MOSTEIROS

Amador Ribeiro Neto

                     Nathan Sousa (Teresina, 1963) é professor, poeta e letrista. Recebeu os prêmios II de Literatura da UFES, Machado de Assis 2015 e Assis Brasil 2013, entre outros. Foi publicado pelas revistas “Mallarmargens”, “Benfazeja” e “Samizdat”. Integra antologias como “Novos poetas brasileiros – CBJE” (2012), “Versos repletos na noite vazia” (2013), “Sarau Brasil” (2013) e “Escriptonita”, a sair este ano. Autor de “O percurso das horas” (2012), “No limiar do absurdo” (2013), “Sobre a transcendência do silêncio” (2014), “Um esboço de nudez” (2014). “Mosteiros” (Guaratinguetá-SP: Penalux, 2015) é sua mais recente publicação.
A poesia de “Mosteiros” tece um arco que vai de Pessoa a Cabral e de Drummond a Leminski. De Pessoa e Leminski ele apanha a dicção reflexiva. De Cabral e Drummond, o andamento rítmico-imagético. Mas isto não é francamente perceptível. Antes: entrega-se pelos veios de uma poesia que prima por uma voz singular. Voz de um poeta que conhece a linguagem poética. Que sabe o peso da palavra.
Lê-se “Mosteiros” com grande prazer. Prazer de revelações surpreendentes, tanto temáticas como formais. Embora haja poemas que, pelo bem da harmonia do volume, não precisariam constar dele. Não que sejam fracos. Apenas rarefazem-se na densidade bem arquitetada do livro
O volume inicia-se bem com “5h30min”: “Hoje eu quebrei meu despertador. / Relógio é invento traiçoeiro: / espanta-nos na hora marcada / sem culpa ou riso de ironia”. Mais adiante, conclui: “Sonhar, sim, é que é bom negócio. / O problema é o relógio, que não / sabe o que se passa antes da / hora certa”.
“Desvio” é o caso de um poema que promete, mas não se concretiza. Falta definição à sua excessiva atmosfera metafórica: “Um olho vago se entretece / com o ouro dos dementes. // O outro dorme / feito tulipas / vazias”.
“Voo” se enrosca no trocadilho fácil: “é como estar / entre a pálpebra / e o sono: despovoado”. Não é de todo frágil. O diabo é que o poeta nos acostumou com o “mel do melhor”, para nos valermos do título de certa antologia de Wally Salomão.
Todavia, repito, a grande maioria dos poemas toca o leitor pela engenhosidade de Nathan Sousa. Cito “Oráculo”, em que as banalidades das ações de amor são manifestas com apuro. E com aguda revelação final: “Em casa, ainda, absorta em espectros, / não estava a salvo das angústias. // O olor das frutas amargas lhe indicava / sempre a fortuna dos amores frágeis. / Mensagens de ‘eu te amo’ tatuavam / as paredes do quarto abandonado. / E ‘para sempre’ estava gravado com / faca num canto da janela. Nenhuma data // memorável foi antecipada. Somente / as nuvens pareciam de enterro”.
Outro bom poema é “Papel dobrado”. Aqui, um objeto cotidiano banal é alçado à categoria de metáfora, negada pelo próprio poema. Negação freudiana perpassada pelo brilho da metalinguagem e da vida: “Venerar-te sobre a mesa / é prender-se ao que o olho / devora feito a fome que / atravessa o dia: esta / ruela indefinida a que todos / os pés se habituam, e de onde / se pode voar sem a metáfora / do pássaro, porque desejo, / dor e despedida deixam / mais rastros que qualquer / canto nas alturas”.
“Mosteiros” é composto por quatro seções: “Arcanos”, “Cabo Verde”, “Inóspito” e “Infortúnio”. Todas convergem à meditação de temas cotidianos. Mas o título remete, também, a mostruário, vitrine. E aí a vida é revelada ao leitor, com o olhar penetrante, perspicaz e desautomatizador de Nathan Sousa. Eis o poeta cumprindo um dos pilares basilares da poesia, segundo o russo Chklóvski.

Publicado pelo jornal CONTRAPONTO, João Pessoa-PB. Caderno B, coluna Augusta Poesia, dia 11.09.2015, p. B-7.

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