito vento

 

Seria interessante finalizar esta coluna frisando que Bruna Beber, depois de quatro livros publicados, deve ao leitor de poesia um livro de poesia. Mas é inútil. Que seja poupada. Afinal, não se espera, e nem se tira, leite de pedra.

 

Para quando, de Kaio Carmona

Amador Ribeiro Neto

 

Kaio Carmona (Belo Horizonte, 1976) fez graduação, mestrado e doutorado na UFMG. É professor de literatura. Autor de Um lírico dos tempos (ensaio, 2006) e Compêndios de amor (poesia, 2013). Para quando (Belo Horizonte: Scriptum, 2017) é sua mais recente publicação.

Para quando: o título encerra uma pergunta? Uma reticência? Uma exclamação?

Não há sinal algum de pontuação, mas o título sinaliza para uma das constantes do livro: aquilo que interessa não está nomeado. Vale a espera? Que tempo é esse? Vale o desespero? Vale o silêncio? A contenção? O derramamento?

Há algo que, dirão alguns, beira o místico nos poemas de Kaio Carmona. Para outros, parece que há algo que, simplesmente, escapa a definições. Algo que não se entrega. Que se embrenha na dissimulação e lá faz seu habitat.

Por isso mesmo esta poesia encanta. Ela não parte e nem busca o místico. Ela se instaura e permanece na concretude da realidade. Na materialidade dos corpos.

Há um eu-lírico que lança sua voz a partir de um lugar comum, reles, cotidiano. Mas lança-a com timbres inusitados. Timbres que seduzem nossa audição. Atiçam nossos corpos e desejos. E, por isso mesmo, nos levam a correr atrás. Do quê? Não sabemos. A sedução nos conduz. Seguimos.

O volume está dividido em duas partes: a primeira, homônima ao título do livro, e a segunda, “O eu intermitente”. Ambas com o mesmo denominador mínimo, múltiplo e comum: o amor e suas circunstâncias.

Melhor seria dizer: incomum. Já que o amor, tal como o eu-lírico nos apresenta, embora comum e delimitado historicamente, surge-nos através de formas e modos de uma linguagem que o recria enquanto algo inédito. Recém descoberto. Para ser mais exato é melhor dizer: recém entrevisto.

E aí reside o perigo: o que falar daquilo que já foi mais do que falado/cantado? Na busca pela resposta a essa questão mora uma das qualidades de Kaio Carmona: tocar o mesmo, mas com nova gestualidade.

Outros modos e jeitos. Redizendo: outros des-modos e des-jeitos. Afinal, o poeta opera na faixa da desconstrução do conhecimento alicerçado no senso comum, no déjà-vu, nos saberes canonizados.

O poeta, que é também professor de literatura, sabe que a epifania da poesia deslinda-se na forma do dizer o que busca dizer. E não na mera semeação semântica das ideias. Por isso mesmo seu livro ganha o leitor em vários momentos. Diria até: na quase totalidade.

Sem dúvida alguma, são poemas na linhagem adeliana, naquilo que Adélia foi buscar em Drummond: a naturalidade de uma dicção poética nascida de fonte popular. Daí emerge a poesia das grandes e miúdas delicadezas. Uma poesia que, bela per se, reverbera, despudoradamente, Adélia e a lição do seu mestre, Drummond.

Transcrevo Banquete:

 

E finalmente conheces o amor

e nele apostas teus medos.

Amas com fome:

Dia após dia macerando a carne

com cansaço.

Tenaz.

E amas com raiva.

Torna-te meticuloso de sua posse.

Assassino.

Persecutório.

Vigilante incansável.

Finalmente conheces o amor

Para, conforme a fome, matá-lo.

 

 

Kaio Carmona não se envergonha do vasto amor. Como nada tem a esconder na intertextualidade, pari passu, com a poesia dos dois poetas citados e de outros, dentre os quais, Bandeira, Vinícius, Neruda, Florbela.

O amor não tem fronteiras. Foge a dicionários e influências. Tal como a poesia. E Kaio Carmona sabe disso. Por isso sua poesia é bandeira desfraldada com a obra de grandes nomes de nossa literatura.

Em Adélia Prado ele encontra a reverberação do universo drummondiano. Porém, de ponta-cabeça. Com os malabarismos de outra poesia, cozida ao fogo dos sentimentos. Transcrevo Esse tráfego doméstico:

 

De silêncio em silêncio

– em pequenos sustos –

vai se construindo nosso amor

diário.

Os cômodos da casa ainda são grandes,

como eram grandes os cômodos das casas

antigamente.

E mesmo assim nos esbarramos

de cômodo em cômodo,

esse tráfego doméstico.

Passa por mim sem me olhar e deixa sua mão

aleatoriamente

em algum lugar de meu corpo,

propositadamente.

Sei mais de você por esses encontrões e silêncios

que o seu sorriso, talhado na lida

do mundo das relações.

Seu sorriso:

Pequenos silêncios, pequenos encontros.

E o amor se erguendo no ar.

E o amor se entornando no chão.

 

Mas essa poesia feita da naturalidade da vida e das suas dicções bebe, antes de tudo, nas fontes de Camões e Dante. A grande lírica destes grandes líricos não poderia passar ilesa à poesia de um poeta sensível e ao seu coração. Que é também bombeado pelo sangue de suas leituras enquanto leitor e professor de literatura.

Para quando é um livro pra já. Porque o amor bate à porta. E sua insubmissão é uma lambada na dureza dos dias de hoje, de ontem, de sempre.  Nos dias de hoje, especialmente.

Lambada na dupla acepção: dança/música e paulada/cacetada.

Enfim, poesia de amor. Enfim, poesia de resistência.