Ladainha, de Bruna Beber

Amador Ribeiro Neto

Bruna Beber (Duque de Caxias-RJ, 1984), autora de A fila sem fim dos demônios descontentes (2006), Balés (2009), Rapapés & apupos (2010), Rua da padaria (2013 – que comentamos aqui no AP). Ladainha (Record, 2017) é sua mais recente publicação.

Começo com T. S. Eliot, para quem o “sentido histórico” faz com que “um escritor se torne mais agudamente consciente de seu lugar no tempo, de sua própria contemporaneidade. Nenhum poeta, nenhum artista, tem sua significação completa sozinho”. E mais adiante pontua: “Entendo isso como um princípio de estética, não apenas histórica, mas no sentido crítico”.

Pois é. História. Estética. Crítica. Qualidades inerentes a um poeta. Lamentavelmente não encontradas na poesia de Bruna Beber. Ela integra o grupo de poetas que desconhecem a história da poesia. Que ignoram poesia enquanto tradição e atualidade. E que, portanto, nada têm a dizer.

Um grupo que, sem ideias e sem projeto poético definidos, escreve à solta e salteadamente. Que faz reles uso do coloquial e deleta o poético. Mata a poesia pela via de pífio prosaísmo.

Os títulos das três partes de Ladainha já introduzem o leitor às facilidades/ falta de criatividade da poeta: “vidádiva”, “canseios” e “meu deos”.

Há quem queira ver em sua poesia o sinal da fragmentação, da rarefação, da banalização de nosso tempo – também chamado, com garantias teórico-acadêmicas – pós-moderno.

Sem dúvida há a possibilidade de se fazer esta leitura. O problema é que, no caso específico de Bruna Beber, ao se buscar a pertinência entre o texto e a falta de sentido referencial não se é convencido da pertinência (e nem da honestidade) de tais argumentos. E menos ainda de sua aplicabilidade.

Paulo Henriques Britto em Formas do nada (2012), por exemplo, faz grande poesia a partir da negação de sentido das coisas. Consegue operar um isomorfismo entre os poemas e o que eles referenciam. Produz um belo livro. Inquestionavelmente. Mas o poeta é daqueles (raros) que conhecem a linguagem da poesia e sabem como usá-la a fim de produzir uma poesia do anti, do nada, do belo.

Isso falta a Bruna Beber. E falta aos que louvam sua poesia. Nestas horas surge a questão: a quem pensam que iludem aqueles que louvam uma poesia desse naipe? Ao leitor, minimamente informado, não procede o chove-não-molha destes gratuitos elogios.

Ler Bruna Beber, e seus bajuladores, é imergir numa convulsão de clichês, lugares-comuns, estereótipos. Dissimulação e engano de “poesia” e de “crítica”.

Ladainha não é nada mais do que o título antecipa: repetição, cantilena, lengalenga, fastio. Isso mesmo: o livro é um enfeixamento de prosaísmos sem pé nem cabeça. Que em vez ao invés de despertarem o desejo de mais poesia, lançam-no na cova das frases feitas, anotadas em forma de verso.

De volta ao poeta de The waste land: “O fundamental consiste em insistir que o poeta deva desenvolver ou buscar a consciência do passado e que possa continuar a desenvolvê-la ao longo de toda a sua carreira”. Ou seja: o conhecimento da tradição é indispensável para a produção de uma poesia de qualidade hoje. Mas a tradição não pode ser entendida como continuidade da geração anterior, como adesão à sua cartilha, cegamente. “A tradição implica um significado muito mais amplo. Ela não pode ser herdada, e se alguém a deseja, deve conquistá-la através de um grande esforço”. Quer seja: ela envolve estudo, conhecimento, dedicação. E Eliot frisa: esse é o sentido histórico da produção artística, que ele entende como estético.

Tenho escrito aqui no Augusta Poesia que falta a certo grupo de poetas, aqueles que se identificam (consciente ou inconscientemente) com a Poesia Marginal, esta consciência histórico-estética. Prossegue o poeta de Os quatro quartetos: “o mau poeta é habitualmente inconsciente onde deve ser consciente e consciente onde deve ser inconsciente”.

Eis um dos erros de Bruna Beber: sem informação histórica e com um olhar chapado sobre o mundo, patina e não avança. Vejamos alguns poemas de Ladainha.

O poema 97, citado abaixo e na íntegra, apregoa que escrever é associar metáforas a bel-prazer. Descompromissadamente. Lançando ideias ao deus-dará. Certo: a geração frufru de nuvem de algodão adora. Tudo bem, geração. Mas fica a questão: cadê a poesia?

“O poeta utiliza, adapta ou imita o fundo comum de sua época – ou seja, o estilo de seu tempo –, mas transmuta todos esses materiais e realiza uma obra única”, pontua Octavio Paz. Bruna Beber parece não ter a menor ideia do que isso signifique. Exemplo:

 

 

Escrever é irmão

do andar e primo

do voltar, substitua

 

No inverno é bom

 

Escrever com calma

e inventar um cinzeiro flutuante

chegar e sair descalço do poema

 

No verão bombom

 

Escrever sempre

o tempo é uma mula elástica em fuga

e se conselho fosse bom

 

Sair na rua de moletom

 

O poema 79 usa e abusa do uso do recurso da definição – com inventividade zero. Assim como do verso refrão. A musicalidade de manual de poesia resultante da empreitada não traz nenhuma nova taxa de informação ao poema. E a última estrofe é uma pilhéria bem ao gosto do repertório da poeta:

 

Poder é  perigo

e hoje acordei

rindo

 

Dom é tom

e hoje acordei

rindo

 

Querer é criatura

e hoje acordei

rindo

 

Na cara a boca

na pia o prato

sujos de feijão

 

 

Poema 17 é um enxovalhado de verbos no particípio – recurso pobre. E a quadra final arrola  metáforas de gosto deveras duvidoso:

 

 

chamado seguido

alcançado e ladeado

freado, encurralado

enfrentado e açoitado

aproveitado e submetido

 

perdido

dobrado

sucumbido

 

tomado obtido

recebido e levado

envolvido, ocupado

abrangido e bifurcado

expandido e vencido

 

por uma interjeição

de ordem

ao dom:

 

oxalá puindo a roupa

do distúrbio, velando

como música ambiente,

peneira de catar a vida.

 

No livro há dois poemas “concretos”. Ou que almejam sê-lo. Não são. Não conseguem. Mais: revelam o desconhecimento dos princípios da Poesia Concreta.  Acabam sendo debuxos mal lavrados. Revelam, isto sim, o que a poeta sabe de poesia: nada. Ou: qualquer coisa é poesia.  Finalizando, segue o menor deles – visualmente falando:

 

 

só com

só com muito

só com muito vento

 

Seria interessante finalizar esta coluna frisando que Bruna Beber, depois de quatro livros publicados, deve ao leitor de poesia um livro de poesia. Mas é inútil. Que seja poupada. Afinal, não se espera, e nem se tira, leite de pedra.

 

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