Para quando, de Kaio Carmona

Amador Ribeiro Neto

 

Kaio Carmona (Belo Horizonte, 1976) fez graduação, mestrado e doutorado na UFMG. É professor de literatura. Autor de Um lírico dos tempos (ensaio, 2006) e Compêndios de amor (poesia, 2013). Para quando (Belo Horizonte: Scriptum, 2017) é sua mais recente publicação.

Para quando: o título encerra uma pergunta? Uma reticência? Uma exclamação?

Não há sinal algum de pontuação, mas o título sinaliza para uma das constantes do livro: aquilo que interessa não está nomeado. Vale a espera? Que tempo é esse? Vale o desespero? Vale o silêncio? A contenção? O derramamento?

Há algo que, dirão alguns, beira o místico nos poemas de Kaio Carmona. Para outros, parece que há algo que, simplesmente, escapa a definições. Algo que não se entrega. Que se embrenha na dissimulação e lá faz seu habitat.

Por isso mesmo esta poesia encanta. Ela não parte e nem busca o místico. Ela se instaura e permanece na concretude da realidade. Na materialidade dos corpos.

Há um eu-lírico que lança sua voz a partir de um lugar comum, reles, cotidiano. Mas lança-a com timbres inusitados. Timbres que seduzem nossa audição. Atiçam nossos corpos e desejos. E, por isso mesmo, nos levam a correr atrás. Do quê? Não sabemos. A sedução nos conduz. Seguimos.

O volume está dividido em duas partes: a primeira, homônima ao título do livro, e a segunda, “O eu intermitente”. Ambas com o mesmo denominador mínimo, múltiplo e comum: o amor e suas circunstâncias.

Melhor seria dizer: incomum. Já que o amor, tal como o eu-lírico nos apresenta, embora comum e delimitado historicamente, surge-nos através de formas e modos de uma linguagem que o recria enquanto algo inédito. Recém descoberto. Para ser mais exato é melhor dizer: recém entrevisto.

E aí reside o perigo: o que falar daquilo que já foi mais do que falado/cantado? Na busca pela resposta a essa questão mora uma das qualidades de Kaio Carmona: tocar o mesmo, mas com nova gestualidade.

Outros modos e jeitos. Redizendo: outros des-modos e des-jeitos. Afinal, o poeta opera na faixa da desconstrução do conhecimento alicerçado no senso comum, no déjà-vu, nos saberes canonizados.

O poeta, que é também professor de literatura, sabe que a epifania da poesia deslinda-se na forma do dizer o que busca dizer. E não na mera semeação semântica das ideias. Por isso mesmo seu livro ganha o leitor em vários momentos. Diria até: na quase totalidade.

Sem dúvida alguma, são poemas na linhagem adeliana, naquilo que Adélia foi buscar em Drummond: a naturalidade de uma dicção poética nascida de fonte popular. Daí emerge a poesia das grandes e miúdas delicadezas. Uma poesia que, bela per se, reverbera, despudoradamente, Adélia e a lição do seu mestre, Drummond.

Transcrevo Banquete:

 

E finalmente conheces o amor

e nele apostas teus medos.

Amas com fome:

Dia após dia macerando a carne

com cansaço.

Tenaz.

E amas com raiva.

Torna-te meticuloso de sua posse.

Assassino.

Persecutório.

Vigilante incansável.

Finalmente conheces o amor

Para, conforme a fome, matá-lo.

 

 

Kaio Carmona não se envergonha do vasto amor. Como nada tem a esconder na intertextualidade, pari passu, com a poesia dos dois poetas citados e de outros, dentre os quais, Bandeira, Vinícius, Neruda, Florbela.

O amor não tem fronteiras. Foge a dicionários e influências. Tal como a poesia. E Kaio Carmona sabe disso. Por isso sua poesia é bandeira desfraldada com a obra de grandes nomes de nossa literatura.

Em Adélia Prado ele encontra a reverberação do universo drummondiano. Porém, de ponta-cabeça. Com os malabarismos de outra poesia, cozida ao fogo dos sentimentos. Transcrevo Esse tráfego doméstico:

 

De silêncio em silêncio

– em pequenos sustos –

vai se construindo nosso amor

diário.

Os cômodos da casa ainda são grandes,

como eram grandes os cômodos das casas

antigamente.

E mesmo assim nos esbarramos

de cômodo em cômodo,

esse tráfego doméstico.

Passa por mim sem me olhar e deixa sua mão

aleatoriamente

em algum lugar de meu corpo,

propositadamente.

Sei mais de você por esses encontrões e silêncios

que o seu sorriso, talhado na lida

do mundo das relações.

Seu sorriso:

Pequenos silêncios, pequenos encontros.

E o amor se erguendo no ar.

E o amor se entornando no chão.

 

Mas essa poesia feita da naturalidade da vida e das suas dicções bebe, antes de tudo, nas fontes de Camões e Dante. A grande lírica destes grandes líricos não poderia passar ilesa à poesia de um poeta sensível e ao seu coração. Que é também bombeado pelo sangue de suas leituras enquanto leitor e professor de literatura.

Para quando é um livro pra já. Porque o amor bate à porta. E sua insubmissão é uma lambada na dureza dos dias de hoje, de ontem, de sempre.  Nos dias de hoje, especialmente.

Lambada na dupla acepção: dança/música e paulada/cacetada.

Enfim, poesia de amor. Enfim, poesia de resistência.

 

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Bambuzal, de Rafael F. Carvalho

Amador Ribeiro Neto

 

Rafael F. Carvalho (S. Paulo, 1978), bacharel em Letras pela USP, colunista da revista Samizdat, autor de A estante deslocada (2011), A cor do sol (2013), Terceiro livro (2015). O bico do pássaro (Coleção Leve um livro) e Bambuzal (Belo Horizonte: Moinhos), de 2017, são suas mais recentes publicações. Ambas exclusivamente de haicais. Os de O bico de pássaro (na verdade um microlivro) estão todos contidos em Bambuzal. Há apenas um, com formato divergente, em ambas as publicações. Cito-o: “Minha cama é feita / de palha de arroz. Plantar / tem outras intenções”, naquela e “Minha cama é feita / de palha de arroz. / Plantar tem outras intenções”, nesta.

O deslocamento do verbo plantar, no microlivro, semeia novo ritmo e realça a ação do plantio. A interrupção sintática do segundo verso enfatiza a ideia de movimento e, pela pausa, reforça a ambiguidade do verso seguinte: “plantar tem outras intenções”.

Rafael F. Carvalho, ao arquitetar as imagens do poema, revela apurado zelo, realçando-lhes a plasticidade. Todos sabemos que enfatizar a imagem é um dos princípios balizares do haicai. Ao lado do enfoque meditativo. Até aí, nada demais. No entanto, o diferencial de Carvalho está no zelo descritivo das imagens, entretecido por vieses de minúcias. E também na mirada reflexiva que vaza os versos.  Esta dupla associação gratifica.

Gratifica pelo sublime em si. Gratifica por pensar o mundo por outros ângulos.

Ora o tempo percebido no ato de matar a sede nas águas do rio. Ora a chuva e o arroz sendo cozido, conjuntamente, pelos moradores da aldeia. Ora os brotos crescendo sob o quimono molhado no bambuzal. Ora a noite assobiando em forma de lua, no bico do pássaro. Etc.

Insisto: o poeta trabalha seus haicais com filigranas de requintada elaboração. E aqui, trabalho e requinte nada têm de erudição vazia. Ou empolada. Antes: o requinte deste trabalho está em verticalizar o coloquial numa dicção ainda mais fluente. Musical. Imagética. Quer seja: poética, de primeiro grau.

É quando a magia cria morada na fala do dia a dia.

Onde residem a beleza e a delicadeza destes haicais? Na semeadura das ideias em campos de imagens, na associação da beleza plástica à reflexão filosófica.

É a filosofia encantando-se pela pintura. Como em O casal Arnolfini, de van Eyk ou em As meninas, de Velázquez.  Quer seja: quando filosofia e arte amalgamam-se. Quando pintura e poesia veem-se dentro de si: reverberações em espelhos, quadros, reflexos.

Os haicais de Rafael F. Carvalho operam esta síntese brilhantemente. Apontam para fora e veem-se internamente. Tal como a leveza das folhas do bambuzal, lindamente espalhadas/espelhadas na capa do livro. Movimento que alcança a quarta capa como suave sinfonia.

Em tempo: o projeto gráfico do volume, capa, título e fontes de impressão estão em harmonia zen com os haicais. Tudo é leve, tudo se move. Tudo é finesse. Brisa de encantamentos, o volume é sedução gráfica para os olhos, mente e coração do leitor.

O universo temático haicaísta faz-se presente pela cartada da palavra-curinga arroz – e suas derivações: palhas de arroz, cozer o arroz, comer o arroz. E está contido no uso de vocábulos como lua, noite, insetos, plantação, aldeia, quimono, bambu, mar, pássaros, etc.

O tempo de preparar a comida, as estações do ano, o ato de contar histórias, observar a noite, tocar um instrumento, cuidar da plantação, dar-se conta da velhice – tudo converge, em flashes rápidos e certeiros, para modos de vida familiares ao leitor.

O todo conflui para a beleza da poesia carvalhana. Lê-la é adentrar numa projeção da memória em que as imagens vêm carregadas de ideias. Ideias de quem não somente olha o mundo, mas olha-o pensando, refletindo, sentindo. Significando e ressignificando numa folha de bambu, num bico de pássaro.

A emoção de ler Rafael F. Carvalho é a de encontrar sutilezas na vastidão bruta da vida.

Hoje, poesia, teu nome é encanto, carinho e cuidado em Bambuzal.

 

Bebendo água em

um rio vi cabelos

grisalhos: inverno

 

 

Chove na aldeia:

todos cozinham

seu jantar de arroz

 

 

Meu quimono seca no

pé de bambu. Percebo

brotos crescendo debaixo

 

 

O bico do pássaro

tem a forma da lua:

A noite vai assobiar

 

 

O rochedo leva

o mar para o céu:

estrelas de sal

 

 

Só as crianças

fazem leite de arroz:

a velhice é bruta

Bambuzal, de Rafael F. Carvalho

Amador Ribeiro Neto

Rafael F. Carvalho (S. Paulo, 1978), bacharel em Letras pela USP, colunista da revista Samizdat, autor de A estante deslocada (2011), A cor do sol (2013), Terceiro livro (2015). O bico do pássaro (Coleção Leve um livro) e Bambuzal (Belo Horizonte: Moinhos), de 2017, são suas mais recentes publicações. Ambas exclusivamente de haicais. Os de O bico de pássaro (na verdade um microlivro) estão todos contidos em Bambuzal. Há apenas um, com formato divergente, em ambas as publicações. Cito-o: “Minha cama é feita / de palha de arroz. Plantar / tem outras intenções”, naquela e “Minha cama é feita / de palha de arroz. / Plantar tem outras intenções”, nesta.

O deslocamento do verbo plantar, no microlivro, semeia novo ritmo e realça a ação do plantio. A interrupção sintática do segundo verso enfatiza a ideia de movimento e, pela pausa, reforça a ambiguidade do verso seguinte: “plantar tem outras intenções”.

Rafael F. Carvalho, ao arquitetar as imagens do poema, revela apurado zelo, realçando-lhes a plasticidade. Todos sabemos que enfatizar a imagem é um dos princípios balizares do haicai. Ao lado do enfoque meditativo. Até aí, nada demais. No entanto, o diferencial de Carvalho está no zelo descritivo das imagens, entretecido por vieses de minúcias. E também na mirada reflexiva que vaza os versos.  Esta dupla associação gratifica.

Gratifica pelo sublime em si. Gratifica por pensar o mundo por outros ângulos.

Ora o tempo percebido no ato de matar a sede nas águas do rio. Ora a chuva e o arroz sendo cozido, conjuntamente, pelos moradores da aldeia. Ora os brotos crescendo sob o quimono molhado no bambuzal. Ora a noite assobiando em forma de lua, no bico do pássaro. Etc.

Insisto: o poeta trabalha seus haicais com filigranas de requintada elaboração. E aqui, trabalho e requinte nada têm de erudição vazia. Ou empolada. Antes: o requinte deste trabalho está em verticalizar o coloquial numa dicção ainda mais fluente. Musical. Imagética. Quer seja: poética, de primeiro grau.

É quando a magia cria morada na fala do dia a dia.

Onde residem a beleza e a delicadeza destes haicais? Na semeadura das ideias em campos de imagens, na associação da beleza plástica à reflexão filosófica.

É a filosofia encantando-se pela pintura. Como em O casal Arnolfini, de van Eyk ou em As meninas, de Velázquez.  Quer seja: quando filosofia e arte amalgamam-se. Quando pintura e poesia veem-se dentro de si: reverberações em espelhos, quadros, reflexos.

Os haicais de F. Rafael Carvalho operam esta síntese brilhantemente. Apontam para fora e veem-se internamente. Tal como a leveza das folhas do bambuzal, lindamente espalhadas/espelhadas na capa do livro. Movimento que alcança a quarta capa como suave sinfonia.

Em tempo: o projeto gráfico do volume, capa, título e fontes de impressão estão em harmonia zen com os haicais. Tudo é leve, tudo se move. Tudo é finesse. Brisa de encantamentos, o volume é sedução gráfica para os olhos, mente e coração do leitor.

O universo temático haicaísta faz-se presente pela cartada da palavra-curinga arroz – e suas derivações: palhas de arroz, cozer o arroz, comer o arroz. E está contido no uso de vocábulos como lua, noite, insetos, plantação, aldeia, quimono, bambu, mar, pássaros, etc.

O tempo de preparar a comida, as estações do ano, o ato de contar histórias, observar a noite, tocar um instrumento, cuidar da plantação, dar-se conta da velhice – tudo converge, em flashes rápidos e certeiros, para modos de vida familiares ao leitor.

O todo conflui para a beleza da poesia carvalhana. Lê-la é adentrar numa projeção da memória em que as imagens vêm carregadas de ideias. Ideias de quem não somente olha o mundo, mas olha-o pensando, refletindo, sentindo. Significando e ressignificando numa folha de bambu, num bico de pássaro.

A emoção de ler Rafael F. Carvalho é a de encontrar sutilezas na vastidão bruta da vida.

Hoje, poesia, teu nome é encanto, carinho e cuidado em Bambuzal.

 

Bebendo água em

um rio vi cabelos

grisalhos: inverno

 

 

Chove na aldeia:

todos cozinham

seu jantar de arroz

 

 

Meu quimono seca no

pé de bambu. Percebo

brotos crescendo debaixo

 

 

O bico do pássaro

tem a forma da lua:

A noite vai assobiar

 

 

O rochedo leva

o mar para o céu:

estrelas de sal

 

 

Só as crianças

fazem leite de arroz:

a velhice é bruta

Identidade, de Daniel Francoy

Amador Ribeiro Neto

Daniel Francoy (Ribeirão Preto, 1979) é graduado em direito e trabalha no Poder Judiciário do Estado de S. Paulo. O terceiro lugar no Jabuti 2017 é seu com Identidade (Bragança Paulista: Urutau, 2016). Até então só fora publicado em Portugal. É autor de Calendário (Lisboa: Artefacto, 2015) e Em cidade estranha / Retratos de mulheres (Lisboa: Artefacto, 2010).

A poesia brasileira contemporânea, em parte, vai muito bem. Nomes (de poetas vivos) como Adélia Prado, Ademir Assunção, Adriano Espínola, Alberto Lins Caldas, Alexandre Guarnieri, Alice Ruiz, Antonio Vicente Seraphim Pietroforte, Arnaldo Antunes, Carlos Ávila, Cazé Lontra Marques, Delmo Montenegro, Flávio Castro, Frederico Barbosa, Glauco Mattoso, Lau Siqueira, Líria Porto, Márcia Maia, Marco Lucchesi, Marcos Siscar, Maria Lúcia dal Farra, Paulo Henriques Britto, Rodrigo Garcia Lopes, Ronald Polito, Rosana Piccolo, Ruy Proença, Sérgio de Castro Pinto, Simone Andrade Neves, Susanna Busato, Virna Teixeira, Zuca Sardan, dentre outros, comprovam sua aprumada materialidade. E, sem dúvida alguma, o maior de todos: Augusto de Campos.

Presentemente novo nome vem juntar-se a estes já grandes: Daniel Francoy. Sua poesia é potente: seduz o leitor ao primeiro contato. É arquitetada na mais elaborada linguagem. E, coisa rara, desenha rico universo de reflexão sobre o mundo e os sentimentos.

Esta poesia opera uma operação algébrica: sublime materialidade da palavra + densa argamassa das ideias + exata musicalidade.

Ao lê-la, o leitor sente o impacto que a grande arte provoca: o que é lido ergue-se em inusitadas configurações. Ainda que cotidianas. Ainda que vistas e entrevistas pelas janelas de todos os dias.

Eis onde reside um dos méritos de sua obra: no vértice da mais refinada poesia entretecida por um rol de ideias, preenchido de significados, significações e significantes. Quer seja: a palavra em sua dimensão absoluta: o vocábulo em si, seu uso figurado e imagético (no caso, imagem marcadamente musical).

Esta poesia segue na contramão da pauperização da linguagem. Insubordina-se contra a debilitação das reflexões. Tem gana, força e coragem de guiar-se contra a mesmice cristalizada (e aplaudida) por grande parte da produção poética brasileira contemporânea.

A poesia de Daniel Francoy é rigor associado à leveza. Encanta. Arrebata.
Ela desconstrói imagens, pensamentos e ritmos descoloridos pela voracidade da comunicação rápida e barata. Insurge-se, com ousadia, contra as expectativas do mercado editorial e as dos leitores acomodados. E ainda mais: à afronta da ironia, da irrisão, do cinismo, no niilismo, da antipatia contrapõe a ternura. A ternura de uma visada ao mesmo tempo branda e dura.

Branda, na amorosidade com que revela o mundo e os sentimentos. Dura, na honestidade de tomar a vida sem os torneios dos enfeites. Sem os contornos das dissimulações. Tal procedimento instiga o leitor empenhadamente sério, o leitor-contra (ao gosto de Cabral e Augusto), o leitor-sensível (ao gosto de Adélia e Bandeira).

A poesia de Daniel Francoy sabe erguer-se na fronteira do necessário e do honesto. Cavouca fundo sem temer que tipo de verdade que possa encontrar. E, ao encontrá-la, não a revela com a fúria das bombas. Antes: inesperados maravilhamentos cotidianos desabrocham. Lição de poesia para todo aluno-leitor receptivo à outra alfabetização. Aquela que prioriza a sensibilidade do sujeito dentro (e ante) o mundo.

Sim, a força desta poesia impõe-se como novo e necessário aprendizado. Depois de lê-la, uma missão impossível se apresenta: esquecê-la. Como a descoberta de um novo amor, ou a morte súbita de outro, sua experiência perfura e perpassa o corpo, a memória, a cabeça, o coração. Aquilo que se sabe de arte e de poesia é posto em suspensão. E adentra-se a galáxia de epifanias: aclaramento cru do mundo e da história. Descoberta de si através das luzinhas da estrela-poesia (dentro da noite escura da vida).

Há na poesia de Daniel Francoy laivos de T. S. Eliot e de Fernando Pessoa. Naquilo que ambos têm de feliz associação entre filosofia e linguagem. Com o adendo: Daniel Francoy dialoga com estes dois grandes mestres, porém a voz que canta – poderosa e de timbre único – é a de novo poeta. Novo na idade. Novo na experiência das publicações. Novo no patamar que passa a ocupar na cena de nossa poesia. Novo na força de uma nova poesia que nasce no Brasil.

O leitor terá percebido que vivo o fascínio causado pela poesia de Daniel Francoy. Por isso compartilho esta descoberta de imensos prazeres e singular identidade.

Transcrevo poemas do livro Identidade.

ABRIL

De todos os meses, abril
é o que melhor me ludibria:
não há segunda vida — as pradarias
ainda são terra queimada
e o orvalho que virá, noite alta,
será mais cruel para as raízes
do que o gelo misturado ao barro.

Ainda cansado. Ainda com os olhos
batidos pelo calor mais antigo
e pelas sombras mais viscosas: espectral
voz marítima em cidade distante do mar.

A voz do luar — impuro delírio.
A voz do que naufragou e foi levado
pelos torvelinhos: cabelos com gosto de sal,
o coração tocando melodias alucinadas,
as frutas ácidas que perderam o sabor,
um preço muito alto ou muito ínfimo pelo amor.

Assim entro em abril. Assim o azul sem nuvens
se abre como uma terra sem máculas, uma terra
lavrada para o que nunca nasceu.
Assim os dias retornam à repetição:
as nuvens surgem à tarde, ora ventos exíguos,
ora redemoinhos de terra escarlate;
ora o que está distante parece próximo,
ora o que está presente mal se sente.
Assim as noites se desprendem
de um esbrasear fugidio: as estrelas são chama branca
e branca névoa sopra por entre as ruas quietas.
Todos sentem sono. Todos se enrodilham
a uma mágoa que parece suave,
a uma tristeza de voz débil,
a um doce tédio que mal volve os olhos
para as mortas raízes entre a terra revolvida.

CLARIDADE

Se ao menos não houvesse dúvidas:
é aquela hora de bruma e de medo
e a relva, amanhecendo úmida,
tem como raízes vísceras misturadas.
Se ao menos soubéssemos: sob o luar
Joana D’Arc é queimada e ascende
ainda mais translúcida do que a brisa
desfeita pela fuligem — é aquela hora
de árvores inertes e muros ensanguentados.
Se ao menos contemplássemos: arde
a cidade e somos nós os saqueadores,
nós os negros, nós os gregos, nós as troianas
deixadas ao estupro, aterrorizadas
por uma suspeita que jamais se confirma.
O que será esse rumor? Ratos
correndo no forro dos telhados ou torvelinhos
de vento uivando durante a madrugada?
Se ao menos uma palavra nomeasse
a pedra escura queimando o peito —
mas não: é meio-dia, faz sol
e a praça central se afoga em claridade.

DEZEMBRO

Tão baixo, possível, familiar,
o luar é apenas sujeira no céu.
Ainda mais abaixo, há grilos, mosquitos,
morcegos, a água barrenta
de um riacho, a doçura
dos frutos rachados pelos vermes
e também a aspereza
em rostos que o tempo tratou
como pedra que nunca foi movida.
Não fui uma ave migradora
e há rios que deixam de fluir
sem encontrar algo maior.

NA FRONTEIRA ÚLTIMA DA CIDADE

Acordo e o que existe de opaco, no sono,
perdura no primeiro instante:
o eco da chuva vinda na madrugada,
o bafio seco, o ar exaurido, a fria luz
do começo do sol. A fria luz e o alvorecer
semelhante à neve suja.

Acordo e o que existe de torpor
permanece nos primeiros movimentos:
levantar-me,apartar-me
do corpo que ao lado dorme, lavar-me,
promover o encontro da pele ferida
com o vento tornado áspero,
com o branco céu que recrudesce.

A cidade é um galpão de tetos baixos e luzes mortiças.
O fumo dos cigarros. O fumo dos motores.
Voltar a dormir durante a viagem de ônibus
e contemplar a paisagem entre lapsos
de consciência:
o rio é mais lama do que água
e no entanto o rio
é para onde fogem os animais mutilados

A cidade é um galpão de paredes de vidro
e o calor fere os olhos ao atravessá-la
e rebrilha quando o céu deixa de ser branco.
Nunca passei por esta estrada
e não vi ao menos uma árvore coroada de flores
em exaltado esplendor.
Como se um deus estivesse ferido
no coração pela ponta de uma lança
e não mais deixasse de sangrar.
Ainda quando o dia é estio, ainda
quando o céu é limite incendiado,
a perpétua agonia de um deus que não morre
é o que explica a coroação alcançar fevereiro,
quando o calor já calcinou todas as raízes.
Na fronteira última da cidade e mais além
estão os ipês e me pergunto
se o amor, com a sua natureza bravia,
terá a mesma permanência.

AUTORRETRATO

Diante de mim, na parede
em que aparecem os primeiros sinais
do tempo infiltrado, há uma prateleira
ainda por arrumar.
Virá alguém um dia e dirá
é uma casa com a beleza
das ruínas e então
serei como qualquer pessoa que morreu
quando eu ainda não era nascido.

Em tempo – Notícia boa: o poeta tem novo livro no prelo. Aguardemos.

A arquitetura das constelações

Amador Ribeiro Neto

 

Mauricio Duarte (S. Paulo, 1981) é jornalista e poeta. Estreou em 2007 com Rumor nenhum. O segundo livro, Balde de água suja (2015), tivemos a oportunidade de comentar aqui no Augusta Poesia. Sua mais recente obra é A arquitetura das constelações (S. Paulo: Patuá, no prelo). E, coisa boa, mantém o vigor dos livros anteriores.

Para Maurício Duarte poesia não é manha nem frescura. É frescor da concreção de ideias. Pois: estamos diante de um livro que foi pensado estruturalmente. Da primeira à última parte. São quatro blocos sólidos, radiantes e radioativos, que se movimentam em torno do próprio eixo e dão origem à figura do círculo, unidade perfeita que enlaça o volume.

Unidade matemática.

Unidade poemática.

Unidade que evita a dimensão estratosférica, fundindo poema e asfalto das ruas. Ainda que mirando as constelações estelares.

Nada há de vácuo neste projeto solidamente edificado. O buraco negro da folha, do coração, da mente e do espaço sideral ata os vãos das palavras salteadas ora em prosa, ora em prosa porosa. Sempre: cristadas sob o amparo da grande poesia.

Logo na primeira página, a pretensa definição científica de “imaginação humana” rarefaz-se em desfecho multidimensional: A imaginação humana é uma arquitetura de constelações. Este será o mote. Esta, a estratégia desta poesia: focar no alvo, acertar nele e no seu brilho.

No início da primeira parte, o poeta dispara: imaginação humana: / arquitetura das constelações. E, ao final dela:

 

 

a expansão do cosmos
em direção ao infinito

o insondável assombro
diante dos gases estelares

o rastro luminoso
do último meteoro

a música incessante
das esferas celestes

o alarido da dúvida rolando
na aridez do universo

a imaginação humana como
arquitetura das constelações

 

Ao fazer uso de variações em torno do mesmo tema, esta poesia busca a música do cosmos – uma música anticonsoante. Uma música de rimas toantes. Despojada. Socada a palo seco. Por isso mesmo, o parentesco cabralino se dá na negação óbvia do texto de Cabral. E entrega-se na penetração do cerne do seu sol metálico, de suas mesmas vinte palavras. Aí a linguagem do poeta vai mais longe e recicla o férreo sentimento drummondiano. Entre estrelas e metais ela impera,  ácida e sublime, na cidade, nos sentidos.

A segunda parte inicia-se espelhada na primeira: a prosa porosa, prosa poética, poesia em linhas ao invés de versos. Já as partes três e quatro reverberam a poesia em estado bruto. Brutalmente talhada na crueza das palavras. Se há um sentimento neste livro é o de posse de um eu em fraturas. Um eu retalhado pelos acidentes da vida – aqui ou no exterior. Sempre: a fratura exposta de um enigma. Há algo nesta poesia que foge. O leitor se atém à sua beleza implícita – sedução pelo dito que não se diz.

 

A linda moça solitária do café. Ou a linda moça que almoça sozinha no restaurante tem um olhar melancólico. Uma luz mortiça incide sobre ela. Uma pintura de Hopper. Nós, figuras oprimidas pela beleza, sempre partimos do pressuposto de que essas mulheres lindas estão solitárias. Não há nenhuma evidência disso, a não ser nosso próprio desejo mais ou menos oculto de que elas sejam solitárias. Porque não suportamos o pouco que nos é lícito desvendar. A música das esferas é negada aos nossos sentidos. Resta-nos somente esse desejar o mal disfarçado de banalidade. E assim revidar sua insídia.

 

Todavia, não nos iludamos pensando que estamos diante de um texto hermético. Ao contrário: esta poesia deslinda, desenreda e propala a significação do sentir mais absoluto: aquele do ouvido apurado que ouve o próprio corpo:

 

a linguagem é sempre
insuficiente para represar
o caudaloso sangue
que vibra e infla
por debaixo da pele

a pata do desejo
desemboca inequívoca
no esgotamento

há qualquer coisa de
irreprimível na música
dos nervos aniquilados

apure o ouvido:
o corpo canta

 

 

O acaso é um pretexto para a intervenção da ironia. Fina ironia que se faz lírica mesmo quando cáustica. A insatisfação do eu lírico com seu repertório de conhecimentos acerca do mundo, de si e dos mundos – galáxias afora –, leva-o a notar que se hospeda onde se hospedaram grandes nomes da literatura. Quase por osmose, não fosse a (auto-, a intra- e a inter-) ironia, a vida teria o raio, o facho, o desfecho feliz das estrelas nunca cadentes. Mas todas as estrelas o são. Logo, o poeta percebe-se um hóspede estrangeiro: um estrangeiro de si em si. Daí a angústia, o desamparo. E a poética.

O que é matiz e volátil converte-se em definido  e concreto. Eis a linha dorsal, a estrutura fundante de um livro que é a favor do enfático silêncio / das pedras. Transcrevo esta parte do poema:

 

o mar
devia ser o mar ali
a assomar à porta
de nosso entendimento

a entupir de sal a
garganta de nosso tédio
a estourar o gargalo
de nosso recato

o mar
devia ser o mar ali
a espalhar a espuma
de nossas derrotas

a espatifar nossos corpos
contra o enfático silêncio
das pedras, contra o desespero
de nossos gestos atrasados

devia ser o mar ali
a roçar nossos pés
devia ser o mar
ou quem mais suportaria
assim a luz de maio?

 

Nada escapa incólume ao choque da beleza deste livro. Melhor seria dizer: tudo esvai e vem, numa antimúsica de partículas atômicas e, venturosamente, radioativas. Que centram-se na estrutura das ideias alfa, beta, gama. Que se autodesconstroem num tsunami de senti(pensa)mentos unissonantes.

Doa a quem doer: poesia não é fricote. E Mauricio Duarte é poeta das estrelas, das cidades, da dor, do atrito, das fissuras. Um poeta para o leitor fissurado em poesia, é claro.

 

 

for mar

Amador Ribeiro Neto

 

Flávio Castro (Porto Alegre, 1966) é poeta e há 25 anos está radicado no Rio. Estreia em 2009 com Audito, um livro radical, em que a sintaxe interrompida projeta jatos de imagens. Em 2013 lança Inaudito, igualmente perturbador. E ainda mais radical. Agora, todos os poemas ocupam todos os espaços da página numa exuberância de deleites.

Com o lançamento de for mar (Rio de Janeiro: Ed. 7Letras, 2016), temos, de pronto, a busca da cumplicidade do leitor. Este livro que não existe per se. Antes: seu projeto revela um primoroso cuidado em inserir o leitor como coautor. Aquele que vê, a cada leitura – muitas formam-se, configuram-se, consolidam-se após cada poema lido, relido, retomado – edificar-se uma arquitetura vernacular de fazeres – aquela, fundante da grande poiésis.

Se nos dois livros anteriores um programa poético já se anunciava, com o presente for mar funda-se uma trilogia da linguagem poética.

Flávio Castro é um exímio perscrutador dos labirínticos percursos de luz e sombra dos vocábulos. Nele, sempre o som articula-se num entranhado jogo de visualidade e significados. A palavra espaçada no branco da página, os exuberantes neologismos, a tessitura das imagens: tudo é massa de significações em alto grau.

Por isso sua poesia é um convite a voos – ora largos, ora curtos. Todavia, sempre dentro de um rigor riscado a ponta de faca. O rigor do sol com o pacto dos cactos. O rigor do sangue – vermelho ou seco – escorrido do corpo estirado no beco.

O corpo da poesia não é frágil nem fácil para este poeta que preza as filigranas de cada consoante, de cada vogal, de cada fonema. E de cada imagem: oferenda de um devoto a seus múltiplos deuses sígnicos.

Em consonância com a afiada prática da mais condensada poesia, Flávio Castro é poeta de ardis, armadilhas e artemísias. Sua poesia aguça, açula, isca, embeleza e é um antídoto à pasmaceira dominante na cena da nossa poesia hoje.

O “livrorrio” de Flávio Castro dialoga com as conquistas da linguagem de Mallarmé a Haroldo de Campos, passando por Cummings e Joyce, entre outros. Este leque dimensiona o fino paideuma deste poeta desassossegado e inquieto que sabe, com Octavio Paz: “a atividade poética é revolucionária por natureza; a poesia revela este mundo, cria outro”. Cônscio de que aquilo que ela inventa é a forma de usar a forma para além das fôrmas cristalizadas pelos manuais poéticos – e pelo desempenho editorial do mercado.

for mar possui 4 partes. Na primeira, que dá título ao volume, subintitulada “épico da linguagem”, não há exposição de ideias, ações, narração, contexto histórico determinado, personagens. O épico dá-se na transmutação da linguagem que processa um elo-de-elos quase ao léu, não fosse a argamassa da visualidade e da reverberação sonora. Formar sequências. Formar sentidos. Formar forma. Formar ar. Formar mar. Reverberar ondas de significações. Desta forma, as estrofes (às quais o poeta prefere chamar “blocos-estéticos”), duas em cada página, evoluem paulatinamente para, ao fim do poema, fundirem-se numa só mancha gráfica. Ou num só “espaço-tempo diagramado”.

Eis um fragmento do poema que abre o livro:

 

 

ver     mar               navio

isto aquilo     dentro              sonhadoceano

istmo     influxo                cristalvo

borda            espumosa

glosa                  garrafagem

margem ala(r)gada         abortadossos

glauco azougue líquido          felino

 

 

içado                            branco árido

translúcida        luta

urro         cálido                      marco piramidal

janela               ignota fachada

lucífero        céu infame

sol           noite         escarlate           lua

 

 

 

galáxia           vocálica

coagula                palavra potável

textecido                            rio fonoaudiólogo

cerúleocéu        cheio

veio fúcsio                   papélvide

versonorolvidoucômico

 

 

daltônico               tabuleiro braille

tez          garça caligrafada

albinopoemar

desvarrido         livrorrio

fosso branco                páginanagrâmica

margens veredas sulcos     aragens

 

 

A segunda parte,“ideogramas”, processa neologismos de uma só palavra num mix de maiúsculas e minúsculas que criam uma ligação pictórica entre letras, sílabas, sufixos, prefixos, radicais, etc., – e o significado que se abre de um link para outros links: labiríntico jogo mallarmaico-cortázar-borgeano.

Em cada página do livro há um “poema ideogramático”:

 

 

JANelaBERTA

 

CORCOVAbifURCA

 

novOUTrOutoNOvo

 

voyEUrismo

 

 

A terceira parte, “braille”, radicaliza um procedimento que Edgard Allan Poe, Décio Pignatari e Luiz Ângelo Pinto constataram através da observação do código Morse. Mas, todavia, não desenvolveram: a desvocalização das palavras. Flávio Castro dá o pulo do gato e leva a percepção teórica à prática poética. O resultado são poemas que se oferecem com brincante prazer de interagir com a língua(gem) subtraída. Com isto o poeta vale-se da decantada mais valia da linguagem: less is more – na feliz expressão de Mies van der Rohe. Flávio Castro filtra a forma até seu grau minimalista. O leitor segue nesta via de mão única, inicialmente, colhendo vocábulos dicionarizados mas, depois, percebe-se recolhendo o inusitado dos neologismos. O gozo do make it new, das formas feitas, e do in progress, das formas por-fazer, toma conta da leitura. Melhor dizer: da coleitura. Cito a parte inicial deste poema:

 

 

lnc                dd

jg                  frnc

qs                  nv

sgnfcd

 

tmp                              nd

vzs                               cs

brc          ngr

glxs

 

cmçr

scrvr                             ngr

lvr

trmnr            d             scrvr

msm                            lvr

ngr

sm                cmç

nm                               fm

 

 

Em ‘côdea’ a parte final do livro, o poema “ravinas”, constituído por sete partes, desenha o final de uma via, de uma viagem, de uma linguagem – linguaviagem, para citar uma obra de Augusto de Campos – que se fecha e se abre. Isto porque a poesia de Flávio Castro é um presentar no sentido heideggeriano do termo: um continuum entre velado e desvelado. Iluminação pós-velamento. Oroboro comendo Fênix.

Cito dois fragmentos:

 

 

1

 

puripútridalcova

exbrochura                                putalusa

louçabobra                                acárea

biofídia                                       naftaerosol

 

concilíndricos

 

móbilêsmos                                               curvaurôa

inevitável                                   arcomedula

comendo                                    masticomendo

movendo                                    removendo

ritmos                                          (spleen)

 

 

 

2.

 

vozáudica

neutrestrutur                              ruasrruas

sangria                                        portuária

escoria                                        escala

assomalgazarrastros                                pactos

balaços                                       estampando

desrostos                                    figuras nulas

grave                                           tempoácido

palavralaridos

exageros                                     trânscritos

brancafolhaltruísta

 

 

O percurso épico de for mar soma-se aos de Audito e de Inaudito encerrando a trilogia com o “fátuofogorgíaco” de Nékuia. Elançando passos, braços, laços – da linguagem – a Ulisses-Homero.

Na odisseia da poesia que se sabe, que se faz, que se forma, for mar é irretocável.