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A memória é uma espécie de cravo ferrando a estranheza das coisas, de Lau Siqueira

Amador Ribeiro Neto

 

Há muitos anos me ocupo da poesia do Lau Siqueira. E é um ocupar-me, friso, de imensurável deleite. Sua poesia me é companhia em casa, na sala de aula, nos congressos, nas viagens, nas redes sociais, nas férias, nos saraus. Eu a leio porque ela tem algo que me inquieta. E me dá prazer. Me provoca com suas inquietações. Com perguntas – existenciais e estéticas – que, de tão comuns, tão corriqueiras, monopolizam-nos com a força da arte. E da vida.

Lau é um poeta que sabe perguntar. Como sabe. Pergunta, sempre, de forma incomum, estranha, inusitada. Inverte ditados populares. Sacode trocadilhos sonoros em tramas semânticas. Pinça coisas, pessoas, lugares e comportamentos com uma visada de visagens. Mas também de objetividades. E aí mora um dos encantos de sua poesia – não importa se do livro de estreia, se do mais recente.

Bem, este arrodeio todo é pra dizer que a poesia do Lau Siqueira cutuca o leitor com vara curta. Desinstala-o da sua mesmice. Da sua modorra. Do seu cotidiano mal-e-mal. Sacode-o na violência e na doçura de imagens e ideias extraordinárias.

O prazer nasce desta provocação. Afinal, é aqui que a coisa pega. Aqui onde mora o verdadeiro poeta: no lugar em que a palavra poética se apresenta como sangue, carne, osso e tutano. Ou seja: onde a palavra se entrega como matéria bruta das mais intensas vida e linguagem.

Porque a poesia de Lau não se rende aos modismos facilitadores que entendem a poesia como emoção imediata. E descartável. Diluição romântica. Pieguismo. Mimimi. Lau está longe dessa onda de prosaísmos que assola boa parte da produção poética brasileira contemporânea. Ele sabe valer-se do coloquial sem ser banal. Sem resvalar para as imensas galáxias de vazios – considerados como poesia de nossos dias.

Sua poesia não consola. Não passa mão na cabeça do leitor. Não é de autoajuda. E nem manda recados altruístas. Antes: sabe valer-se de conteúdos carregados de significados. Sustança. Sabe que a forma informa. Que a forma é um modo de sublinhar o significado. Que a forma é enxada e perfume nos pampas da palavra.

Se em seus primeiros livros os experimentalismos de linguagem mostram-se às claras, agora, amainados pelo domínio de uma linguagem fluente e doce, entram-nos como que desapercebidos. Esquecemo-nos de que estão ali, sob a arquitetura harmônica e sublime dos andaimes que, em outros tempos, ergueram a mesma poesia – mas com garras expostas. Hoje, assimilados e incorporados, são o feliz resultado de atento trabalho aos sentimentos e ideias que a vida nos traz, a cada dia, ou de tempos em tempos. Afinal, são inumeráveis as errâncias nas andanças, contradanças e pesquisas de um poeta.

No caso, um poeta que nasceu no Rio Grande do Sul e que despontou na Paraíba há décadas. Aqui construiu outra fronteira de sua cidadania político-poética. Uma preciosidade gaúcha que a Paraíba soube cativar. E que hoje vive entre aqui e lá. Entre o agora e o ontem. O presente e a memória. Mão na massa fazendo história.

O poeta Lau Siqueira de hoje é aquele que carrega, escrito em sua camiseta, a memória poética como arma sideral direcionada ao presente. Aprendeu de cor e salteado a lição do poeta: “o presente é tão grande, não nos afastemos”. Detenhamo-nos no aqui e agora. A vida presente. A sua poesia presente.

A memória é uma espécie de cravo ferrando a estranheza das coisas (Porto Alegre: Casa Verde, 2017) extrai seu título dos versos de um poema do próprio livro. A memória não é um cravo ferrando, mas uma espécie de cravo. A singularização da memória a torna personalíssima. E aí, na subjetividade, habita o social. A voz de um é a voz de inúmeros. O uno e o múltiplo na câmara de ecos. Memória do poeta: sublime voz plural.

Outra rápida observação. O título segue: é uma espécie de cravo ferrando a estranheza das coisas – e não das pessoas. A estranheza das coisas é, por exemplo, a estranheza do mundo a ser descoberto. A materialidade da vida. Sua concretude.
Como a descoberta do mundo lispectoriano, por exemplo. E aí, Lau e Clarice, cada qual em seu diapasão, compõe a música da vida-via-linguagem.

No poema “Rua da areia” (p.21), temos:

 

nem dia

nem noite

 

apenas luz

e sombra

 

)            (

 

colibris

e vampiros

 

bebendo a

última taça

 

Na indefinição do tempo (nem dia nem noite, que remete o leitor ao chiaroscuro da pintura renascentista), o contorno fluido das pessoas, mix de doçura e agressão, pluma e chumbo. Afinal, são colibris e vampiros. Simultaneamente. E onde? Na histórica Rua da Areia, em João Pessoa, antigo habitat “chique” da cidade; hoje, zona de deterioração urbana, ponto e referencial de prostituição. A esta atmosfera de indeterminação de formas, luzes e sombras, diluição espaçotemporal, soma-se a sinonímia do vocábulo “areia”: partículas, grânulos, pó. Universo semântico remete o leitor ao rarefeito, efêmero, volúvel, frágil. Ao que se desmancha no ar.

Todavia, o poeta não fala apenas da rua em si, mas do eu enquanto metonímia da vida: geografia instável de assertividade e negação, matéria e não-matéria, corpos e sentimentos. Poesia – em A memória é uma espécie de cravo ferrando a estranheza das coisasteu outro nome é dor, ainda que em argamassa com a alegria. Pluma e chumbo. Sangue e vinho.

Em tempo: os parênteses abrem-se no meio exato do poema, numa estrofe sem palavras, quem sabe para iconizarem um tríduo: pulmões, asas e bordas. Pulmões que sanfonam o vaivém do dia e da noite. Asas que sustentam, na tensão e na leveza, corpos no ar. Bordas da taça: vinho, vida, sexo, amor.

Já que tocamos no centro da cidade, o foco do poema “Porto do Capim” (p. 61) é o centro histórico, contraposto à orla marítima, em perspectiva bela e crítica:

 

a cidade de joão pessoa

nunca olha de frente para o rio sanhauá

 

talvez por vergonha das suas margens

 

a cidade não veste a pele dos que encharcam

os pés nas beiradas do porto do capim

 

onde as cheias aniquilam o pouco

dos que pouco possuem

 

onde os barcos atracam no assoreamento

e no abandono

 

onde um estupro urbanístico é prometido

pelos senhores de engenho das margens

 

os que arrancam as árvores porque

não acreditam nos pássaros

 

a cidade de joão pessoa

esqueceu seu nascedouro

 

virou as costas para onde a verdade

é o reflexo da lua nas águas do rio

 

um lugar onde o esquecimento solidifica

o barro no tempo e a beleza é o alimento

de cada manhã

 

 

O poema, dedicado “para as mulheres que lutam pela preservação do Porto do Capim”, é uma crônica da vida sócio-política da capital paraibana. Partindo das margens do rio Sanhauá, uma construção em leque abre-se para reflexões sobre o uso e (ab)usos da cidade, direitos e privilégios. Sem em momento algum abrir mão do zelo com a linguagem poética, o poeta iça o leitor com contundente questionamento: e o nascedouro, as origens, a história inicial da cidade? Tudo apagado pelo esquecimento? Pelo descaso? Por prioridades que marginalizam ainda mais os excluídos?

Por isso mesmo o título encampa a memória como recorte individual e coletivo, avivando senti(pensa)mentos de todo leitor. Ao abordar histórica e sociologicamente a ocupação da cidade, o poema fornece uma visada dos desmandos políticos que, com raras exceções, negligenciam as necessidades da cidade pobre, daqueles que insistem em dar vida aos sítios onde a cidade nasceu, às margens do rio.

Esta cidade originária é vista como escória para aqueles que têm, como perspectiva urbana, apenas a orla. Assim, o poema é arquitetado como um grito de alerta e denúncia. Sem, em passagem alguma, resvalar para o panfletarismo. Ou para a explanação didática. Com rara beleza de ideias e imagens, numa construção musical admirável, em que as estrofes dísticas se misturam a um terceto e a uma estrofe de um só verso, sublinha o que há de permanência e o que há de desigualdade na cidade  de João  Pessoa,  complexa quanto bela poeticamente.

No campo amoroso, o poema “Agosto” (p. 26), transcrito aqui na íntegra, revela que a dimensão transformadora do eu-lírico não aceita o afrontamento quando o que está em jogo é o amor: “ tu me afrontas / eu te acolho // vivo à flor da pele / não olho por olho”.

Na hora do jogo/embate e da transa/trama amorosos, o afrontamento é rechaçado pela tessitura  de comportamentos opostos que visam à desarticulação da agressividade do outro, convertendo-a em teia de afetos. Para tanto, a sapiencial inversão de um provérbio bíblico tem como finalidade apaziguar, serenar, cativar o outro.

Observemos que o substantivo “olho” pode mudar transmudar-se em verbo: “eu olho”. Melhor, ao “olho por olho” o eu-lírico responde com “eu não olho” por onde? “por olho”. Quer seja, ele não olha pelo olho. Afinal, (1) não lhe interessa a vingança bíblica “olho por olho, dente por dente”, (2)  interessa-lhe olhar não pelo olho, mas, quem sabe, pela pele, pelo corpo, pelo coração, pelos sentimentos.  É com um novo modo de “olhar” que o eu-lírico responde ao confronto. E, no plano formal do poema, a quadra – modo sublime da poesia lírica – é o espaço de que o poeta se vale para revelar sua generosidade. Seu amor.

Seguindo nesta linha de contrastes e confrontos – nada euclidianos –, temos o poema “Sertânica” (p. 30) que ilumina, deslumbra, inspira o coração do eu-lírico: “metade era / soco // outra metade / sopro // e tudo era tanto / pro meu coração / tão pouco”. A poesia enquanto condensação de ideias, imagens, sonoridades – como apregoa Pound. Eis uma das lições minimalistas de Lau Siqueira que leva o leitor a sentir-se de bem com a vida, com a literatura, com as artes. Dentro de um patchwork  da cultura sertânica. É o sertão ganhando o mundo pelas veredas dos sentimentos do poeta.

Muito ainda há a se falar sobre os poemas da primeira parte deste livro. Destaco “Sonhar entre as pétalas do teu corpo” (p. 41), em que o ato de fazer amor é entretecido por imagens e sonoridades em cópula de volúpias, prazeres e alumbramentos. É um poema longo, e aí reside outra particularidade que a poesia de Lau vem tomando nos livros mais recentes. O poeta saber ser minimal e sabe ter fôlego. Em ambos os casos sua poesia é rigorosamente expressão da condensação. Cada palavra é engenharia e engrenagem necessárias à maquinaria do poema. À máquina do mundo poético. À descoberta e revelação do mundo. Lau sabe disso. Por isso faz.

Os tercetos da segunda parte, dedicados a Saulo Mendonça, rendem justa e bela merecida homenagem ao grande poeta haicaísta brasileiro.

Como na maioria dos haicais feitos mundo afora, o universo sideral constela-se nas estrofes de três versos. Em tempo: Lau Siqueira dispensa o rótulo de haicai a seus tercetos. Mas em vários deles, não somente o universo temático desta forma de poesia está presente: também a sua essência poético-oriental a habita.

A clássica figura da lua cheia, tão cara aos haicaístas, aqui aparece como inusitado (ou quem sabe corriqueiro) alvo dentro de uma tranquila (ou insegura) noite: “Subúrbio tranquilo / miro na lua cheia / e atiro”. Aqui as vogais em “i” retinem os tiros. A bem da verdade, a rima toante é uma das constantes na poesia de Lau. Ele sabe extrair som de vocábulos abafados.

O universo sideral prossegue na linguagem ilógica e surreal do amor: “Palavras loucas / línguas conversando / no céu da boca”. Exemplo claro de que língua e boca, palavra e céu são matrizes do amor e da poesia.

À solidão da lua no céu, o eu-lírico acopla a sua, presa ao chão cotidiano: “sensação estranha / a solidão é uma lua / que me acompanha”.

Ainda o espaço sideral. Desta vez, do alto o eu-lírico fornece uma visão melhor do que se passa/passou na terra: “Subirei nas telhas / para ver garrincha / driblando as estrelas”. O contraponto do alto e baixo imprimem um drible às imagens do poema: o vivem entre solo, telhado e céu espelham o jogo em marcações geniais.O futebol ganha um belo terceto. E a rara poesia sobre este esporte passa a contar com um poema antológico.

Por fim, fechando o livro, ao comentar sua produção poética, o Lau presenteia o leitor com um texto em prosa que é uma fieira de maravilhamentos. É quando a poesia adentra a prosa e a torna leve, uma suave, sublime – prosa porosa.

A memória é uma espécie de cravo ferrando a estranheza das coisas é um livro que veio pra ficar na cena da poesia brasileira contemporânea. Bem como na memória e no coração do leitor.

 

 

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