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Berimbau de lata, de Tânia Lima

Amador Ribeiro Neto

 

Tânia Lima (São Luís-MA) é poeta e professora de literatura do curso de Letras da UFRN. Publicou Pedra do sol (1996, prêmio SESC-Rio), Bela estrangeira (2001, prêmio Xerox do Brasil), Nus mangues (2003, prêmio “Descoberta da Literatura  Brasileira”, da revista Cult). Faz parte de lutas feministas e antirracistas. Berimbau de lata (Natal: Ed. Sebo Vermelho, 2016) é seu mais recente livro.

A poesia de Tânia é minimalista – ainda que Berimbau de lata traga um longo poema em prosa. Mas mesmo aí a poesia é condensada, numa riqueza de imagens admiráveis e inusitadas. A discursividade também pode ser minimalista, nos lembra Pound: basta centrar-se na condensação das ideias.

Além do minimalismo, o inusitado é uma das faces desta poesia. Inusitado entendido como revelação alumbrada do que, até então, nos era trivial. Assim, a simples concha do mar, que reproduz o som das ondas maravilhando nossos ouvidos de criança, ganha a sedução de outro som, inesperado,  encantador:

 

mar desvirado

concha acústica ecoa

primeiro som do mundo

maracatu de palavras

 

A criação do mundo pelo som tribal dos maracatus, junto ao som primevo das palavras. Octavio Paz nos lembra que a poesia preexiste à prosa. Antes de contar histórias ao redor do fogo o homem já cantava e dançava em musicalidade poética.

O Marco Zero (local de chegada  dos holandeses a Pernambuco) tem mãos que são lidas por uma cigana. Personificar coisas e tomar substantivos como verbos são dois recursos que esta poesia explora com maestria.

No poema “Pra Lia de Itamaracá” os instrumentos musicais transmutam-se em verbos. O resultado é a presença concomitante da ideia de essência do instrumento com a ressonância ágil de sua ação. Não somente a carga da palavra substantiva, mas também o movimento do verbo conjugado.

 

realejo partituras de palavra

retiro som de rabecas

triangulo as flautas de pífanos

misturo ritmos de violino às

bandas de percussão

 

 

Em “Tambor de crioula” temos:

 

Nascem lantejoulas

no sol da zona da mata

caboclo de lança

dedilha para uma tocata

Ogum solfeja pra Iansã

cigana lê as mãos do Marco Zero

Zumbi e Urucungo

chocalha tambor-de-crioula

reco-reco de agogô

alfaia começa BATUCADA

 

A mistura de culturas afro-ameríndias é uma das dominantes deste livro. E o uso das onomatopeias reitera a dimensão rítmica da musicalidade dos poemas. Musicalidade que, aqui, configura-se, prioritariamente africana. E daí rendendo raízes para a cultura nordestina, marca forte do livro.

 

ALFAIAS

Para Naná Vasconcelos

 

!  !

pan-dan-dan-dan-dan

pan-dan-dan-dan-dan

pan-dan-dan-dan-dan

pan-dan-dan-dan-dan

pan-dan-dan-dan-dan

pan-dan-dan-dan-dan

 

As onomatopeias são associadas às inversões espaciais (os conhecidos quiasmos), bem como às anáforas (a repetição de palavras no início, meio ou final do verso). Tais recursos de linguagem imprimem musicalidade tanto pela semântica dos vocábulos, como pela espacialização deles nos versos. A homenagem a Jorge de Lima enfatiza a excelência de qualidade de sua poesia. Assim como pela incorporação que o poeta opera com as culturas afro e nordestina:

 

ESSA NEGA FULÔ

 

rebola os pixains

bum-bum-bum

Qui-ti-bum bum-bum-bum

pandeiro bate-bate

bate-bate tamborzim

tamborzim bate-bate

com(passos) sincopados

maracatu baque solto

atabaque bate-bate

bate-bate zabumba

maracatu baque virado

bum-bum-bum

Qui-ti-bum-bum-bum

maraca(tu)

 

O leitor certamente já se deu conta de como Oswald de Andrade, com sua efervescência antropofágica, faz-se presente em Berimbau de lata.  No poema abaixo, sem título, o irreverente modernista salta no ritmo do maracatu. E bem poderia ser da capoeira:

 

maraca (eu)

Qui-ti-bum Qui-ti-bum Qui-ti-bum

bum-bum-bum !!!

Bum-Bum!!

BUM!

 

Um poema-bomba capsulado em garrafa de coquetel.

 

A cultura popular, como dissemos, norteia a poesia de Tânia Lima. E, em especial, este livro, desde o título – instrumento, música e cultura nordestinas.

 

Catirina

Sobrevoa carnaval

 

Mateus dança

Caboclinhos

 

Reis e Rainhas

Vestem o frevo

 

Caboclo de Lança

Guarda carnaval

 

A Catirina é a personagem feminina movida pela alegria, pela descontração e pelo entusiasmo nos folguedos do Bumba-meu-boi.  Ela é aquela que, grávida, manifesta o desejo de comer uma língua de boi. Pai Francisco, seu marido, precisa cumprir esta missão, ainda que, pobre, não tenha uma só cabeça de gado.

Já Caboclinhos é dança da cultura popular pernambucana, muito comum durante os festejos carnavalescos, em que seus dançarinos fantasiam-se de índios.

O caboclo de lança é uma das figuras mais expressivas do carnaval pernambucano, chegando, por vezes, a ser tomado como ícone destes festejos populares. O caboclo de lança é a principal figura do maracatu rural, também conhecido como maracatu do baque solto.

O poema vale-se desta gama de caracteres populares pernambucanas para, de forma sintética e condensada,  em flashes  cinematográficos, projetar cenas de dança, música, folia, celebração.

Na esteira irreverente da canção “Samba dos animais”, de Jorge Mautner e Nelson Jacobina, bem como no ritmo apaixonante de Jackson do Pandeiro, temos

 

uma galinha

soprano

blues em

mi maior

solfejou: MI-AU !

do outro lado

vira-lata soletrou

UAU….!

 

A recorrência dos neologismos vai na direção do caldeirão das culturas mescladas, miscigenadas, misturadas, reverberadas, renovadas, recicladas. Tudo conflui para um festival de cores, sons,  danças,  saberes e sabores populares.

Tânia Lima toca seu berimbau e bota o leitor feliz da vida. Poesia da resistência feita com maravilhamentos, alumbramentos, descobrimentos. A felicidade tem nome certo: poesia de Tânia Lima.

 

 

 

 

 

 

 

 

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