ACASO CAOS

Bruno Gaudêncio (Campina Grande-PB, 1985) é poeta, jornalista e escritor. Mestre em História pela Universidade Federal de Campina Grande, onde também é professor. Editor da revista eletrônica de literatura “Blecaute”. Estreou com “O ofício de engordar as sombras” (2009). “Acaso caos” (João Pessoa: Ideia, 2013) é seu mais recente livro de poesia, prefaciado por Luis Avelima e posfaciado por Weslley Barbosa. O volume também traz um anexo com vários comentários sobre sua poesia.
Sobram louvações para o poeta. Comecemos com o prefácio. Luis Avelima pontua que estamos diante de “um poeta com espaço garantido entre o que de melhor se apresenta no fazer poético nacional. Digo isso sem qualquer receio”. Avelima se engana redondamente ou quer enganar o leitor? Ele devia ser mais criterioso, mais receoso e menos hiperbólico.
Weslley Barbosa, que assina como “poeta e crítico literário paraibano”, compara o poeta a Baudelaire, Drummond, Augusto dos Anjos. E conclui assertivamente que a poesia de Bruno Gaudêncio possui “grande qualidade e que, certamente, está entre as mais significativas da atualidade na Paraíba”. Será mesmo?
Se Avelima o coloca entre os melhores do país, Barbosa é mais modesto e o situa entre os mais significativos da Paraíba. Ambos se equivocam redondamente. Sinto desdizê-los. Mas creio que o espaço desta coluna, sem o peso da chancela de aprovação do prefácio e do posfácio, pode revelar um ponto de vista mais isento.
Bruno é um poeta que erra muito a mão. Mas, não só. Ele também acerta. Podemos dizer, com certa ressalva, que é um poeta que manifesta recursos de ser promissor. Como bem pontuou o grande poeta Sérgio de Castro Pinto: “Uma coisa é ter sensibilidade – e você a tem! – e a outra é encontrar as palavras para soletrar a vida”. E, generoso e acolhedor dos novos nomes, incentiva: “Vá em frente, poeta!”.
Vejo nos dois livros publicados uma mão pesada no trato com a linguagem poética. Mão que em raros momentos acerta o alvo. Quem sofre é o leitor. Que se vê enganado redondamente pela gratuidade afirmativa de elogios feitos ao Bruno.
Sentir não é suficiente para fazer arte. E menos ainda poesia, a arte verbal mais especializada. João Cabral abominava os sentimentos puros. Detonou a “poesia dita profunda”.
Valéry, já dissemos aqui, batia na tecla: o poeta não precisava ser inspirado. Mas tem o dever de fazer o leitor sentir-se inspirado. Ou seja: é preciso saber converter a sensibilidade em linguagem. E este conhecimento só se dá com a leitura da melhor poesia. Nacional e estrangeira. Assim como das teorias sobre poesia.
O poeta moderno, desde Baudelaire e Mallarmé, é antes de tudo um conhecedor da linguagem. Bruno Gaudêncio é didático, explicativo e persuasivo. Como se poesia fosse matéria de explanação. É ele mesmo quem diz “o poema angustia-se / quando (mal) nascido”. Ao colocar “mal” entre parênteses, permitindo a leitura dupla dos versos, revela-se é dúbio. Não sabe pra que lado atira.
Cito o poema “Ponte”: “não procures apenas / um sentido / na palavra ponte / : ela parte / extremos terrenos / e significados, // ligando / separando”. E conclui: “A ponte é a porta do destino”. Isto parece o ABC do vocábulo ponte para alunos no início da alfabetização.
Numa mistura de Cabral com Rosa, ele acerta quando se vale da condensação presente na repetição. Em “Metáfora do rio”, a redundância possui taxa informativa: “há uma margem de homem / em cada rio / há uma margem de rio / em cada homem”. Este poema é um parco diamante em meio a uma vasta mina de carvão.
O poeta precisa ler poesia. Estudar teoria da poesia. Ler com olhos críticos sua própria poesia. Deixar a vaidade das citações oba-oba. Bruno Gaudêncio está ali na porta de entrada dos poetas promissores. Vamos esperar por seu próximo livro.

Publicado pelo jornal CONTRAPONTO, João Pessoa-PB. Caderno B, coluna Augusta Poesia,  15.05.2015, p. B-6

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